Archive for Novembro, 2012

António Maria Lisboa – Dedicatória
Novembro 30, 2012

António Maria Lisboa by lusografias

“(…) Dedico-te este poema para existires integral, completa, real como o objecto que não se nega. como o invisível, como o universo onde vivemos separados-unidos para sempre – REAL e LIVRE! (…)”

LISBOA, António Maria, Poesia

António Maria Lisboa (Lisboa, 1/8/1928 – Lisboa, 11/11/1953)
Poeta.

Locuções Latinas: De jure; de visu; deficit; dura lex sed lex;edition princeps  (continuação)
Novembro 30, 2012

Vogais by lusografias

As locuções latinas mencionadas em título continuam a ser utilizadas:

de jure —————- de direito;

de visu —————- por ter visto:

deficit —————– falta; saldo negativo;

dura lex sed lex — a lei é dura mas é lei;

edition princeps — primeira edição.

Maria Alberta Menéres – O Humor das Coisas
Novembro 29, 2012

Maria Alberta Menéres by lusografias

“Gosto do humor das coisas, da sua graça e elas gostam que nós olhemos para elas e pensemos nelas.

O objeto de cada ideia dá um livro, as histórias vêm do nada e de todo o lado.”

Maria Alberta Menéres (Vila Nova de Gaia, 25/8/ 1930)
Professora, tradutora, jornalista, poetisa e escritora infanto-juvenil, mãe da cantora Eugénia Melo e Castro.

Oliveira Martins – Carta a Alberto Sampaio
Novembro 29, 2012

Oliveira Martins by lusografias

“(1885)

Meu caro amigo

Agradeço-lhe muito cordialmente a sua carta e fico esperando tudo o que me promete. A Província sairá 2.ª feira 25 e por ela verá o meu amº a direcção que lhe vai dar o nosso movimento.

A opinião que me dá acerca do que chama o meu coup-d´état* não me surpreende. Ouço geralmente dizer aos meus amigos, mas é que a benevolência deles é excessiva.

Esperar a crise declarada para não intervir seria bom se eu possuísse uma força de que não disponho.

Entrar na política pela porta de um ministério seria sujeitar-me a um fiasco provavelmente certo.

Creia que pensei bastante antes de dar o passo que dei, e conservar-me-ei dentro sim, mas sem tomar parte pessoal no governo enquanto não vir chegado o momento oportuno.

Precipitar a situação seria desepenhar-me sem utilidade alguma.

Quanto à ambição de ser ministro, creio que o meu amº não me fará a injustiça de me supor devorado por ela.

O Antero estácá e manda-lhe muitas saudades. Adeus e um abraço do

Seu amigo mtº obo.
15 de Maio
Oliveira Martins”

* Adesão de Oliveira Martins ao Partido Progressista, ainda dirigido por Anselmo José Braamcamp.

Oliveira Martins (Lisboa. 30/4/1845 – Lisboa, 24/8/1894)
Político, cientista social e escritor.

Maria Alice Vila Fabião – O Acordo Ortográfico (continuação)
Novembro 29, 2012

Maria Alice Vila Fabião by lusografias

“(…) Justifica o texto da Nota Explicativa anexa ao AO a necessidade de um acordo inter-nações pelo facto de “a existência de duas ortografais oficiais da língua portuguesa, a lusitana e a brasileira, ter sido considerada como largamente prejudicial para a unidade intercontinental do português e para o seu prestígio no mundo (Sublinhado meu).

Crendo defender a língua em que escreveu Camões, escreve Carlos Reis: “ Se queremos que o português tenha hipóteses […] de alguma concretização internacional em confronto com outras línguas, não podemos continuar a ignorar um cenário linguístico em que alegremente convivem di+uas ortografias […].

Vivi entre 1959 a 1965 nos Países Baixos, absolutamente intregrada num meio universitáriso, onde se estudava o português e o espanhol. (…)
Havia, ainda, em Haia a “Associação Holanda, Portugal, Brasil”, cujos sócios, pessoas de cultura, tinham vivido no Brasil e falavam correntemente o português brasileiro.

Nas nossas frequentes conversas sobre a língua, nunca um estudante ou um membro da Associação se queixou de dificuldades decorrentes das diferenças ortográficas.

Queixavam-se, sim, da dificuldade em compreenderem o português falado, que consideravam, uma língua “fechada”, não favorável à comunicação oral, por ausência de vogais abertas. Daí, a falta de prestígio implícita na apreciação de C. Reis.

Maria Helena Mira Mateus faz notar que “no contexto da União Europeia” o português é frequentemente desconhecido ou confundido com o espanhol. Eu sei. Nesse caso, porém, a responsabilidade desse “desprestígio”, dessa vergonha, cabe aos nossos eurocratas, sobretudo aos senhores comissários, que nos fora internacionais exibem o seu melhor ingles ou francês, confundindo, por vezes, rapidez com fluência, em vez de exigirem o respeito devido à sua própria língua, impondo-a orgulhosamente, como fazem comissários de outros países com línguas minoritárias.

Uma coisa é certa: o prestígio do nosso português de forma alguma depende de um AO, da existência ou eliminação de consoantes mudas, de hífenes, ou de acentos, mas sim do prestígio dos nossos governantes, das nossas economias, do respeito de todos os que a falamos.”

FABIÃO, Maria Alice Vila, “Da (des)necessidade de um (des)acordo ortográfico – à guisa de introdução”, Revista Tempo Livre, Mar 2012.

