Archive for Março, 2012

Maria Alzira Seixo – O Acordo Ortográfico (continuação)
Março 22, 2012

“(…) é assim que se irá escrever mais facilmente em Português, na área lusófona, e ensinar no estrangeiro, esperando dos alunos (e de todos) que fixem váris grafias correctas para uma só palavra, multiplicando o esforço de aprender, aceitando a instabilidade ortográfica como norma e dificultando a literacia?

Não só não há uniformização no AO (o que se uniformiza por um lado, desmultiplica-se, por outro, em grafias opcionais) como se procede à assimilação generalizada a modos de escrever da variante brasileira, que são nela justificadas por hábitos articulatórios próprios, e consequente adaptação ortográfica, assim como por modos culturais, históricos e sociais respeitantes ao perfil nacional e geográfico de cada grupo falante, que esta medida, de matriz claramente globalizadora, vem ferir.

É o caso da eliminação do consoantes mudas e de alguns acentos, que vai multiplicar homografias, que o contexto nem sempre identifica, destruindo o trabalho de constituição coesa da língua que foi um processo de séculos, e resultou num corpo orgânico, onde a ortografia é parte integrante (…) pois é o suporte material da expressão linguística.
(…)
Só no que se refere à queda das consoantes mudas, experimente o leitor ler esta pequena lista, tirada do AO:
afetivo,
adoção,
adotar,
cato,
contracetivo,
aceção,
conceção,
seleção,
receção – acha claro?acha isento de resultados a médio prazo, na pronúncia e nos efeitos de significação?

É que a ortografia tem incidências na organização mental de famílias de palavras, pois nenhum plano de língua é inteiramente independente dos outros (…).

Nada me move contra Malaca Casteleiro, autor do Acordo, meu colega e amigo; mas este seu trabalho (…) enferma de defeitos que os nove pareceres emitidos por linguistas sublinham (…).

No único parecer positivo (?!) que existe, Evanildo Bechara, ilustre colega brasileiro, salienta que “o Acordo não tem condições para servir de base a uma proposta normativa, contendo imprecisões , erros e ambiguidades”.

Valha-nos a santa democracia: em que se baseiam os governantes para não deterem o AO?
(…)

E algo irá mal na terra lusa se os órgãos de soberania forem indiferentes à condenação maioritariamente negativa dessa norma que altera matéria fulcral na constituião cívica, cultural e social dos cidadãos.

E gente da minha geração, que para identificar o suspender de um acto (que se dirá “ato”) usava a expressão popular:

“Alto, e pára o baile”, agora, suprimido o acento em “para”, é forçada a dizer o contrário, ao escrever:
– “Alto, e para o baile.” Vamos então bailar todos atados?”

Vamos então bailar todos, atados?”

SEIXO, Maria Alzira, “Acordai!”, in JL de 15 de Julho de 2008 (excertos)

Maria Alzira Seixo (Barreiro, 29/4/1941)
Ensaísta, crítica literária, professora catedrática.

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António Ramos Rosa – Cada árvore é um ser para ser em nós
Março 21, 2012

Cada árvore é um ser para ser em nós
Para ver uma árvore não basta vê-a
a árvore é uma lenta reverência
uma presença reminiscente
uma habitação perdida
e encontrada
À sombra de uma árvore
o tempo já não é o tempo
mas a magia de um instante que começa sem fim
a árvore apazigua-nos com a sua atmosfera de folhas
e de sombras interiores
nós habitamos a árvore com a nossa respiração
com a da árvore
com a árvore nós partilhamos o mundo com os deuses

António Ramos Rosa (Faro, 17/10/1924)
Poeta, crítico literário, ensaísta, tradutor e desenhador
Marido da poetisa Agripina Costa Marques.

Casimiro de Brito – Pedras são árvores
Março 21, 2012

Pedras são árvores
apenas um pouco
mais antigas

Casimiro de Brito (Loulé, 1938)
Poeta, ensaísta e ficcionista.

