Archive for Janeiro, 2012

Eugénio de Andrade – O Alentejo, uma Grande, Imensa Felicidade!…
Janeiro 31, 2012

“(…) O Alentejo é inimigo do barroco em nome e em claridade. Mundo cerrado (quase apetecia escrever: encarcerado), sem dúvida; mas dos seus limites tira o alentejano a força.

O seu olhar, na impossibilidade de ir mais longe, irá cada vez mais fundo, e o que lhe sai das mãos é fruto de uma paisagem (…) essencial, de que pode orgulhar-se um homem, quando lhe reflete o rosto ou a alma.(…)”

ANDRADE e ALVES, Eugénio e Armando, “Uma Grande, Imensa Felicidade”, in Alentejo.

Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, Fundão , 19/01/1923 – Porto, 13/06/2005)
Pseudónimo de José Fontinhas.
Poeta de renome internacional, tradutor, prosador, autor de literatura infantil, antologista, detentor de diversos prémios literários, nomeadamente o Prémio Camões em 2001.

Sophia – O Sol, o Recomeço!…
Janeiro 31, 2012

“(…) A omnipotência do sol rege a minha vida enquanto me recomeço em cada coisa. Por isso trouxe comigo o lírio da pequena praia. (…)”

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, Obra Poética II

Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 6/11/1919 – Lisboa, 2/7/2004)
Poetisa, contista, autora de literatura infantil e tradutora, a 1.ª mulher portuguesa a receber o prémio Camões (1999).

Maria Andresen –Fotografia dos meus avós
Janeiro 31, 2012

Ela tem o corpo levemente inclinado
acompanhando, tamb’em com a cabeça,
a bela doçura do olhar que a tarde continua
e que mistura, ao rumor da alegria,
para cujo lado o rosto se inclina,
a sombra já, como conjura, de uma
quase visível nostalgia;
nele há um pouco mais de desajuste,
de susto, corpo grande e no entanto pueril,
no fruste meneio das mãos atrapalhadas,
aos atoleiros da vida desatreito, cerrado,
viverá entre caçadas e cães
e morrerá na Ria

Maria Andresen (Porto, 1948)
Poetisa, co-autora dos Cadernos de Literatura, ensaísta, professora na FLL, licenciada em Filologia Românica, mestre em Ensino da Literatura, doutorada em Literatura Comparada, filha da poetisa Sophia de Melo Breyner Andresen.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa – Francisco José Tenreiro – O Mar
Janeiro 31, 2012

O MAR

A voz branca que está no mato
perde-se na imensidão do mar.
Lá vai!
O sol bem alto
é uma atrapalhação de cor.
-Abacaxi safo nona
carregozinho do barco!…

Um tubarão passando
é um risco de frescura.
Lá vai!

O barco deslizando
só com a vontade livre e certa do negro
lá vai!

Francisco José Tenreiro (São Tomé, 1921-1963)
Poeta, ensaísta, contista, colaborador de diversas publicações Integrou a Casa dos Estudantes do Império, co-fundador do Centro de Estudos Africanos, professor universitário, doutorado em Ciências Geográficas (FLUL) e em Ciências Sociais (Inglaterra,1961).

Gerardo Mello Mourão – A Ronda da Pátria
Janeiro 31, 2012

Sou o Índio Americano, – o Guaycuru selvagem,
O Goitacaz fogoso.
Sou Y-Juca-Pyrama, – o Aimoré que não morre
Sempre valente e sempre belicoso!

Convoquei cinco mil dos meus Tamoios,
Defendi minha Terra.
Ou Tupi, ou Tapuia, – eu sou Ararigboia
Sei vibrar o boré nas explosões da guerra!

Outrora me chamaram Anchieta
E eu preguei a palavra do Senhor.
Fui santo, fui apóstolo,
E derramei a Crença, a Esperança, o Amor!

Eu andei nas bandeiras do sertão
E palmo a palmo conquistei a Terra!
E lutei… e venci… levei a minha Crença
Desde o altar de campina aos coliseus da serra!

Derramei o meu sangue em Guararapes
E chamei-me Poti.
Tinha o sol tropical a incentivar-me à luta,
Tinha o calor da Terra a aquecer-me, – e venci

Fui herói nas Tabocas… lutei muito…
Eu sou Henrique Dias!…
Vai procurar por mim nos campos do Avaí
Que o meu nome é Caxias!

Chamo-me Osório em Lomas Valentinas.
E o meu nome é Sampaio em Tuiuti!
– Ah! se visses a Pátria levantada e viva
E heróica como eu vi!

Se estivesses comigo em Curuzu…
Se me visses em Peribebuí…
Em Estero Belaco, Estero Rojas,
San Solano, Augustura ou Caraguataí…

Se tivesses ouvido a música divina,
Que eu cantei pela boca do canhão
Nas águas revoltosas de Riachuelo,
Em Paissandu, então!…

Ah!… lá eu fui Tamandaré,
O espírito das águas revoltado!
Fui Barroso e deixei um pouco do meu sangue
Entre as veias da Terra misturado!…

Guerra do Paraguai… eu a ganhei!…
Eu comandei a todas as batalhas…
E tenho o corpo cheio de feridas…
E tenho o peito cheio de medalhas…

Fui músico depois… chamei-me Carlos Gomes
Cantei o Guarani, – a voz da Raça;
Repara: – ainda o som deste poema
Clangora e ruge quando o vento passa…

Meu nome é Castro Alves… fui Poeta…
Há nos meus versos o fragor das lutas…
O baque colossal de Paulo Afonso
E o cheiro americano das florestas brutas.

