Archive for Julho, 2011

Alexandre O´ Neill –  Gaivota
Julho 28, 2011

Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.

Alexandre O´Neill (Lisboa, 19/12/1924 – Lisboa, 21/8/1986)
Poeta, cronista e tradutor, fundador do Movimento Surrealista de Lisboa com Mário Cesariny, José Augusto França e António Pedro.

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Teolinda Gersão – O Jogo e o Sonho
Julho 20, 2011

“(…) O dia não quebrava os sonhos, podia-se dormir de olhos abertos, e a vida era gozada e fácil como o jogo e o sonho.
Podiam-se abrir os braços e gritar: Eu vivo (…) Porque o corpo ligava a terra ao céu.”

GERSÃO, Teolinda, A Árvore das Palavras

Teolinda Gersão (Coimbra, 1940)
Romancista, contista, professora universitária.

Dificuldades da Língua Portuguesa – O Maestro e a…
Julho 20, 2011

Maestrina, feminino de maestro – quem dirige ou rege uma orquestra, banda ou coro.

Ex.: O maestro Contente é muito competente!

A orquestra é dirigida por uma maestrina.

José Cardoso Pires – Mistério …
Julho 19, 2011

“… em tudo o que é criativo, seja no amor, ou neste caso na escrita, tem de haver algum mistério.”

José Cardoso Pires (São João do Peso, 2/10/1925 – Lisboa, 26/10/1998)
Romancista, contista, novelista, cronista, ensaísta, dramaturgo.

Lídia Jorge – O Desejo
Julho 19, 2011

“Estamos circunscritos pelo desejo de vir a ser”

JORGE, Lídia, O Cais das Merendas

Lídia Jorge (Boliqueime, Algarve, 18 de Junho de 1946)
Romancista, autora de antologias poéticas e de uma peça de teatro, colaboradora de diversas revistas e jornais, professora, licenciada em Filologia Românica.

Zeca Afonso – “Na Rua António Maria”
Julho 19, 2011

Poema manuscrito por Zeca Afonso e apreendido no dia 4 de Outubro de 1971 quando foi preso pela DGS no aeroporto de Lisboa.

Luísa Ducla Soares – Peguei na Serra da Estrela
Julho 19, 2011

Peguei na Serra da Estrela
para serrar uma cadeira
e apanhei um nevão
numa serra de madeira.

Com as linhas dos comboios
bordei um lindo bordado,
quando o comboio passou
o pano ficou rasgado.

Nas ondas do teu cabelo
já pesquei duas pescadas.
Olha para as ondas do mar,
como estão despenteadas.

Guardo o dinheiro no banco,
guardo o banco na cozinha.
Tenho cem contos de fadas,
que grande fortuna a minha.

Com medo que algum ladrão
um dia me vá roubar,
mandei pôr na minha porta
três grossas correntes de ar.

Encomendei um cachorro
naquela pastelaria;
quem havia de dizer
que o maroto me mordia?!

Apanhei uma raposa
no exame e estou feliz:
vejam que lindo casaco
com a sua pele eu fiz.

Entrei numa carruagem
para voltar à minha terra,
enganei-me na estação
e desci na Primavera!

SOARES, Luísa Ducla, Poemas da Mentira … e da Verdade

Luísa Ducla Soares (Lisboa, 20/7/1939)

Poetisa ligada ao grupo Poesia 61, destacada escritora de literatura infantil, licenciada em Filologia Germânica.

Matilde Rosa Araújo – Um Amigo
Julho 19, 2011

Esta noite deitei-me triste.
Abri um livro, passei uma folha, outra folha.
Quando cheguei ao fim tinha o coração cheio
de folhas e de flores…

ARAÚJO, Matilde Rosa, O Cantar da Tila

Matilde Rosa Araújo (Lisboa, 18/6/1921 – Lisboa, 06/07/2010)
Contista, poetisa e novelista com prevalência na literatura infanto-juvenil, professora, licenciada em Filologia Românica.

Maria Alberta Menéres – Canção para fazer um bolo
Julho 19, 2011

Se a colher de pau
ao céu chegar,
o açúcar em ponto
vai ter de adoçar.

O bolo no forno
bela vida tem!
Vamos lá a ver
se o bolo sai bem.

Chávena de leite
pitada de sal…
Vamos lá a ver
se o bolo sai mal.

Fugiu uma clara
do ovo que havia,
nas nuvens entrou
mesmo ao meio-dia.

Maria Alberta Menéres (Vila Nova de Gaia, 25/8/ 1930)
Professora, tradutora, jornalista, poetisa e escritora infanto-juvenil, mãe da cantora Eugénia Melo e Castro.

Jaime Cortesão – Português, Língua de Navegantes
Julho 19, 2011

“Mas, acima de tudo, a língua portuguesa foi profundamente moldada pelo estilo de vida dos Portugueses: marcada pelo mar e pelas navegações. A cada passo, todos nós, Portugueses e Brasileiros, falamos, sem o saber, tão comuns se tornaram certas expressões, uma linguagem de bordo.

O mais sedentário de nós, quando fala, contínua, pela força da tradição, a navegar.

Aqueles a quem sorri a fortuna próspera, vão de vento em popa.

Marcham triunfantes na vida? Seguem a todo o pano.

Aceleram a marcha? Vão de rota batida.

Guia-os por bom caminho algum anjo protector? Têm bom piloto.
(…)
Se os lerdes vão na corrente, os mais ladinos e ágeis sabem singrar, aproveitar a maré ou navegar conforme os ventos.
(…)
Os que lutam até ao último extremo agarram-se à última tábua de salvação, e se, ai deles, ao fim se perdem, dão consigo à costa, ou vão a pique.
(…)
Assim como o navegante deixa cair a sonda para explorar o fundo junto à costa, sonda-se alguém, e se a experiência revelou pessoa de bom natural, diz-se dela que tem bom fundo.

Homem feliz voga num mar de bonança; negócio que se perde, foi-se à vela (…)

Poder-se-ia objectar que também nas outras línguas ocorrem casos semelhantes. Mas de forma alguma com esta frequência.”

Jaime Cortesão (Ançã, Cantanhede, 29/4/1884 – Lisboa, 14/8/1960)
Médico, político, escritor e historiador.