Archive for Fevereiro, 2012

Carlos Reis – O Acordo Ortográfico (continuação)
Fevereiro 20, 2012

“Acordo Ortográfico: para além de Portugal * (continuação)

“(…) Parece, além disso, que a indústria cultural portuguesa, com a vigência do Acordo, enfrenta dois problemas — e isto talvez explique algumas resistências e não poucos protestos. Um desses problemas chama-se mercado africano, um mercado até agora “blindado” pelo uso da grafia portuguesa e fechado à variante brasileira do Português. O outro problema vem do poder económico das editoras brasileiras, aparentemente ameaçadoras para a indústria editorial portuguesa. É isto que me dizem, porque, por mim, não vejo as coisas assim. Pelo contrário: acho que as editoras portuguesas têm argumentos para fixar ou (se for o caso) reconquistar o mercado africano; e penso que uma grafia comum (excepções à parte) a todos os países de língua oficial portuguesa, abrirá um mercado muito amplo para a edição portuguesa, com destaque para o gigantesco mercado brasileiro.
(…)
Há memória de alguma biblioteca ter sido destruída quando o Acordo de 1945 entrou em vigor em Portugal? Alguém inutilizou algum livro quando passou a escrever “aflito” em vez de “aflicto”, “quer” em vez de “quere”? E foi impossível fazer conviver por algum tempo as grafias “mãi” e “mãe”?
(…)
Ouço dizer: o Inglês não tem acordo ortográfico e passa muito bem sem ele. Omite-se aqui que as oscilações ortográficas em Inglês (que, aliás, estão dicionarizadas) são muito reduzidas e também que, nele, a relação entre grafia e pronúncia é muito mais convencionada do que em Português; e falta aprofundar um pouco a questão, para chegarmos a uma resposta óbvia: o Inglês não tem acordo ortográfico, porque simplesmente não precisa dele. E não precisa porque o seu esmagador poder linguístico é sobretudo um efeito de outros poderes que arrastam e praticamente impõem aquele poder linguístico: o poder político, o poder económico, o poder tecnológico, o poder cultural, etc. Numa palavra: o poder.

No caso do Espanhol importa ir um pouco mais longe e lembrar que a emancipação política da América Latina de colonização espanhola conduziu à fragmentação em cerca de uma vintena de países. Isso permitiu a sobrevivência de Espanha como uma espécie de “metrópole” europeia com um certo ascendente no plano linguístico; um ascendente que se reforça pelo labor de uma vigorosa política de difusão da língua, com a qual Portugal muito tem a aprender. Nessa política de língua intervém a Real Academia Española, sendo inequívoco que esta última tem, no universo da Língua Espanhola, um prestígio normativo considerável: tenha-se em vista a capacidade de determinação e também de incorporação lexical que o Diccionario de la Lengua Española possui, no vasto universo que cobre; uma capacidade de determinação que, evidentemente, vale por um amplo, tácito e respeitado acordo linguístico. Acresce a isto que, nos nossos dias, a Espanha é também uma potência económica, o que ajuda a fazer do Espanhol (e já não apenas naquele vasto espaço post-colonial, note-se) uma espécie de “inglês latino”.
(…)
Termino. Torna-se absolutamente necessário que a questão do Acordo Ortográfico seja equacionada não apenas de dentro para dentro (como alguns fazem em Portugal), mas sobretudo de dentro para fora. Ou seja: pensando o Português em função de um mundo mais amplo do que o país que lhe deu origem. E sendo assim, que a questão seja vista também como um desígnio colectivo e não reduzida à estreita defesa de interesses particulares ou à expressão de sensibilidades irritadas. O que está em causa é um acordo estratégico, não uma unificação linguística absoluta, do mesmo modo que pensar uma língua sem regulação é convidar à sua rápida fragmentação. Seguramente, não é isso que queremos.”

* Excertos da Comunicação lida na Audição Parlamentar sobre o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, promovida pela Comissão de Ética, Sociedade e Cultura da Assembleia da Republica, em Lisboa, no dia 7 de Abril de 2008.

