Archive for Janeiro, 2013

Nuno Júdice – Soneto
Janeiro 31, 2013

Nuno Júdice by lusografias

Lábios que encontram outros lábios
num meio de caminho, como peregrinos
interrompendo a devoção, nem pobres
nem sábios numa embriaguez sem vinho

que silêncio os entontece quando
de súbito se tocam e, cegos ainda,
procuram a saída que o olhar esquece
num murmúrio de vagos segredos?

É de tarde, na melancolia turva
dos poentes, ouvindo um tocar de sinos
escorrer sob o azul dos céus quentes,

que essa imagem desce de agosto, ou
setembro, e se enrola sem desgosto
no chão obscuro desse amor que lembro.

Nuno Júdice (Mexilhoeira Grande, Algarve, 1949)
Escritor, poeta, ensaísta, colaborador em várias publicações, professor catedrático.

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D. Duarte I de Portugal – Ler Bons Livros
Janeiro 30, 2013

D. Duarte I de Portugal by lusografias

“Saibam que ler dos bons livros e boa conversação faz acrescentar o saber e virtudes como cresce o corpo, que nunca se conhece senão passando por tempo: de pequeno que era, se acha grande, e o delgado fornido.”

D. Duarte I de Portugal (Viseu, 31/10/1391 – Tomar, 9/9/1438)
O Eloquente ou Rei-Filósofo, autor de: Leal Conselheiro e Livro de Ensinança de Bem Cavalgar Toda a Sela.

Miguel Esteves Cardoso – “O Prontuário Ortográfico”
Janeiro 30, 2013

Miguel Esteves Cardoso by lusografias

“Cada país – seja Timor, seja o Brasil, seja Portugal – tem o direito e o dever de deixar desenvolver um idioma próprio.

Portugal já tem uma língua e ortografia próprias. Há já bastante tempo.

O Brasil, por sua vez, tem conseguido criar um idioma de base portuguesa que é riquíssimo e que se acrescenta ao nosso.

Os países africanos que foram colónias nossas avançam pelo mesmo caminho.

Tentar “unificar” a ortografia, em culturas tão diversas, por decretos aleatórios que ousam passar por cima dos misteriosos mecanismos da língua, traduz um insuportável colonialismo às avessas, um imperialismo envergonhado e bajulador que não dignifica nenhuma das várias pátrias envolvidas. É uma subtracção totalitária.”

CARDOSO, Miguel Esteves, Expresso, “O Prontuário Ortográfico”, 31/5/1986

Miguel Esteves Cardoso (Lisboa, 25/7/1955)
Romancista, dramaturgo, cronista, crítico, jornalista, doutorado em Filosofia Política.

Locuções Latinas – Ex cathedra; ex libris; ex nihilo; ex voto  (continuação)
Janeiro 30, 2013

Vogais by lusografias

As locuções latinas mencionadas em título continuam a ser utilizadas.

Eis o significado de cada uma delas:

ex cathedra ——– do alto da cadeira do saber; com autoridade científica;

ex libris ————- (símbolo) da biblioteca de

ex nihilo ———— a partir do nada;

ex voto ————– por promessa.

(continua)

Ana Hatherly – A Silenciosa Força das Flores
Janeiro 27, 2013

Ana Hatherly  by lusografias

A silenciosa força das flores
Emana de suas cores
Que são a sua voz
Os seus anúncios
O seu mosaico de intenções
E digressões
Vitais em seus prenúncios

Sua beleza
Sua inestimável fineza
Está
Em seu corpo a corpo com o desejo
Sua façanha é
Inspirar o beijo
Do errante visitante que as fecunda

Silentes
Apelam
Dando gritos de perfume

Ana Hatherly (Porto, 1929)
Poetisa, ensaísta, romancista, investigadora, tradutora, artista plástica, professora universitária, licenciada em Filologia Germânica e doutorada em Estudos Hispânicos, foi uma das fundadoras do PEN Clube Português e fundou as revistas Escuro-Claro e Incidências.

