Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Angola – José Luandino Vieira – Estrada

Luandino Vieira by lusografias

Luanda Dondo vão,
cento e tal quilômetros
mangas e cajus
marcos brancos
meninos nus

Branco algodão
crescendo
corpos negros
na cacimba

O Lucala corre
confiante
indiferente à ponte que ignora

Verdes matas
Sangram vermelhas acácias
imbondeiros festejam
o minuto da flor anual

Na estrada
o rebanho alinha
pelo verde
verde capim

Adivinhados
caqui lacraus
de capacete giz
trazem a morte

Meninos
se embalam
em mães velhas
de varizes:

Rios azuis
da longa estrada

E é fevereiro
sardões as sol
Cassoalala

Eia Mucoso
tão cheio agora
Adivinhados
permanecem
lacraus caqui
capacetes giz

Não param as colheitas

Que razão seriam
fevereiro
acácias sangrando vermelho
verdes sisais
cantando o parto
da única flor?

Não param as colheitas!

(1963)

In, No Reino de Caliban II – antologia
panorâmica de poesia africana de ex-
pressão portuguesa

José Luandino Vieira (Vila Nova de Ourém, 4/5/1935)
Pseudónimo de José Vieira Mateus da Graça.
Fixou-se em Angola aos três anos.
Romancista, novelista, contista, poeta, galardoado com o Prémio Camões em 2006, colaborador jornalístico, tradutor.

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