Carlos Reis (Angra do Heroísmo, 28 /09/1950)
Ensaísta, colaborador de jornais e revistas, professor universitário, especialista em literatura portuguesa.

Natércia Freire –Esse nome
Fevereiro 20, 2012

Esse nome, Poesia! Esse nome, esse nome…
Esse rito, esse mito, o chacal das angústias

Essa arma de fogo que repele e que explode,
Que o peito te alimenta e te come e te come!

O deserto a florir. O oceano a sangrar.
Tanta ave a subir das ruínas ardentes.
As pedras removidas. Os Templos abalados.
Os segredos dos deuses no fumo desvelados.

As promessas abertas. Os sacrários abertos.
Decifrados nos mortos insolúveis sinais.

Os retratos da água, quebrados. Mais os selos,
De todos os mistérios. Nos ventos abissais
A puríssima voz dos homens imortais.
E esse nome, Poesia? . .. Esse amante, onde o escondes?

Esse mágico arauto. O sangue do teu corpo.
O labirinto. O guia, da cega caminhada,
O terror, o terror, dos homossexuais,
Que gera e lhes destrói os dias geniais.

E esse nome, Poesia?!… Nas montanhas, nos cais,

As multidões de artistas, velhos adolescentes,
Fitam o arco de oiro. As fluidas espirais,
Do chicote que rasga coerências incoerentes.

Doidas andam nos céus as máquinas e os olhos
Pensamentos sem crânios.
Azuis fosforescências de azuis mediterrâneos.
Um atroz sofrimento aos homens prometido.

Diz seu nome, Poesia! Outeiros e balidos
De cordeiros dormidos lhe auguram a chegada.

Diz-lhe que venha, sem o fel do fim:
– Vem, Irmão, como a água.
Não provoques a chaga,
Nem estrela, nem cometa.

Vem consumado, enfim,
Como um dia virás
Para o último Poeta.

Natércia Freire (Benavente, 28/10/1920 – Lisboa, Dezembro de 2004)
Poetisa, prosadora, colaboradora em diversas publicações, conferencista, compositora musical, professora do ensino primário.

Florbela Espanca – Vozes do Mar
Fevereiro 20, 2012

Quando o sol vai caindo sob as águas
Num nervoso delíquio d´ouro intenso,
Donde vem essa voz cheia de mágoas
Com que falas à terra, ó mar imenso?

Tu falas de festins, e cavalgadas
De cavaleiros errantes ao luar?
Falas de caravelas encantadas
Que dormem em teu seio a soluçar?

Tens cantos d´epopéias? Tens anseios
D´amarguras? Tu tens também receios,
Ó mar cheio de esperança e majestade?!

Donde vem essa voz, ó mar amigo?…
…Talvez a voz do Portugal antigo,
Chamando por Camões numa saudade!

Florbela Espanca (Vila Viçosa, 8/12/1894 – Matosinhos, 8/12/1930)
Poetisa, 1.ª mulher a frequentar o curso de Direito na Universidade
de Lisboa, percursora do movimento feminista em Portugal.

Germano d´Almeida – A Língua Portuguesa
Fevereiro 20, 2012

“Quando eu era miúdo não conseguia esconder a minha inveja de uns primos meus a quem os pais prometiam recompensas por cada dia em que só tivessem falado em português.

Eles (…) funcionavam como polícias uns dos outros e todas as noites à hora de dormir apresentavam-se em fila junto à cama do velho para prestar rigorosa conta do uso que durante o dia tinham feito da língua portuguesa. Nunca nenhum deles ganhou porque num momento ou noutro das brincadeiras diárias, todos tinham acabado por falar em crioulo.

Desesperado por esse evidente insucesso familiar, o meu tio (…) passou a prometer severos castigos, que começaram pela proibição de subir aos coqueiros e às tamareiras e terminaram nas ameaças de açoites com varas de marmelo molhadas em água. Mas tudo isto foi em vão. O prazer que eles tinham de berrar em crioulo sobrepunha-se a tudo o mais.

