Archive for Julho, 2012

Manuel Nunes – Ser Professor
Julho 29, 2012

Manuel Nunes by lusografias

“(…) A essência do professor, o ser professor, situa-se num plano tão elevado de dignidade, que transcende infinitamente qualquer pessoa que tente concretizar essa essência — era mais ou menos assim que tu dizias, não era, meu mestre?

Eu, professora, sou infinitamente mais do que a pessoa que eu sou. Eu, professora, sou, sobretudo, aquilo que eu represento. E aquilo que eu represento reveste-se de uma dignidade de tal elevação e de tal transcendência, que exige de mim uma nobreza de carácter que, por si mesma, se tem de constituir como referência moral para os outros.

Já não sei bem onde é que li isto, mas quem quer que o tenha escrito viu muito bem o segredo do ofício do professor na sociedade:

— Os professores são as colunas que sustentam o edifício social. Se estas colunas ruírem, todo o edifício se desmoronará irremediavelmente!

É isto mesmo: os professores são as colunas interiores do edifício. Porque são interiores, quase ninguém se dá conta da sua existência. (…)”

NUNES, Manuel, A Professora, os Porcos e os Cisnes. O pântano da educação em Portugal

Manuel da Silva Nunes (Pampilhosa da Serra, 24/10/1953)
Escritor com publicações na área da pedagogia, professor, licenciado em Filosofia e Teologia, estudou ainda Psicologia e Ciências da Educação, bem como LLM-Estudos Portugueses.

José Saramago – Pensar e Compreender
Julho 29, 2012

José Saramago by lusografias

“Se nos detivermos a pensar nas pequenas coisas chegaremos a compreender as grandes.”

José Saramago (Azinhaga, Golegã, 16/11/1922 – Lanzarote, 18/06/2010)
Romancista, contista, poeta, dramaturgo, argumentista, jornalista, galardoado com o Prémio Camões em 1995 3 com o Prémio Nobel de 1998.

Afonso Cruz – A Matemática dos Sentimentos
Julho 28, 2012

Afonso Cruz by lusografias

“(…) Quando dividimos algumas cosias em dois, não obtemos metades.

(…) quando um homem divide um pão e um queijo com outro homem, não ficam duas metades de pão e queijo, mas sim duas refeições inteiras.

A matemática que se aprende na escola não inclui estas operações que estão mais de acordo com os nosso sentimentos.”

In “Contos de Natal”, JL, 14 a 27 de dezembro de 2011.

Afonso Cruz (Figueira da Foz, 1971)
Romancista, contista, realizador de filmes de animação, ilustrador e músico.

João Luís Barreto Guimarães – A Meias
Julho 28, 2012

João Luís Barreto Guimarães by lusografias

Bebo o meu café enquanto bebes
do meu café. Intriga-me que faças isso.
Se te posso pedir um
(se podes tomar um igual)
porque hás-de querer do meu?
Que
não. Que não queres. Escuso
de pedir
que não queres. Então
começo
um cigarro e tu fumas do
meu cigarro dizes
«tenho quase a certeza de
não acabar um sozinha» por isso
fumas do meu. Dá-te
gozo esse roubar
de
leves goles furtivos
dá gozo participar
do prazer que eu possa ter
contigo
(e entre nós)
dá-se agora tudo
a meias.

GUIMARÃES, João Luís Barreto, Rés-do Chão

João Luís Barreto Guimarães (Porto, 3/6/1967)
Poeta e cirurgião plástico.

Carlos Reis – Luiz Francisco Rebello e o Teatro Português
Julho 28, 2012

Carlos Reis by lusografias

“(…) Morreu Luiz Francisco Rebello. *
Muitas das coisas que aprendi sobre teatro português fiquei a devê-las aos seus livros.
E pensando, além disso, no que foi a sua obra de dramaturgo, de crítico teatral e de diretor e teatro, pergunto-me se, depois de Garrett, terá havido em Portugal alguém que tanto fez por esse parente pobre de nossa cultura que é o teatro.”

* 08/12/2011

In JL, 14 a 27/12/2011

Carlos Reis (Angra do Heroísmo, 28 /09/1950)
Ensaísta, colaborador de jornais e revistas, professor universitário, especialista em Literatura Portuguesa.

António Estanqueiro
Julho 28, 2012

António Estanqueiro by lusografias

“(…) A sociedade de consumo continua a produzir pessoas interesseiras e egoístas.
A educação tem de remar contra a corrente, para formar pessoas críticas, honestas, responsáveis e solidárias. Felizes! (…)

In JL, 14a 27/12/2011

António Estanqueiro (Ponte de Vagos, 1950)
Escritor e coautor de manuais escolares, professor de Filosofia e Psicologia.

