José Saramago – O Acordo Ortográfico e a Outra Realidade

José Saramago by lusografias

“A história do Acordo Ortográfico parece um folhetim. Vem de longe, parou, andou, tornou a andar, tornou a parar e, agora, quer andar outra vez. Vamos ver o que acontece. Porque chegar a um acordo, pôr no papel os termos desse acordo é relativamente fácil. O pior vem depois: pôr a viver, em prática, as coisas mais ou menos sensatas a que chegou esse acordo.

Mas na minha opinião, o Acordo Ortográfico é um pormenor. Não que não tenha importância, pois pode pôr um pouco de disciplina na ortografia, mesmo que muita gente continue a não lhe ligar muito
(…)
Mas penso que há algo mais importante. É que cada vez se fala e se escreve pior. E aquilo que não vejo é que se faça alguma coisa em relação ao desastre em que se está a tornar a Língua Portuguesa. E só falo da Língua Portuguesa falada em Portugal. Cada uma dessas línguas portuguesas, que estão espalhadas em África e no Brasil segue e seguirá o seu próprio rumo.
(…)
Faça-se, portanto, o Acordo e acabe-se esse folhetim, mas encare-se a outra realidade. Assim como se diz que a História entrou num processo acelerado, dá-me a impressão que as línguas entraram também num processo acelerado de corrupção (…).
Mas há uma corrupção interna que faz com que o português hoje, falado por uma certa classe de pessoas – e estou a pensar evidentemente na televisão – se tenha transformado numa caricatura do português normal (…).

Resumindo, aplaudo o Acordo e oxalá seja útil, mas façam o favor de reparar, de ouvir e de ver como se está a falar e a escrever o Português. E até mais do que o escrever, para mim tem importância o falar. Provavelmente os nossos clássicos escreviam bem, porque falavam bem.
(…)
Tudo começa na escola primária e o que não se fizer aí, já não se fará no ensino secundário, nem no superior.

Arrumemos a nossa própria casa, antes de pensar em políticas externas da Língua Portuguesa.”

In JL, “Língua Portuguesa”, 25 de abril – 8 de maio 2007.

José Saramago (Azinhaga, Golegã, 16/11/1922 – Lanzarote, 18/06/2010)
Romancista, contista, poeta, dramaturgo, argumentista, jornalista, galardoado com o Prémio Camões em 1995 e com o Prémio Nobel de 1998.

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