Mas eu confessava-lhes a minha inveja pelos prémios que ninguém se lembrava de me oferecer e que eles tão levianamente desbaratavam. Porque na minha família o crioulo e o português conviviam em coexistência mais do que pacífica e nunca a ninguém terá ocorrido que uma das línguas era preferível a outra, embora nunca tivesse ouvido do meu pai, cabo-verdiano de muitas gerações, uma única palavra em crioulo, do mesmo modo que a minha mãe nunca falava português, a menos que fosse essa a única maneira de se entender com o interlocutor.
(…)
Ora é essa minha vivência que faz com que defenda como uma especial vantagem para Cabo Verde continuarmos a ter o português como língua que devemos aprender e dominar com segurança (…).”

In JL N.º 618 de 1994 (excertos)

Germano d´ Almeida (Boa Vista, 1945)
Romancista, licenciado em Direito.

Álvaro Guerra – Antimemória
Fevereiro 17, 2012

Viemos do mundo para o mundo

do nosso lugar para o lugar

e perdemos a memória de onde viemos

só o ar que respiramos nos não custa o esforço visível

dor mínima

dor habituada

em tecidos que se usam e se rompem

o resto é nunca nos inscrevermos

senão com violência

entre as acumuladas pedras da cidade

(ou) sobre o caprichoso húmus

inventando o esquecimento

e perseguindo a inventada liberdade

do infinito sempre interrogando

um regresso

uma despedida

suamos a passagem

soamos a rangente esperança

somos amos desta soma de anos não somados

consolamente um excomungado

redenção crucificada

sabemos que acabar lutando é começar

e da beleza é tudo o que sabemos

 

GUERRA, Álvaro, Memória

Álvaro Guerra (Vila Franca de Xira, 19/10/1936 – Vila Franca de Xira, 18/4/2002)
Pseudónimo de Manuel Soares.
Romancista, jornalista, político e diplomata.

Altino do Tojal – As Histórias da Tia Emília
Fevereiro 17, 2012

“(…) À noite, depois das aulas, minha tia contava-me histórias como só ela sabia contar, com um poder sugestivo quase mágico. Tomemos como exemplo A Branca de Neve e os Sete Anões, quando a princesa é abandonada na floresta. Minha tia “colocava-me” no local, falava de medos, de ameaças, de rumores sinistros. Usando onomatopeias, introduzia em mim o bracejar lamentoso do arvoredo ao luar, à hora em que pia o mocho. Tinha uma capacidade invulgar para me pôr no local da acção, com todos os sentidos alerta. (…)”

Entrevista concedida a Luís Souta, excerto.

Altino do Tojal (Braga,26/7/1939)
Jornalista, ficcionista e tradutor.

Alexandre Vargas – Ma Blonde
Fevereiro 16, 2012

Ouve, vagueio num espaço de luz cercado dum
silêncio. é um silêncio e não o teu… vejo claramente
olhando, as [mesas

o meu perfil que se volta docemente e não és tu, em
que braços te suspendes e flutuas os teus lábios
rigorosos de planície quando voas?..

Olha, fixa e furtivamente olha superiormente, ó
Cyborg que enorme já te ergues no teu luto, a boca
entreaberta como um ovo que é olhado na doce e
fresca idade que em breve nos espera entoa já o
canto dos fantasmas que dão fruto.

Alexandre Vargas(Lisboa, 31/12/1952)
Poeta, tradutor, colaborador em jornais e revistas, licenciado em Filologia Românica,
Filho de José Gomes Ferreira.

Alexandre Pinheiro Torres – Voz
Fevereiro 16, 2012

Voz modelada na certeza irreal
da montanha que respira o húmus do vento,
espalha as sementes vegetais do sal,
nos lagos da terra, único alimento!
E os lagos se vestem de ondas que assaltam
a parede lisa deste quarto fechado:
a abóboda celeste que os anjos asfaltam
dum visgo babado…

Alexandre Pinheiro Torres (Amarante, 27/10/1923 – Cardiff, 3/8/1998)
Romancista, poeta, ensaísta, historiador de literatura, crítico literário, tradutor, professor catedrático, co-fundador da revista Serpente, bacharel em Ciências Físico-Químicas, licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas.

