Archive for Outubro, 2012

Fernando Pinto do Amaral – Mais uma Noite, Amor
Outubro 31, 2012

Fernando Pinto do Amaral by lusografias

Mais uma noite, amor. Ao recordar-te
retomo os fins do mundo, a cinza, os dias
manchados de outras lágrimas. Sabias
como eu a cor das sombras, essa arte

que nos engana agora e se reparte
por esquinas e cafés. Já não me guias
os muitos passos vãos, as fantasias
da minha falsa vida. Vou deixar-te

fugindo-me. Na chuva, sem ninguém,
apenas alguns vultos, o que vem
«e dói não sei porquê» -este deserto

onde te vejo, imagem outra vez,
até de madrugada. O que me fez
sentir o muito longe aqui tão perto?

Fernando Pinto do Amaral (Lisboa, 12/5/1960)
Poeta, romancista e contista, doutorado em Literatura Românica, professor universitário.

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Maria Alberta Menéres –No Meu Nome
Outubro 31, 2012

Maria Alberta Menéres by lusografias

No meu nome teu lábio no teu lábio
novo do nome o novo de o dizer
pena que serve ou servo nome apenas
da maneira que o vento desmorona
No meu lábio não levo o nome teu
antes o levo dentro sobre o lábio
da maneira que o vento desenrola
um decifrado ou sábio acontecer.
No meu nome teu nome sem o lábio
ou o medo impensável de o dizer
a maneira madeira onde desliza
o nome no teu lábio – o novo meu
incalculável nome ou pena ou servo
que serve de medida ao nome inteiro
indomável no instante em que se dome
encontrado no instante em que o perdeu.

Maria Alberta Menéres (Vila Nova de Gaia, 25/8/ 1930)
Professora, tradutora, jornalista, poetisa e escritora infanto-juvenil, mãe da cantora Eugénia Melo e Castro.

Olavo Bilac – Língua Portuguesa
Outubro 30, 2012

Olavo Bilac by lusografias

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela…

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: “meu filho!”
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

Olavo Bilac (Rio de Janeiro, 16/12/1865 – Rio de Janeiro, 28/12/1918)
Jornalista e poeta, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, autor da letra do Hino à Bandeira.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Angola – Ondjaki – A Língua dos Pássaros
Outubro 30, 2012

Ondjaki by lusografias

que língua falam os pássaros
de madrugada
que não a do amor?

escuto a madrugada
– lento manancial de céus.

os pássaros
são mais sabedores.

Ondjaki (Luanda, 1977)
Poeta, contista ,artista plástico.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Moçambique – Noémia de Sousa – A Billie Holiday, Cantora
Outubro 30, 2012

Noémia de Sousa by lusografias

Era de noite e no quarto aprisionado em escuridão
apenas o luar entrara, sorrateiramente,
e fora derramar-se no chão.
Solidão. Solidão. Solidão.

E então,
tua voz, minha irmã americana,
veio do ar, do nada nascida da própria escuridão…
Estranha, profunda, quente,
vazada em solidão.

E começava assim a canção:
“Into each heart some rain must fall…”
Começava assim
e era só melancolia
do princípio ao fim,
como se teus dias fossem sem sol
e a tua alma aí, sem alegria…

Tua voz irmã, no seu trágico sentimentalismo,
descendo e subindo,
chorando para logo, ainda trémula, começar rindo,
cantando no teu arrastado inglês crioulo
esses singulares “blues”, dum fatalismo
rácico que faz doer
tua voz, não sei porque estranha magia,
arrastou para longe a minha solidão…

No quarto às escuras, eu já não estava só!
Com a tua voz, irmã americana, veio
todo o meu povo escravizado sem dó
por esse mundo fora, vivendo no medo, no receio
de tudo e de todos…
O meu povo ajudando a erguer impérios
e a ser excluído na vitória…
A viver, segregado, uma vida inglória,
de proscrito, de criminoso…

O meu povo transportando para a música, para a poesia,
os seus complexos, a sua tristeza inata, a sua insatisfação…

Billie Holiday, minha irmã americana,
continua cantando sempre, no teu jeito magoado
os “blues” eternos do nosso povo desgraçado…
Continua cantando, cantando, sempre cantando,
até que a humanidade egoísta ouça em ti a nossa voz,

e se volte enfim para nós,
mas com olhos de fraternidade e compreensão!

