Archive for Abril, 2012

Carlos Drummond de Andrade – A Dança e a Alma
Abril 29, 2012

Carlos Drummond de Andrade  by lusografias

A dança? Não é movimento,
súbito gesto musical.
É concentração, num momento,
da humana graça natural.
No solo não, no éter pairamos,
nele amaríamos ficar.
A dança – não vento nos ramos:
seiva, força, perene estar.
Um estar entre céu e chão,
novo domínio conquistado,
onde busque nossa paixão
libertar-se por todo lado…
Onde a alma possa descrever
suas mais divinas parábolas
sem fugir à forma do ser,
por sobre o mistério das fábulas.

Carlos Drummond Andrade (Itariba, 31/10/1902 – Rio de Janeiro, 17/8/1987)
Poeta, contista e cronista brasileiro, licenciado em Farmácia.

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Mário Cesariny – Faz-me o favor…
Abril 28, 2012

Mário Cesariny by lusografias

Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor — muito melhor!
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.

Mário Cesariny (Lisboa, 9/8/1923 – Lisboa, 26/11/2006)
Pintor e poeta, fundador do Movimento Surrealista Português.

Natália Correia – O Erro dos Portugueses
Abril 28, 2012

Natália Correia by lusografias

“O erro dos Portugueses ao longo da história literária tem sido o de subjugarem a sua vocação romântica por um racionalismo de empréstimo que vão buscar além-Pirenéus.”

Natália Correia (Fajã de Baixo, S. Miguel, 13/9/1923 – Lisboa, 16/3/1993)
Poetisa, romancista, ensaísta, jornalista e dramaturga.

Natália Correia e Mário Cesariny
Abril 28, 2012

Natália Correia e Mário Cesariny by lusografias

Manuel Alegre –Coisa Amar 
Abril 27, 2012

Manuel Alegre by lusografias

Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como doi

desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.

Manuel Alegre (Águeda, 12/5/1936)
Poeta, prosador e político português.

Vinicius de Moraes – Ternura
Abril 27, 2012

Vinicius by lusografias

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor
seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentando
Pela graça indizível
dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura
dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer
que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas
nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras
dos véus da alma…
É um sossego, uma unção,
um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta,
muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite
encontrem sem fatalidade
o olhar estático da aurora.

Vinicius de Moraes (Rio de Janeiro, 19/10/1913 – Rio de Janeiro, 9/7/1980)
Poeta, jornalista, compositor, diplomata.

Lopes Morgado – Talvez
Abril 27, 2012

Lopes Morgado by lusografias

Talvez a mão que a minha palma
Afaga, como se ave implume.
Talvez a gémea da minha alma.
Talvez a chama do meu lume.

Talvez o brilho dos meus olhos,
A cor acesa do meu rosto.
Talvez a flor dos meus abrolhos,
O meu luar e mar de Agosto.

Talvez o encanto com que digo
Todas as rimas de Ternura.
Talvez a fome dum mendigo.
Talvez o fogo da loucura.

Lopes Morgado (Areias de Vilar, Barcelos, 23/4/1938)
Sacerdote – Frei da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos – , professor, escritor, poeta, jornalista.

Agostinho de Silva – As Liberdades Essenciais
Abril 25, 2012

Agostinho de Silva by lusografias

“As liberdades essenciais são três: liberdade de cultura, liberdade de organização social, liberdade económica.

Pela liberdade de cultura, o homem poderá desenvolver ao máximo o seu espírito crítico e criador; ninguém lhe fechará nenhum domínio, ninguém impedirá que transmita aos outros o que tiver aprendido ou pensado.

Pela liberdade de organização social, o homem intervém no arranjo da sua vida em sociedade, administrando e guiando, em sistemas cada vez mais perfeitos à medida que a sua cultura se for alargando; para o bom governante, cada cidadão não é uma cabeça de rebanho; é como que o aluno de uma escola de humanidade: tem de se educar para o melhor dos regimes, através dos regimes possíveis.

Pela liberdade económica, o homem assegura o necessário para que o seu espírito se liberte de preocupações materiais e possa dedicar-se ao que existe de mais belo e de mais amplo; nenhum homem deve ser explorado por outro homem; ninguém deve, pela posse dos meios de produção e de transporte, que permitem explorar, pôr em perigo a sua liberdade de Espírito ou a liberdade de Espírito dos outros.

No Reino Divino, na organização humana mais perfeita, não haverá nenhuma restrição de cultura, nenhuma coacção de governo, nenhuma propriedade. A tudo isto se poderá chegar gradualmente e pelo esforço fraterno de todos.”

