Archive for Setembro, 2011

Cesário Verde aos Olhos de Alberto Caeiro
Setembro 26, 2011

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.

Cesário Verde (Lisboa, 25/2/1855 – Lumiar, 19/7/1886)
Poeta, estudante do curso Superior de Letras.

Atalívio Rito (Padre Atalívio) – A Vocação da Margarida
Setembro 26, 2011

(…)
Qual é a tua vocação margarida?

– É ser margarida.

– E que é que isso quer dizer?

Todos me respondeis igual!

– Quer dizer que ser margarida

é ser pequenina,

sem de tal se importar

e ser muito feliz

por me ver repetida en tantos milhões de irmãs,

em toda a terra,

sem que jamais alguma doutra tenha inveja.

– Não gostarias de ser uma grande flor

como o girassol, por exemplo,

que brilha como o ouro?

– Não,

não quero deixar de ser o que sou,

porque a secreta alegria de Deus,

assim me criou

e me disse:

– A Minha Humildade,

a Minha ternura e simplicidade,

precisam de ti.

Serás desta maneira: Margarida,

e profusamente,

como o suave e fresco rocio da manhã, nas almas.

– Serei, pois, o que quer ser em mim o meu Senhor.

Só ele é importante.

– Pronto, está bem!
(…)

Padre Atalívio

Atalívio José Rito (Alvalade do Sado, 28/7/1948)
Escritor, colaborador em diversas publicações, sacerdote.

Miguel Torga – Um Poema
Setembro 20, 2011

Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e de feitiço…
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz…

Miguel Torga (São Martinho de Anta, Vila Real, 12/8/1907 – Coimbra, 17/1/1995)
Pseudónimo de Adolfo Correia Rocha.
Um dos mais importantes escritores portugueses do século XX, galardoado com Prémio Camões em 1989, médico.

José Gomes Ferreira na Primeira Pessoa
Setembro 20, 2011

“Nasci no Porto. Vom para Lisboa com quatro anos, e a minha vida começou na rua que hoje se chama Heliodoro Salgado, mas que nessa altura era a Calçada do Monte Agudo.

Dali gritei:
– “Viva a República!”, num dia 5 de Outubro, tinha eu dez anos.

(….) foi sempre um problema para mim saber a que geração pertenço…
Eu sou filho do século, não é… Assisti a tudo!
Andei na escola da Monarquia, fui um fervoroso republicano, presenciei todas as guerras, fascismos e não-fascismos…

Mas comecei a escrevinhar muito novinho. Depois, na altura de neo-realismo, disseram que eu pertencia à geração de quarenta, e eu lá ia fazendo umas coisas sem ligar a isso. Verdadeiramente, acho que sou um tipo dos vinte que foi crescendo…”

José Gomes Ferreira (Porto, 9/6/1900 – Lisboa, 1985)
Poeta, jornalista – colaborador da Presença e Seara Nova-, membro do Novo Cancioneiro, compositor musical, tradutor de filmes, Presidente da Associação Portuguesa de Escritores, licenciado em Direito, cônsul na Noruega, pai do arquitecto Raul H. Ferreira e do poeta Alexandre Vargas.

Manuel Alegre – Letra para um Hino
Setembro 20, 2011

É possível falar sem um nó na garganta.
É possível amar sem que venham proibir.
É possível correr sem que seja a fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.

É possível andar sem olhar para o chão.
É possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros.
Se te apetece dizer não, grita comigo: não!

É possível viver de outro modo.
É possível transformar em arma a tua mão.
É possível viver o amor.
É possível o pão.
É possível viver de pé.

Não te deixes murchar.
Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre, livre, livre.

Manuel Alegre (Águeda, 12/5/1936)
Poeta, prosador e político português.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa – António Jacinto – Carta de um Contratado
Setembro 15, 2011

Eu queria escrever-te uma carta
amor,
uma carta que dissesse
deste anseio
de te ver
deste receio
de te perder
deste mais bem querer que sinto
deste mal indefinido que me persegue
desta saudade a que vivo todo entregue…

Eu queria escrever-te uma carta
amor,
uma carta de confidências íntimas,
uma carta de lembranças de ti,
de ti
dos teus lábios vermelhos como tacula
dos teus cabelos negros como dilôa
dos teus olhos doces como maboque
do teu andar de onça
e dos teus carinhos
que maiores não encontrei por aí…

Eu queria escrever-te uma carta
amor,
que recordasse nossos tempos a capopa
nossas noites perdidas no capim
que recordasse a sombra que nos caía dos jambos
o luar que se coava das palmeiras sem fim
que recordasse a loucura
da nossa paixão
e a amargura da nossa separação…

Eu queria escrever-te uma carta
amor,
que a não lesses sem suspirar
que a escondesses de papai Bombo
que a sonegasses a mamãe Kieza
que a relesses sem a frieza
do esquecimento
uma carta que em todo o Kilombo
outra a ela não tivesse merecimento…

Eu queria escrever-te uma carta
amor,
uma carta que ta levasse o vento que passa
uma carta que os cajús e cafeeiros
que as hienas e palancas
que os jacarés e bagres
pudessem entender
para que o vento a perdesse no caminho
os bichos e plantas
compadecidos de nosso pungente sofrer
de canto em canto
de lamento em lamento
de farfalhar em farfalhar
te levassem puras e quentes
as palavras ardentes
as palavras magoadas da minha carta
que eu queria escrever-te amor….