Sebastião da Gama – Sinal
Novembro 26, 2012

Sebastião da Gama by lusografias

Quanto amor me tens,
com amor te pago
– Trago-te no dedo,
num anel que trago.
Num anel redondo,
todo de oiro fino,
que é o teu sinal,
que é o teu destino.
Este anel me basta
para bater-te à porta.
Truz! truz! truz! – na rua
como o frio corta!
Como a chuva cai,
como o vento mia!
Mas abriste logo,
que eu é que batia.
(Que outro anel tivera
som que te chamasse?)
Já teu vinho bebo,
para que o frio me passe;
já na tua cama
me aconchego e deito;
já te chamo esposa,
peito contra peito.
como tudo é simples,
como é tudo imenso!
É“ mistério enorme,
de um anel suspenso!
E eis, na tua mão,
num anel igual,
brilha o teu destino,
luz o meu sinal.

Sebastião da Gama (Vila Nova de Azeitão, Setúbal, 10/4/1924 – Lisboa, 7/2/1952)
Poeta e professor de Português, colaborador das Revistas: Árvore e Távola Redonda, fundador da Liga para a Protecção da Natureza (1948), licenciado em Filologia Românica.

Eugénio de Andrade – Ao Ouvido
Novembro 26, 2012

Geninho by lusografias

Fica um pouco mais, fala
da terra iluminada
abrindo a última chama
do verão; tu conheces
a sua sede, a sua respiração.
Um pouco mais, —–
como sopro da tarde, acaricia
com mão pequena embora
o que no fundo da noite
resta da manhã; fala da leve
embarcação do vento, levando
consigo a poeira, o sarro
do tempo entornado no chão.
A terra é boa; ao meu ouvido
volta a dizê-lo.

Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, Fundão , 19/01/1923 – Porto, 13/06/2005)
Pseudónimo de José Fontinhas.
Poeta de renome internacional, tradutor, prosador, autor de literatura infantil, antologista, detentor de diversos prémios literários, nomeadamente o Prémio Camões em 2001.

Cecília Meireles – O Silêncio da Manhã
Novembro 26, 2012

Cecília Meireles  by lusografias

(…)” O silêncio da manhã é um longo muro, ainda, entre este mundo e o céu.(…)”

Cecília Meireles (Rio de Janeiro, 7/11/1901 – Rio de Janeiro, 9/11/1964)
Poetisa, professora e jornalista, fundadora da 1.ª Biblioteca Infantil do Rio de Janeiro.

Baptista Bastos – Um País sem Memória
Novembro 23, 2012

Baptista Bastos by lusografias

“Um país sem memória, ou que não cultiva a recordação das coisas, está irremediavelmente condenado.”

In Jornal de Negócios, 27/11/2009

Baptista-Bastos (Lisboa, 27/2/1934)
Jornalista, ensaísta, romancista.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa – António Jacinto –Poema da Alienação
Novembro 23, 2012

António Jacinto by lusografias

Não é este ainda o meu poema
o poema da minha alma e do meu sangue
não
Eu ainda não sei nem posso escrever o meu poema
o grande poema que sinto já circular em mim

O meu poema anda por aí vadio
no mato ou na cidade
na voz do vento
no marulhar do mar
no Gesto e no Ser

O meu poema anda por aí fora
envolto em panos garridos
vendendo-se
vendendo

“ma limonje ma limonjééé”

O meu poema corre nas ruas
com um quibalo podre à cabeça
oferecendo-se
oferecendo

“carapau sardinha matona
ji ferrera ji ferrerééé…”

O meu poema calcorreia ruas
“olha a probíncia” “diááário”
e nenhum jornal traz ainda
o meu poema

O meu poema entra nos cafés
“amanhã anda a roda amanhã anda a roda”
e a roda do meu poema
gira que gira
volta que volta
nunca muda

“amanhã anda a roda
amanhã anda a roda”

O meu poema vem do Musseque
ao sábado traz a roupa
à segunda leva a roupa
ao sábado entrega a roupa e entrega-se
à segunda entrega-se e leva a roupa

O meu poema está na aflição
da filha da lavadeira
esquiva
no quarto fechado
do patrão nuinho a passear
a fazer apetite a querer violar

O meu poema é quitata
no Musseque à porta caída duma cubata

“remexe remexe
paga dinheiro
vem dormir comigo”

O meu poema joga a bola despreocupado
no grupo onde todo o mundo é criado
e grita

“obeçaite golo golo”

O meu poema é contratado
anda nos cafezais a trabalhar
o contrato é um fardo
que custa a carregar

“monangambééé”

O meu poema anda descalço na rua

O meu poema carrega sacos no porto
enche porões
esvazia porões
e arranja força cantando

“tué tué tué trr
arrimbuim puim puim”

O meu poema vai nas corda
encontrou sipaio
tinha imposto, o patrão
esqueceu assinar o cartão
vai na estrada
cabelo cortado

“cabeça rapada
galinha assada
ó Zé”

picareta que pesa
chicote que canta

O meu poema anda na praça trabalha na cozinha
vai à oficina
enche a taberna e a cadeia
é pobre roto e sujo
vive na noite da ignorância
o meu poema nada sabe de si
nem sabe pedi
O meu poema foi feito para se dar
para se entregar
sem nada exigir

Mas o meu poema não é fatalista
o meu poema é um poema que já quer
e já sabe
o meu poema sou eu-branco
montado em mim-preto
a cavalgar pela vida.

António Jacinto (do Amaral Martins) (Luanda, 28/9/1924 – Lisboa, 23/6/1991)
Poeta e contista, que neste contexto usava o pseudónimo de Orlando Távora, colaborador em diversas publicações, recebeu o prémio Nacional de Literatura em 1985.