Manuel António Pina – A Poesia Vai Acabar
Março 21, 2012

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
— Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? —

Manuel António Pina (Sabugal, 18/11/1943 – Porto, 19/10/2012)
Poeta, autor de literatura infanto-juvenil, dramaturgo, ficcionista, jornalista, licenciado em Direito.
Galardoado com o Prémio Camões em 2011.

Ruy Belo – Árvore Rumorosa
Março 21, 2012

Árvore rumorosa pedestal da sombra
sinal de intimidade decrescente
que a primavera veste pontualmente
e os olhos do poema de repente deslumbra

Receptáculo anónimo do espanto
capaz de encher aquele que direito à morte passa
e no ar da manhã inconsequente traça
e rasto desprendido do seu canto

Não há inverno rigoroso que te impeça
de rematar esse trabalho que começa
na primeira folha que nos braços te desponta

Explodiste de vida e és serenidade
e imprimes no coração mais fundo da cidade
a marca do princípio a que tudo remonta

Ruy Belo (S. João da Ribeira, Rio Maior, 27/2/1933 – Queluz, 8/8/1978)
Poeta, ensaísta, crítico literário, tradutor, professor, leitor de Português, licenciado em Direito e Filologia Românica, doutorado em Direito Canónico.

Fernando Namora – Um Segredo
Março 19, 2012

Meu pai tinha sandálias de vento
só agora o sei.
Tinha sandálias de vento
e isto nem sequer é uma maneira de dizer
andava por longe os olhos fugidos a expressão em
[nenhures
com as miraculosas instantaneidades que nos fazem
[estar em todos os sítios.

Andava por longe meu pai sonhando errando vadiando
mas toda a sua ausência era
o malogro de o ser
só agora o sei.
Andava por longe ou sentíamo-lo longe
vem dar no mesmo
e no entanto víamo-lo sempre
ali plantado de imobilidade absorta
no cepo de carvalho raiado de negro
a que o caruncho comera o miolo
como as lagartas esvaziam as maçãs
estranhamente quieto murcho resignado
no seu estranho vadiar
os olhos aguados numa tristeza que hoje me dói
como um apelo perdido uma coragem abortada.
Ausência era tão de mágoa urdida tão de fracasso
[tingida
ausência era
altiva e desolada altiva e triste sobretudo triste
tristeza sim tristeza solene e irremediada
só agora o sei.

Às vezes parecia-me uma águia que atravessa os ares
sulco azul
que nada distingue do azul onde foi sulcado
e por isso nem é águia nem ao menos
o que do seu voo resta para que
o sonho se faça real.
Meu pai era um homem com as nostalgias
do que nunca acontecera e isso minava-o víscera a
[víscera
como as tais lagartas esfarelam as maçãs
e então sei-o agora calçava as ágeis sandálias
miraculosamente leves soltas imaginosas
indo de acaso em acaso de astro em astro
eram de vento as suas sandálias fabulosas
levando-o aonde mais ninguém poderia chegar.

Os outros não o sabiam nem eu o sabia
só o víamos sentado no cepo velho
raiado de negro como uma estrela fossilizada
por isso tudo era para ele mais irremediável e triste
sei-o agora tarde de mais
tarde de mais é uma dor de remorso
que me consome víscera a víscera
como as tais lagartas esfarelam as maçãs.
Mas de qualquer maneira existe um segredo
de que ambos partilhamos
ciosamente avaramente indecifradamente
como os astutos conspiradores
que fazem do seu segredo
um mágico tesouro inviolado.

Um segredo simples:
o que sentiste pai
sinto-o eu agora por ambos
sinto-o por ti
sinto-o por mim.

Ainda que por ele devorados.

NAMORA, Fernando, Nome Para Uma Casa

Fernando Namora (Condeixa, 15/4/1919 –Lisboa, 31/1/1989)
Poeta, contista, romancista, novelista, biógrafo, escritor de memórias e narrativas de viagens.
Licenciado em Medicina.

Maria Alberta Menéres – Dúvida
Março 16, 2012

O carvão é preto.
Quando arde é vermelho.
Qual é afinal
A cor do carvão?
Minha mãe, de noite
Não entendo nada:
Será que as cores nascem
Só de madrugada?
Minha mãe, quem sabe
Se a voz do amarelo
Não é doce apenas
Na imaginação?