Eu queria escrever-te uma carta…

Mas ah meu amor, eu não sei compreender
por que é, por que é, por que é, meu bem
que tu não sabes ler
e eu – Oh! Desespero! – não sei escrever também

António Jacinto (Luanda, 28/9/1924 – Lisboa, 23/6/1991)
Poeta e contista, que neste contexto usava o pseudónimo de Orlando Távora, colaborador em diversas publicações, recebeu o prémio Nacional de Literatura em 1985.

António Gedeão – ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA
Setembro 15, 2011

Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio
E um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé
Para ver quem é,
Enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas
E correr pelos interstícios das pedras, pressuroso e vivo como vermelhas minhocas
Despertas;
Enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas,
Órfãos de pais e mães,
Andarem acossados pelas ruas
Como matilhas de cães;
Enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto
Com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,
Num silêncio de espanto
Rasgado pelo grito da sereia estridente;
Enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio
Cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas
Amassando na mesma lama de extermínio<br /
Os ossos dos homens e as traves das suas casas;
Enquanto tudo isso acontecer, e o mais que se não diz por ser verdade,
Enquanto for precido lutar até ao desespero da agonia,
O poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade:

ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA

António Gedeão (Lisboa, 24/1/1905 – Lisboa, 19/2/1997), pseudónimo de Rómulo de Carvalho
Poeta, pedagogo, historiador de ciência e educação, professor, licenciado em Ciência Físico-Químicas.

Al Berto – Dizem…
Setembro 13, 2011

dizem que a paixão o conheceu

mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite enumera

o que lhe sobejou do adolescente rosto

turvo pela ligeira náusea da velhice

conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade

ergue-se para o espelho

que lhe devolve um sorriso tamanho do medo

dizem que vive na transparência do sonho

à beira-mar envelheceu vagarosamente

sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nenhum ofício cantante

o tenha convencido a permanecer entre os vivos

Al Berto (Coimbra, 11/1/1948-Lx, 13/6/1997)
Pseudónimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares
Poeta, pintor, editor, animador cultural, um “coimbrense-siniense” único.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa – Jorge Barbosa – Poema do Mar
Setembro 13, 2011

O drama do Mar,
O desassossego domar,
sempre
sempre
dentro de nós!

O Mar!
cercando
prendendo as nossa Ilhas!
Deixando o esmalte do seu salitre nas faces dos pescadores,
Roncando nas areias das nossas praias,
Batendo a sua voz de encontro aos montes,
baloiçando os barquinhos de pau que vão Poe estas costas…

O Mar!
pondo rezas nos lábios,
deixando nos olhos dos que ficaram
a nostalgia resignada de países distantes
que chegam até nós nas estampas das ilustrações
nas fitas de cinema
e nesse ar de outros climas que trazem os passageiros
quando desembarcam para ver a pobreza da terra!

O Mar!
a esperança na carta de longe
que talvez não chegue mais!

O Mar!
Saudades dos velhos marinheiros contando histórias de tempos passados,
Histórias da baleia que uma vez virou canoa…
de bebedeiras, de rixas, de mulheres,
nos portos estrangeiros…

O Mar!
dentro de nós todos,
no canto da Morna,*
no corpo das raparigas morenas,
nas coxas ágeis das pretas,
no desejo da viagem que fica em sonhos de muita gente!

Este convite de toda a hora
que o Mar nos faz para a evasão!
Este desespero de querer partir
e ter que ficar!

Jorge Barbosa (Praia, Ilha de Santiago, Cabo Verde, 25/5/1902 -Cova da Piedade, 6/1/1971)
Poeta, colaborador em revistas e jornais, um dos fundadores da Revista Literária Claridade, pioneiro da poesia cabo-verdiana.

Jorge Amado – Seara Vermelha
Setembro 13, 2011

O vento arrastou as nuvens, a chuva cessou e sob o céu novamente limpo crianças começaram a brincar. As aves de criação saíram dos seus refúgios e voltara a ciscar no capim molhado. Um cheiro de terra, poderoso, invadia tudo, entrava pelas casas, subia pelo ar. Pingos de água brilhavam sobre as folhas verdes das árvores e dos mandiocais. E uma silenciosa tranqüilidade se estendeu sobre a fazenda, as árvores, os animais e os homens.
Apenas as vozes álacres das crianças, pelos terreiros, cortavam a calma daquele momento:

Chove, chuva chuverando
Lava a rua do meu bem…

Vestidas de trapos sujos, algumas nuas, barrigudas e magras, as crianças brincavam de roda.
Farrapos de nuvens perdiam-se no céu de um azul claro onde primeiras e leves sombras anunciavam o crepúsculo.

Jorge Amado (Itabuna, 10/8/1912 – Salvador, 6/8/2001)
Romancista, poeta, dramaturgo, cronista, jornalista.
Distinguido com o Prémio Camões em 1994.