Carlos Reis – O Acordo Ortográfico (continuação)
Fevereiro 15, 2012

“Acordo Ortográfico: para além de Portugal *

“(…) deve Portugal manter-se agarrado a uma concepção conservadora da ortografia, como se ela fosse o derradeiro baluarte da identidade portuguesa?
Serão os interesses das editoras, por muito respeito que me mereçam (e merecem), absolutamente determinantes para condicionarem decisões de amplo alcance e alargado espectro cultural?
(…)
As línguas não são entidades perfeitas; nenhuma língua o é, antes de mais porque qualquer língua é um produto dos homens – que são seres imperfeitos.
(…)
No Português que hoje escrevemos (repito: no de agora, não ainda no que virá depois do Acordo!), grafo “erva”, “herbário” e “ervanário”, ou seja, avanço e recuo, em palavras da mesma família etimológica, em relação ao uso ou ao desuso do “h” inicial; e o mesmo “h” desapareceu já em “desumano” (tendo persistido em “humano”), sem ofensa da etimologia, num acto de simplificação que aceitamos sem pestanejar.

Mais: no Português actual, mantemos a consoante surda em “acto”, mas já a dispensámos em “contrato” e em “aflito” (antes, “aflicto”); perdemo-la em “prático”, mas conservamo-la em “eléctrico” ou em “ecléctico”.

Escrevemos “pronto” (e já não “prompto”), mas parece que alguns resistem em passar a escrever “perentório” em vez de “peremptório”, usando ainda aquele “p” (que ninguém pronuncia) bem à vista.

E abundam as homografias, tratando o contexto de desfazer eventuais confusões: escrevo “gelo” (substantivo) e “gelo” (do verbo gelar), sem necessidade de acento gráfico para sabermos onde está o “e” aberto e onde está o fechado; e “consolo” (substantivo) e “consolo” (“eu consolo”, do verbo “consolar”) e “colher” (de chá ou outra) e “colher” (verbo); e “acordo” (ortográfico, pois então) e “acordo”, como verbo (por exemplo: “acordo para as vantagens do acordo ortográfico”).

E há o famoso hífen: insistimos nele nas formas monossilábicas “hei-de” e “há-de”, mas não fazemos questão nele em “havia de”.
(…)

* Excertos da Comunicação lida na Audição Parlamentar sobre o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, promovida pela Comissão de Ética, Sociedade e Cultura da Assembleia da Republica, em Lisboa, no dia 7 de Abril de 2008.

(continua)

Carlos Reis (Angra do Heroísmo, 28 /09/1950)
Ensaísta, colaborador de jornais e revistas, professor universitário, especialista em literatura portuguesa.

Carlos Paião – Arco-Íris
Fevereiro 12, 2012

Enquanto os homens falam de progresso
E há gente p’los caminhos sem sorrir
No mundo dos que sonham tudo tem um preço
E o tempo o tempo quer fugir

(Refrão)
Arco-Íris, Arco-Íris
Quantos homens são precisos p’ra sonhar
Arco-Íris, Arco-Íris
Se quisermos o bom tempo vai chegar

Enquanto criticamos duramente
Esquecendo a culpa que há em todos nós
Doenças guerras fome são números somente
E a vida a vida não tem voz

(Refrão)

Sete cores lado a lado
Como um sonho sem fim
Natureza obrigado
Por seres bonita assim

Enquanto os homens falam eu não ouço
Abraço o teu sorriso meu amor
Amigos vão e vem num lugar tão nossso
Respiro e o tempo é bem melhor

(Refrão)

Carlos Paião (Coimbra, 1/11/1957 — Rio Maior, 26/8/1988)
Cantor e compositor, licenciado em Medicina.