 

Carolina Noémia Abranches de Sousa Soares (Catembe, Moçambique, 20/09/1926 – Cascais, 04/12/2002)
Poetisa, jornalista, tradutora, militante política, é considerada a “Mãe dos poetas moçambicanos”.

Murilo Mendes – Cartão Postal
Outubro 30, 2012

Murilo Mendes by lusografias

Domingo no jardim público pensativo.
Consciências corando ao sol nos bancos,
bebês arquivados em carrinhos alemães
esperam pacientemente o dia em que poderão ler o Guarani.
Passam braços e seios com um jeitão
que se Lenine visse não fazia o Soviete.
Marinheiros americanos bêbedos
fazem pipi na estátua de Barroso,
portugueses de bigode e corrente de relógio
abocanham mulatas.

O sol afunda-se no ocaso
como a cabeça daquela menina sardenta
na almofada de ramagens bordadas por Dona Cocota Pereira.

Murilo Mendes (Juiz de Fora, 13/5/1901 – Lisboa, 13/8/1975)
Expoente máximo da poesia modernista brasileira, foi dentista, telégrafo, auxiliar de guarda-livros, notário, inspector do Ensino Secundário, professor universitário, esposo de Maria da Saudade. Cortesão.

Marly de Oliveira –Não Conheci o Desterro
Outubro 30, 2012

Marly de Oliveira  by lusografias

Não conheci o desterro,
mas sei a quanto obriga.
Vivo na minha terra,
embora desencontrada. Quem sabe
de mim, quem me ouve
o que não digo, quem segura
a rédea de meu sonho, permitindo
o risco da vertigem, o perigo
de conhecer o abismo?

Marly de Oliveira (Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo 1935 — Rio de Janeiro, 1/6/2007)
Poetisa, professora de língua e literatura italiana e de literatura hispano-americana, ex-esposa de João Cabral de Melo Neto.

Maria Azenha – Que as Lágrimas Levantem Vôo
Outubro 30, 2012

Maria Azenha by lusografias

Que as lágrimas levantem vôo
agora mesmo
és
um cisne.
os teus lagos são jardins do Nada
há pássaros infinitos à revelia e
cultivas laranjas em varandas
de fogo
secretos vasos
desço então pelas tuas asas
de lágrimas:
de
neve
e
ouro
depois nada mais faço
que as lágrimas levantem vôo
da tua
infinita
face

Maria Azenha (Coimbra, 29/12/1945)
Poetisa, professora, licenciada em Ciências Matemáticas.

Machado de Assis –Bons Amigos
Outubro 30, 2012

Machado de Assis by lusografias

Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir.
Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende.
Amigo a gente sente!

Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar.
Porque amigo não se cala, não questiona, nem se rende.
Amigo a gente entende!

Benditos os que guardam amigos, os que entregam o ombro pra chorar.
Porque amigo sofre e chora.
Amigo não tem hora p’ra consolar!

Benditos sejam os amigos que acreditam na tua verdade ou te apontam a realidade.
Porque amigo é a direcção.
Amigo é a base quando falta o chão!

Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros.
Porque amigos são herdeiros da real sagacidade.
Ter amigos é a melhor cumplicidade!

Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho,
Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!

Machado de Assis (Rio de Janeiro, 21/6/1839 – Rio de Janeiro, 29/9/1908)
Poeta, romancista, dramaturgo, contista, tetralogista, jornalista, considerado um dos maiores vultos da literatura brasileira.

Júlio Dinis – Amor
Outubro 30, 2012

Júlio Dinis by lusografias

Um amor bem verdadeiro,
uma vida bem íntima com uma mulher,
a quem se queira como amante,
que se estime como irmã,
que se venere com mãe,
que se proteja como filha,
é evidentemente o destino mais natural ao homem,
o complemento da sua missão na terra.

Júlio Dinis (Porto, 14/11/1838 – Porto, 12/9/1871)
Pseudónimo de Joaquim Guilherme Gomes Coelho.
Romancista, poeta, dramaturgo, médico e professor universitário.