Dedilhei no violão do sertanejo rude
O fogo das manhãs e as noites de luar…
Fui Juvenal Galeno e o Brasil suspirou
Na minha inspiração de bardo popular!

Chamei-me Floriano e governei meu povo.
Fui Plácido de Castro e fiz-me general,
E conquistei o Acre,
“Transformando em província, o brio nacional!”

Sou o sábio que pensa… o filósofo eterno,
Vôo da Terra em busca do Infinito.
Sonho revoluções… sou Jackson de Figueiredo
E sou Farias Brito!

Ah! eu sempre existi! Fui Rosica em Bauru
E, como Cristo dei meu sangue à minha Raça!
Fui Jayme Guimarães, e fui Spinelli
Nos combates da praça!

Chamei-me Schroeder e tombei no pampa.
Fui Alberto Secchim.
Quis a auréola do mártir e de herói
Em Cachoeiro do Itapemirim…

Hoje visto a Camisa-Verde e sou Plínio Salgado!
Sempre existi e sempre existirei.
Sou o gênio da Pátria, – a eterna Mocidade,
– E nunca morrerei!

Gerardo Mello Mourão (Ipueiras, 8/11/1917 – Rio de Janeiro, 9/3/2007)
Poeta, escritor, jornalista, e professor universitário.

Gil VIcente – Apresentação da Frasa de Inês Pereira
Janeiro 31, 2012

“A seguinte farsa de folgar foi representada ao muito alto e mui poderoso Rei D. João, o terceiro do nome em Portugal, no seu Convento de Tomar. Era do Senhor M.DXXIII.

O seu argumento é que, porquanto duvidavam certos homens de bom saber, se o autor fazia de si mesmo estas obras, ou se as furtava de outros autores, lhe deram este tema sobre que fizesse: s. (sciicet = a saber) um exemplo comum que dizem: mais quero asno que me leve que cavalo que me derrube. E sobre este motivo se fez esta farsa.”

VICENTE, Gil, Farsa de Inês Pereira

Gil Vicente (1465-1536)
Dramaturgo, poeta, músico, actor e encenador, considerado o pai do teatro português.

Orfeu B – Teorema Fernando Pessoa
Janeiro 31, 2012

Na variedade curva diferencial FP,
as funções poéticas
B de Beleza,
D1 de Deleite,
D2 de Desassossego,
E de Empatia, etc,
com argumento pessoano,
são todas contínuas e infinitamente
diferenciáveis, Cºº (FP),
isto é, são suaves,
quando a plenitude e as relações de
ortonormalidade
associadas aos diversos estados do poeta
forem satisfeitas.

B., Orfeu, Instituto de Felicidade Teórica

Orfeu Bertolami (S.Paulo, Brasil, 1959)
Poeta, escritor científico, professor e investigador no Instituto Superior Técnico de Lisboa, especialista em Artrofísica e Cosmologia.

Padre António Vieira – O Amor Fino
Janeiro 31, 2012

O amor fino não busca causa nem fruto.

Se amo, porque me amam, tem o amor causa; se amo, para que me amem, tem fruto: e amor fino não há-de ter porquê nem para quê.

Se amo, porque me amam, é obrigação, faço o que devo: se amo, para que me amem, é negociação, busco o que desejo. Pois como há-de amar o amor para ser fino? Amo, quia amo; amo, ut amem: amo, porque amo, e amo para amar.

Quem ama porque o amam é agradecido. quem ama, para que o amem, é interesseiro: quem ama, não porque o amam, nem para que o amem, só esse é fino.

VIEIRA, Padre António, Sermões

Padre António Vieira (Lisboa, 6/2/1608 – Bahia, 18/7/1697)
(“Paiaçu”)
Religioso, Prosador e pensador, orador do séc. XVII.

Trindade Coelho – Escrever do Pescoço para Baixo…
Janeiro 31, 2012

“Eu não sei escrever a frio, não escrevo por querer escrever; e até quando caio nessa tolice, rasgo tudo quanto faço.

Eu escrevo do pescoço para baixo. O assunto para mim há-de ser uma emoção. Se Ihe dou tempo de se converter em ideia, arrefece e não dá nada”.

Trindade Coelho (Mogadouro, 18/6/1861 – Lisboa, 9/8/1908)
Escritor, contista de renome, colaborador e fundador de diversos jornais, pedagogo, magistrado e político.

Ungulani Ba Ka Khosa – A Poesia
Janeiro 31, 2012

“(…) Poesia! Poesia é uma arte maior. O problema é que muita gente, e eu critico, pensa que poesia é cortar palavras e arrumá-las. Mas a poesia tem qualquer coisa de transcendental.
(…)
A poesia consegue com imagens, com pequenas palavras; e não é qualquer um que pode chegar lá. Por isso que eu nunca escrevi, fui sempre um copista, para as namoradas, essas coisas.
(…)
para mim a poesia é só o que me entra, e eu posso dizer que gosto disto ou daquilo, mas é muito pessoal (…)”

Ungulani Ba Ka Khosa em entrevista concebida a Rogério Manjade, excertos, Agosto de 2002.

Ungulani Ba Ka Khosa (Inhaminga, Moçambique, 01/08/1957)
Pseudónimo de Francisco Esaú Cossa,
Escritor e professor.