SILVA, Agostinho da, Textos e Ensaios Filosóficos

Agostinho da Silva (Porto,13/2/1906 – Lisboa, 3/4/1994)
Filósofo, poeta, ensaísta, professor, licenciado em Filologia Clássica (1929), doutorado com louvor (1929), colaborador da Revista Seara Nova, fundador do Núcleo Pedagógico Antero de Quental (1939), co-fundador de universidades no Brasil, criador de Centros de Estudos.

José Gomes Ferreira – A Árvore da Liberdade
Abril 25, 2012

José Gomes Ferreira by lusografias

“Ontem andei pelas avenidas novas à procura da minha árvore. Aquela árvore esguia, frágil e frouxa que ajudei a plantar quando tinha apenas 11 anos e ainda não separara, na confusão do mundo, o céu da terra e as borboletas das flores.

Foi há muito tempo, em certa manhã de sol barulhento. Na véspera o Sr. Professor prevenira-nos da cerimónia:

– Amanhã não se esqueçam de trazer lanches. Vamos plantar a árvore da Liberdade!

E eu apareci com a infância mais evidente na fatiota dos domingos, merenda debaixo do braço e «Sementeira» debaixo da língua, pronto para assistir àquela solenidade tão carregada de pompas de mistério.

Formámos a dois e dois. E, com o Sr. Professor à cabeça, partimos para as avenidas novas, nessa altura um dédalo de arruamentos sem prédios nem passeantes.

Após uma longa marcha, olhos fixos nas nucas da frente, parámos. E então o Sr. Professor, em voz rouca que não se harmonizava com o viço primaveril da manhã, pronunciou um pequeno discurso pagão.

Referiu-se às plantas, aos frutos e aos ninhos.
Recomendou-nos que não fizéssemos mal aos pássaros. Encheu-nos de flores de retórica. Repetiu o eterno hino à liberdade. E a suar, numa girândola final, rogou-nos que cantássemos, em coro, a «Sementeira».

Obedecemos logo de bom grado, comovidos com as palavras tremulamente fanhosa do Sr. Professor, que, naquele dia, em vez de nos soterrar num quarto sem sol, nos falava da liberdade.

Abrimos as bocas e cantámos. Berrámos. A letra desse hino, a que anda associada uma injusta ideia de ridículo, saiu das nossas bocas numa Primavera de trinta corações a pulsarem em comum.

Terminada a canção, cada um de nós, quase com prazer litúrgico, pegou na pá e começou a deitar terra para a cova onde o Sr. Professor enterrara a árvore sagrada.

Durante alguns minutos trabalhámos com fervor, num arder de olhos em festa – contentes por mexermos em terra, ébrios do cheiro das plantas e das raízes, sob o azul envolvente daquela manhã fecunda.

Eu, pelo menos, trabalhei arduamente. Lancei, incansável, terra e mais terra para a cova.
E quando, por fim, a árvore se aguentou sozinha na alameda buliçosa de crianças a devorarem fatias de pão com manteiga, quedei-me a olhá-la, durante largo tempo, impado de orgulho e fé.

Senti, ingenuamente, infantilmente – como todos os meninos sentiam em 1911 –, que a minha liberdade ficava talvez unida para sempre àquele ser preso ao solo por raízes tão fracas e tenras. Senti…

Mas o Sr. Professor não me deixou sentir mais. Ordenou com secura que formássemos a dois e dois. E daí a pouco tempo deslizávamos outra vez para a escola como um rebanho cívico que cumprira já o seu dever burocrático e diligente de cantar a «Sementeira» e de arremessar algumas pazadas de terra para uma cova.

Depois, nunca mais me levaram a ver a minha árvore. Não sei o que fizeram dela.
Tenho-a procurado tantas vezes em vão! Não a encontro. Não a reconheço.

Árvore da liberdade: onde estás? Responde-me: onde estás? A rasgar ventos? A cobrir de flores as tempestades? Já álguem se enforcou nos teus ramos? Já atiraste pássaros para o céu? Árvore: onde estás?
Já secaste?
(Hei-de ensinar o meu filho a plantá-la doutra maneira.)”

FERREIRA, José Gomes, A Memória das Palavras

José Gomes Ferreira (Porto, 9/6/1900 – Lisboa, 1985)
Poeta, jornalista – colaborador da Presença e Seara Nova-, membro do Novo Cancioneiro, compositor musical, tradutor de filmes, Presidente da Associação Portuguesa de Escritores, licenciado em Direito, cônsul na Noruega, pai do arquitecto Raul H. Ferreira e do poeta Alexandre Vargas.

Sophia – Esta Gente
Abril 25, 2012

Sophia  by lusografias

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo

Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 6/11/1919 – Lisboa, 2/7/2004)
Poetisa, contista, autora de literatura infantil e tradutora, a 1.ª mulher portuguesa a receber o prémio Camões (1999).