Maria Alberta Menéres (Vila Nova de Gaia, 25/8/ 1930)
Professora, tradutora, jornalista, poetisa e escritora infanto-juvenil, mãe da cantora Eugénia Melo e Castro.

Maria Albertina Mitelo – O Tempo do Amor
Março 16, 2012

Onde tão perto nasceste
era azul na manhã de estio
e de azul me inventaste
com as tuas mãos
e uma voz
como só as aves têm
E à nossa passagem
por brancos festejos precedida
se levantou de assombro
a última prece dos deuses
no tempo transbordado do amor

Maria Albertina Mitelo (Coimbra, 1951)
Poetisa e pintora, licenciada em História.

Maria do Rosário Pedreira – Caminho…
Março 16, 2012

Caminho pelo lado da rebentação das ondas ―
o litoral guarda segredo dos meus passos entre
as redes de sal trazidas pelos barcos
o labirinto das algas ainda agora oferecidas

à praia. Sinto-me à mercê das falésias a riscar
o teu nome na areia; e é como se lentamente
pronunciasse um chamamento triste a que ninguém
acode. Fez-se tarde para os lamentos das sereias:

agora as marés dobam novelos de espuma à roda
dos meus pés, as águas já não transportam
a minha voz, a perder-se sobre as dunas
que os ventos vão desbastando devagar

ao cair da noite. Tenho sempre medo que [não voltes.

Maria do Rosário Pedreira (Lisboa, 1959)
Poetisa, romancista, ensaísta, cronista, autora de literatura juvenil, editora, tradutora, professora, licenciada em Línguas e Literaturas Modernas.

Maria Alzira Seixo – O Acordo Ortográfico
Março 16, 2012

“Lembram-se das Heróicas, do Lopes Graça, que cantávamos pelo 25 de Abril?
(…)
E havia uma, breve e serena, chamada Acordai!, que nos alertava para descasos sociais e atropelos políticos. Uso aqui o título a propósito do Acordo Ortográfico (AO), apelando, não à concordância, agitada como bandeira de indemonstrado benefício nacional, mas ao despertar de todos ante a entrada em vigor desse documento, que nos vem lesar o património, o ensino e a economia.
(…)
Há na variante brasileira discrepância da ortografia usada em Portugal? Há, mas tão mínimas quanto as do inglês britânico e americano, e que permitem a muitos de nós (eu, por exemplo) usar O Dicionários Houaiss em versão brasileira, sem problema.

No léxico e sintaxe é que há diferenças sensíveis, o que não impede os Brasileiros de nos entenderem, nos lererm, serem fans de Pessoa (Cleonice Berardinelli é das suas maiores especialistas) ou Saramago; nem aos Portugueses custa ler Graciliano ou Drummond.
(…)
Sempre que ensinei no estrangeiro, e tive alunos que sabiam Português, muitos tinham aprendido a língua com docentes brasileiros, e isso não prejudicou em nada os meus cursos de Literatura. (…) Quase não dávamos pelas diferenças ortográficas, respeitando as formas de escrever correctas nos dois países.

Em que é que a unificação do AO beneficia os países lusófonos e projecta a sua língua no plano internacional? Talvez (no caso português) levando-nos ao ridículo de, com uma posição económica frágil, irmos abrir largo estipêndio para a reprodução, segundo a nova ortografia, de todos os materiais impressos e on-line: livros didácticos, obras literárias e especializadas, o vocabulário técnico-profissional completo e demais documentação.
(…)
Mas de que uniformização ortográfica se fala? Da do AO? Quem o faz é porque não o leu, dado que o que o AO propõe é uma multigrafia, com formas optativas, e sempre à portuguesa e à brasileira (…).

Muitos vocábulos no AO, passam a escrever-se de duas, quatro e até oito maneiras diferentes (…).”

SEIXO, Maria Alzira, “Acordai!”, in JL de 15 de Julho de 2008

(continua)

Maria Alzira Seixo (Barreiro, 29/4/1941)
Ensaísta, crítica literária, professora catedrática.