José Blanc de Portugal . Telefonia III 
Janeiro 27, 2013

José Blanc de Portugal by lusografias

Esta música leve e valsitante
Ondula-me a monotonia
Como vejo passar aos sábados
As raparigas da fábrica para o baile.
É doce esta melodia fácil
Simplifica a minha incerteza
E na resolução prevista pela teoria
Deixa-me a poesia simples
Das quadraturas, sete sílabas,
Em que dor se salva rimando com amor.
Esta música leve e valsitante
Leva ao baile fim de semana
Os meus desejos duma vida burguesa
E areja, ou procura fazê-lo,
A minha ciência inútil.

1939

in Cadernos de Poesia

José Blanc de Portugal (Lisboa, 8/3/1914 – 14/5/2000)
Poeta, crítico musical, cofundador dos Cadernos de Poesia com Ruy Cinatti e Tomaz Kim em 1940, professor, licenciado em Ciências Geológicas

Almada Negreiros – Um Livro sem História
Janeiro 27, 2013

Almada Negreiros by lusografias

“As construções do Estado multiplicam-se a olhos vistos, porém as paredes estão nuas como os seus muros, como um livro aberto sem nenhuma história para o povo ler e fixar.”

Almada Negreiros (Trindade, S. Tomé, 7/4/1893 – Lisboa, 15/6/1970)
Artista multifacetado, desenhador e pintor, ensaísta, dramaturgo, romancista e poeta, colaborador da Revista Orpheu com Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro e fundador de alguns jornais.

Sophia – As Grutas (excertos)
Janeiro 22, 2013

Sophia by lusografias

“O esplendor poisava solene sobre o mar. E – entre duas pedras erguidas numa relação tão justa que é talvez ali o lugar da Balança onde o equilíbrio do homem com as coisas é medido – quase me cega a perfeição como um sol olhado de frente.

Mas logo as águas verdes em sua transparência me diluem e eu mergulho tocando o silêncio azul e rápido dos peixes.(…)
As imagens atravessam os meus olhos e caminham para além de mim.
(…)
Ressoa a vaga no interior da gruta rouca e a maré retirando deixou redondo e doirado o quarto de areia e pedra.
(…)
Os palácios do rei do mar escorrem água e luz.

Esta manhã é igual ao princípio do mundo e aqui eu venho ver o que jamais se viu.

O meu olhar tornou-se liso como um vidro. Sirvo para que as coisas se vejam.

E eis que entro na gruta mais interior e mais cavada. Sombrias e azuis são as águas e paredes.

Eu quereria poisar como uma rosa sobre o mar o meu amor neste silêncio.
(…)
Mas já no mar exterior a luz rodeia a Balança.

A linha das águas é lisa e limpa como um vidro.

O azul recorta os promontórios aureolados de glória matinal.

Tudo está vestido de solenidade e de nudez.

Ali eu quereria chorar de gratidão com a cara encostada contra as pedras.”

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, Obra Poética I

Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 6/11/1919 – Lisboa, 2/7/2004)
Poetisa, contista, autora de literatura infantil e tradutora, a 1.ª mulher portuguesa a receber o prémio Camões (1999).

Celso Cunha – A Nossa Língua e a Influência Estrangeira
Janeiro 22, 2013

Celso Cunha by lusografias

“Se a nossa língua não se desfibrou com a avalanche de galicismos nos séculos XVII e XIX, não há razão para tentar que ela se abastarde com o fluxo da anglicismos léxicos, cada vez mais acentuado por força do papel relevante que desempenham no mundo os povos de língua inglesa.”

CUNHA, Celso, Língua, Nação, Alienação

Celso Ferreira da Cunha (Teófilo Otoni, 10/5/1917 – Rio de Janeiro, 14/4/1989)

Professor, gramático,  filologo e ensaísta.

Dificuldades da Língua Portuguesa – O Plural de Pai Natal é…
Janeiro 22, 2013

Vogais by lusografias

Pais Natais.

Trata-se de um nome composto formado por um substantivo e um adjetivo, pelo que ambos vão para o plural.