Eugénio de Andrade – A Luz a Prumo
Julho 26, 2012

Geninho by lusografias

Se as mãos pudessem (as tuas,
as minhas) rasgar o nevoeiro,
entrar na luz a prumo.
Se a voz viesse.
Não uma qualquer:a tua,
e na manhã voasse.
E de júbilo cantasse.
Com as tuas mãos,
e as minhas,
pudesse entrar no azul,
qualquer azul: o do mar,
o do céu,
o da rasteirinha cançãode água corrente.
E com elas subisse.
(A ave, as mãos, a voz.)
E fossem chama.
Quase.

Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, Fundão , 19/01/1923 – Porto, 13/06/2005)
Pseudónimo de José Fontinhas.
Poeta de renome internacional, tradutor, prosador, autor de literatura infantil, antologista, detentor de diversos prémios literários, nomeadamente o Prémio Camões em 2001.

Ana Hatherly – A Alta Pirâmide da Fala
Julho 24, 2012

Ana Hatherly  by lusografias

I
A alta pirâmide da fala
o que é?
O que é que realmente expressa?

Uma efémera aliança
se esconde no enigma do sentido
no mistério do acidente

Tudo são zonas de silêncio
e intervalo

Um emaranhado só

II

Falar é
uma saber amplo e profundo
indício
duma obsessão incurável

Os pontos ágeis da petulante fala
dobro
como se fossem uma súbita esquina

é uma longa caminhada
no sentido do outro
buscando
a esquiva consonância do encontro

Ana Hatherly (Porto, 1929)
Poetisa, ensaísta, romancista, investigadora, tradutora, artista plástica, professora universitária, licenciada em Filologia Germânica e doutorada em Estudos Hispânicos, foi uma das fundadoras do PEN Clube Português e fundou as revistas Escuro-Claro e Incidências.

Matilde Rosa Araújo –O Berlinde
Julho 24, 2012

Matilde Rosa Araújo by lusografias

Era uma vez uma pomba
Sem um ninho, sem um pombal,
Era branca como a Lua
E os seus olhos de cristal.

Era uma vez uma pomba
Que não sabia chorar:
O seu choro trrru… trrru…
Era um modo de cantar.

Era uma vez uma pomba
Que noite e dia voava:
Fosse noite, fosse dia,
Nunca a pomba descansava.

Era uma vez uma pomba
Que nos céus, longe, voava,
Seu coração um berlinde
Grande segredo guardava.

Era uma pomba tão estranha
Que voava noite e dia:
Quanto mais alto voava
Mais da terra ela se via.

Era uma vez uma pomba
Com penas de seda real:
Era uma pomba do Mundo
Com seus olhos de cristal.

Seu coração um berlinde
De vidros de sete cores,
Que do sol tinha o brilhar,
Um espelhinho de mil flores.

Um dia longe nos céus,
Viu um menino a chorar
Sentadinho sobre um monte,
Numa noite de nevar.

Não era branco nem negro
Assim na neve o menino,
Seu chorar era triste,
Tornava-o mais pequenino.

E a pomba logo o viu
Com seus olhos de cristal:
Logo desceu para o monte
– Era aquele o seu pombal.

Poisou nas mãos do menino
Com seu corpo, seu calor:
Mãos por debaixo da neve,
Ninguém lhes sabia a cor.

Dorme, dorme, meu menino…
Branco ou negro tanto faz:
Meu coração é um berlinde,
Tem o segredo da Paz.

E o menino já ria,
Podia dormir sem medo,
Sonhava com o berlinde,
Coração feito brinquedo.

Há quem diga que uma estrela
Fugiu do céu a correr,
Atravessou todo o mundo
Para o segredo dizer.

Escutaram-na os meninos,
Têm um berlinde na mão:
Seja noite de Natal,
Seja noite de S.João.

Matilde Rosa Araújo (Lisboa, 18/6/1921 – Lisboa, 06/07/2010)
Contista, poetisa e novelista com prevalência na literatura infanto-juvenil, professora, licenciada em Filologia Românica.

Branquinho da Fonseca – Arquipélago das Sereias
Julho 24, 2012

Branquinho da Fonseca by lusografias

Ó nau Catrineta
Em que andei no mar
Por caminhos de ir,
Nunca de voltar!

Veio a tempestade
Perder-se do mundo,
Fez-se o céu infindo,
Fez-se o mar sem fundo!

Ai como era grande
O mundo e a vida
Se a nau, tendo estrela,
Vogava perdida!

E que lindas eram
Lá em Portugal
Aquelas meninas
No seu laranjal!

E o cavalo branco
Também lá o via
Que tão belo e alado
Nenhum outro havia!

Mundo que não era,
Terras nunca vistas!
Tive eu de perder-me
Pra que tu existas.

Ó nau Catrineta
Perdida no mar,
Não te percas ainda,
Vem-me cá buscar!

Branquinho da Fonseca (Mortágua, 4/5/1905 – Lisboa, 6/5/1974)
Poeta, contista, romancista e dramaturgo, co-fundador das Revistas: Tríptico, Presença e Sinal – esta com Miguel Torga. Assinou algumas obras com o pseudónimo António Madeira. Filho do escritor Tomás da Fonseca. Licenciado em Direito.