Eugénio Lisboa – O Acordo Ortográfico

Eugénio Lisboa by lusografias

“A minha opinião sobre o Acordo Ortográfico é simples e transparente: trata-se de um exercício tão monumentalmente fútil quanto dispendioso. Um formidável desperdício que nunca resolverá o problema que ostensivamente visa resolver: a “defesa da unidade essencial da língua portuguesa” (cito João Malaca Casteleiro e faço notar que ele não fala em “unidade ortográfica” mas sim em “unidade essencial da língua portuguesa”).

A minha questão é só uma: como é que a unificação, aliás relativa, da ortografia – que não passa de uma simples convenção de escrita – pode ambiciosamente significar “a unidade essencial da língua portuguesa”, quando a gramática e uma parte substancial do glossário não farão outra coisa que não seja divergirem alegre e abundantemente, entre os sete países da CPLP?
Divergência, aliás salutar, por significar maior diversidade e riqueza… (….)

“O segundo motivo”, pondera o ilustre campeador do Acordo, “relaciona-se com a política externa do idioma. Do ponto de vista internacional, a escolha entre duas ortografias oficiais pode levantar problemas diplomáticos delicados e mesmo insolúveis.”
E curioso que possa levantar mas que até hoje não tenha levantado.
(…)
Tenhamos a coragem de admitir, de uma vez por todas, que há um português ortónimo – o que se fala e escreve em Portugal – e vários portugueses heterónimos (os que se falam no Brasil, em Moçambique, em Angola, etc.) que se falam e que se escrevem.
Apagar esta heteronímia, tentar fingir que o português é só um, por via de uma tímida e ridícula unificação ortográfica, é querer tapar o sol com uma peneira.

Acham, a sério, que se pode confundir uma uniformização ortográfica com a “unidade essencial da língua”?

Que “E embolaram” é da mesma língua que diz: “E pegaram-se à zaragata”? A sério que acham? Num tá bom da bola! (…)”

In JL de 13-16 Agosto 2008 (excertos)

Eugénio Lisboa (Lourenço Marques, 25/5/1930)
Ensaísta e crítico, licenciado em Engenharia Electrotécnica, ligado profissionalmente à cultura e à literatura, usou os pseudónimos: Armando Vieira de Sá, John Land e Lapiro da Fonseca.

Uma resposta

  1. […] o chamado acordo ortográfico 04/10/2012 Por António Fernando Nabais Deixa um Comentário Acham, a sério, que se pode confundir uma uniformização ortográfica com a “unidade essencial d… Facebook Filed Under: curtas Tagged With: acordo ortográfico, Eugénio Lisboa, patetice, […]

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