Archive for Novembro, 2011

Literatura Africana de Expressão Portuguesa – Manuel Rui – Serenata
Novembro 30, 2011

Caem à noite pedras
sobre o templo
do silêncio
de espaço
um ruído de automóvel
um toque de sinos de uma igreja
monotonia diurna que não quebra
a queda das pedras
no silêncio

De dia o templo é
noite
e à noite há o silêncio
o esgaravatar de uma gaivota em fogo
o estalar de folhas novas
numa árvore
sabendo a vício este cigarro
de cheira a seiva dos pinheiros

E as pedras caem
como chuva ou neve
todas as noites que noites
já são poucas

E a seiva pedra sobre o templo
e a gaivota
o vício
a folha
quebrando este silêncio

Onde as guitarras?
Os quissanges acontecem longe

Manuel Rui (Nova Lisboa, Angola, 1941)
Poeta, cronista, crítico, ensaísta, professor de literatura, colaborador em jornais, revistas e programas de rádio e cinema, advogado, fundador e membro da União dos Artistas e Compositores Angolanos, da Sociedade de Autores Angolanos e da União de Escritores Angolanos

Manuel Laranjeira – Pobre Portugal!
Novembro 30, 2011

“Neste malfadado país, tudo o que é nobre se suicida; tudo o que é canalha triunfa.”
(…)
“Dentro de alguns dias, a 1 de Dezembro, celebrarão as festas da restauração da sua nacionalidade, ter sacudido a soberania dos Filipes de Espanha. No dia seguinte voltarão a falar de bancarrota e de intervenção estrangeira. Pobre Portugal!”

Manuel Laranjeira (S. Martinho de Mozelos, Santa Maria da Feira, 17/8/1877 – Espinho, 22/2/1912)
Poeta, dramaturgo, colaborador em diversas publicações, licenciado em Medicina, doutorado, destacado homem da cultura.

As Dúvidas do Zé-Concertina – O Tipo da Tarte – Caseira ou Caseiro?
Novembro 30, 2011

Conversa entre o Zé-Concertinaa, as Vogais e Outros Mais…

– Ó Menina Consoante T, pode dar uma ajudinha aqui ao Zé-Concertina, se faz favor?

– Claro que sim!

– Obrigado! Passei ali pela pastelaria do Papa Tudo e ouvi uma Sr.ª estar a dizer que tinha comido uma tarte tipo caseira. E a outra respodeu-lhe:

– Eu também prefiro a tarte tipo caseiro.
No que é que ficamos, Menina?

– Sr. Zé-Concertina, é muito fácil: uma tarte tipo caseiro é a frase correta.

– Eu cá bem me parecia, Menina, por causa do género, não é?

– Muito bem! O adjetivo caseiro concorda com tipo, género masculino.

– Obrigado, Menina Consoante! Mas, também posso dizer: uma tarte caseira?

– Nesse caso, Sr. Zé-Concertina, também há concordância do género feminino.

– Muito agradecido, Menina! Até qualquer dia!

– Não tem de quê! Até qualquer dia!

Miguel Esteves Cardoso – Continuar Portugal
Novembro 30, 2011

“(….)
Continuar Portugal não é uma acção delicada, ou uma campanha urgente, ou uma tarefa que exija o sacrifício de todos os cidadãos. É simplesmente continuar a perguntar, a barafustar, a amaldiçoar o dia em que se nasceu desta cor, nesta pele, com este coração mole e fácil de apertar e espremer. Continuar Portugal é acreditar que a vida seria pior sem ele, pior se a Europa começasse pela Espanha, pior se fôssemos suíços ou belgas ou finlandeses. Continuar Portugal é ser português e dizer “Pronto, que se lixe, o que é que eu hei-de fazer?”. E acreditar na diferença que faz a nossa maneira de ser, e de sermos portugueses, como um cardiologista acredita que o coração foi feito para continuar a bater.
E foi. E, o que é mais engraçado, continua!”

CARDOSO, Miguel Esteves, in Os Meus Problemas

Miguel Esteves Cardoso (Lisboa, 25/7/1955)
Romancista, dramaturgo, cronista, crítico, jornalista, doutorado em Filosofia Política.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa – Mia Couto – Ser Que Nunca Fui
Novembro 30, 2011

Começo a chorar
do que não finjo
porque me enamorei
de caminhos
por onde não fui
e regressei
sem ter nunca partido
para o norte aceso
no arremesso da esperança

Nessas noites
em que de sombra
me disfarcei
e incitei os objectos
na procura de outra cor
encorajei-me
a um luar sem pausa
e vencendo o tempo que se fez tarde
disse: o meu corpo começa aqui
e apontei para nada
porque me havia convertido ao sonho
de ser igual
aos que não são nunca iguais

Faltou-me viver onde estava
mas ensinei-me
a não estar completamente onde estive
e a cidade dormindo em mim
não me viu entrar
na cidade que em mim despertava

Houve lágrimas que não matei
porque me fiz
de gesto que não prometi
e na noite abrindo-se
como toalha generosa
servi-me do meu desassossego
e assim me acrescentei
aos que sendo toda a gente
não foram nunca como toda a gente

Mia Couto (Beira, Moçambique, 1955)
Jornalista – Poeta, contista, novelista, romancista, colaborador de diversas publicações, biólogo e professor.
Nome próprio: António Emílio Leite Couto – “Mia”, pronúncia de Emílio pelo irmão, adoptado também pelo seu amor aos gatos.

Augusto Abelaira, José Gomes Ferreira e Carlos de Oliveira
Novembro 30, 2011

Julieta Monginho – Liberdade
Novembro 30, 2011

“Se tivesse que escolher in extremis um valor, em última análise, optaria sempre pela liberdade.”

Julieta Monginho (Lisboa, 1958)
Romancista, colaboradores de revistas literárias e jurídicas, magistrada.

José Vegar – O Futuro
Novembro 30, 2011

“Acredito que hoje, mais do que nunca, o futuro dos países, da democracia e do bem-estar das sociedades se joga muito no ambiente urbano e principalmente nas periferias onde todas as desigualdades chocam e onde todos os problemas surgem (….)”

José Vegar (1969)
Romancista, argumentista, jornalista e investigador.

Jose Viale Moutinho – A Régua
Novembro 30, 2011

“Eu via a régua a ergue-se com lentidão e, de seguida, baixar com velocidade e força. Antes, timidamente, tentara arrancar as mãos, ora a direita, ora a esquerda da tenaz com as pontas envernizadas de vermelho, as mãos papudas da professora que me castigava.
Doze réguadas em cada mão(…).”

José Viale Moutinho (Funchal, 12/6/1945)
Poeta, ficcionista, ensaísta, jornalista.

José Tolentino Mendonça – Os Versos
Novembro 30, 2011

Os versos assemelham-se a um corpo
quando cai
ao tentar de escuridão a escuridão
a sua sorte

nenhum poder ordena
em papel de prata essa dança inquieta

José Tolentino Mendonça (Machito, Madeira, 15/12/1965)
Poeta, ensaísta, sacerdote, professor universitário.