Archive for Julho, 2013

Maria Teresa Rita Lopes – Três Cidades Natais (continuação)
Julho 12, 2013

Maria Teresa Rita Lopes by lusografias

“(…) Paris foi a minha terceira terra natal.
Aí nasci de novo
nua e com frio.
Aí me vi a braços com a minha sombra.
Na idade em que as mulheres se aplicam a mobilar a vida
com o marido e mobílias completas (de quarto, sala, escritório,
living-too) eu renascia numa água-furtada num sexto andar
sem elevador
mas com todos os telhados de paris e estenderem-me
o dorso para chagalianas viagens.
(Quem nunca soube o que é fome
de espaço ignorou também o gozo de o matar
grão a grão
palmo a palmo.)
A minha mobília era recuperad na rua: caixotes vazios depois dos mercados.
Lembro-me que uma das minhas mansardas
tinha por única janela uma clarabóia no tecto que eu abria
e fechava com um cabo metálico para renovar o ar
até que um dia
nevou
e eu vi flocon de neve a poisar na minha cama: a clarabóia não tinha vidro.
Em Paris apanhei o susto de me sentir adulta e só
a sós comigo
e com o tempo redondo das mesas dos Cafés
afagada ilha em que
plantava sílabas
e trémulas palmeiras a cuja sombra me acolhia
tardes inteiras
a construir meus corais de palavras para emergir
do abismo.

Cá estou de nono no meu segundo berço. Volto às vezes ao primeiro
e também ao segundo
à procura dos baguinhos de milho que por lá
espalhei
como a menina do conto da infância
para achar o meu regresso
a mim
ao mim de então.
Agora moro instavelmente em casas diversas
e dispersas
minhas tendas de nómada.
Afinal sempre andei de terra
em terra
de casa em casa
de mim em mim
fiel ao mesmo céu
em que vou desenhando uma constelação qualquer
que projecte
e reúne as soltas faúlhas do meu vagabundo fogo.

Maria Teresa Rita Lopes (Faro, 12/9/1937)
Ensaísta, poetisa e dramaturga, investigadora, uma das maiores especialistas contemporâneas sobre Fernando Pessoa professora catedrática, licenciada em Filologia Românica – FLUL-, doutorada pela Sorbonne

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Onomatopeias – Vozes de Animais, Nova Versão de Publicação: Abelha / Abutre / Águia / Andorinha / Anho
Julho 9, 2013

Vogais by lusografias

Onomatopeias são as palavras que imitam as vozes de pessoas ou animais e os ruídos da natureza e de objectos.

A atual publicação terá uma nova apresentação relativamente às anteriores:

1. Vozes de Animais – por ordem alfabética dos emissores, para mais fácil consulta.

2. Outros Ruídos ou Sons.

1. Vozes de Animais

Abelha – azoinar, zoar, zonzonear, zumbar, zunir, zunzunar.

Abutre, açor – crocitar, grasnar.

Águia – crocitar, grasnar, gritar, guinchar.

Andorinha – chilrar, chilrear, gazear, gorjear, grinfar, piar, pipilar, trinfar, trissar, zinzilular.

Anho – balar, balir. (continua)

Sophia – As Rosas
Julho 8, 2013

Sophia by lusografias

Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.

Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 6/11/1919 – Lisboa, 2/7/2004)
Poetisa, contista, autora de literatura infantil e tradutora, a 1.ª mulher portuguesa a receber o prémio Camões (1999).

Eugénio de Andrade – Música, levai-me
Julho 8, 2013

Geninho by lusografias

Música, levai-me:

Onde estão as arcas?
Onde estão as ilhas?

Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, Fundão , 19/01/1923 – Porto, 13/06/2005)
Pseudónimo de José Fontinhas.
Poeta de renome internacional, tradutor, prosador, autor de literatura infantil, antologista, detentor de diversos prémios literários, nomeadamente o Prémio Camões em 2001.

José Augusto Seabra – Arte Poética
Julho 8, 2013

José Augusto Seabra by lusografias

Surdo às palavras dos poetas fáceis.
Cego às imagens e ao mistério inútil.
Troquei as sombras por um sol lavado,
enjôo as cores da beleza fútil.

Poesia é – se a crio – a do real.
(Real o sonho, e sonho o descobri-lo.)
Prefiro este sabor de o tatear
às horas podres gastas a iludi-lo.

Sei pelo esforço o que a magia ignora.
Tenho asas tão leves nos sentidos
como as que nuvens de evasão vagueiam
por espaços só delas pressentidos.

Encontro em cada coisa o que é comum.
Reparto cada instante mais pequeno
da intimidade oculta dos meus gestos.
Sereno escrevo e a vós me dou sereno.

Sais o eco e o som da minha voz.
Amais a claridade e eu sou claro.
Dispo-me inteiro se preciso for
e no que é simples é que busco o raro.

José Augusto Seabra (Vilarouco, 24/2/1937 – Vila Nova de Gaia, 27/5/2004)
Poeta, ensaísta, crítico, professor universitário, diplomata e político.

Almada Negreiros – Confidências
Julho 8, 2013

Almada Negreiros by lusografias

Mãe! Vem ouvir…

Mãe!
Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei!
Traze tinta encarnada para escrever estas coisa! Tinta cor de sangue,
sangue verdadeiro, encarnado!
Mãe, passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de
viagens! Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar!

Quando voltar é par subir os degraus da tua asa, um por um. Eu
vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me
a teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que
eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as
mesmas palavras.

Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado!
Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também
quer ter um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!

Almada Negreiros (Trindade, S. Tomé, 7/4/1893 – Lisboa, 15/6/1970)
Artista multifacetado, desenhador e pintor, ensaísta, dramaturgo, romancista e poeta, colaborador da Revista Orpheu com Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro e fundador de alguns jornais.

Irene Lisboa – Meados de Maio
Julho 8, 2013

Irene Lisboa by lusografias

Chuvoso maio!

Deste lado oiço gotejar
sobre as pedras.
Som da cidade …
Do outro via a chuva no ar.
Perpendicular, fina,
Tomava cor,
distinguia-se
contra o fundo das trepadeiras
do jardim.
No chão, quando caía,
abria círculos
nas pocinhas brilhantes,
já formadas?
Há lá coisa mais linda

que este bater de água
na outra água?
Um pingo cai
E forma uma rosa…
um movimento circular,
que se espraia.
Vem outro pingo
E nasce outra rosa…
e sempre assim!

Os nossos olhos desconsolados,
sem alegria nem tristeza,
tranquilamente
vão vendo formar-se as rosas,
brilhar
e mover-se a água…

Irene Lisboa (Casal da Murzinheira, Arruda dos VInhos, 15/12/1892 – Lisboa, 1958)
Poetisa, contista, cronista, professora, pedagoga, colaboradora da revista Seara Nova.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Angola – Pepetela – As Palavras
Julho 8, 2013

Pepetela by lusografias

“As palavras são afinal o instrumento por excelência do escritor.”

In JL, 26.08.2009

 

Pepetela (Benguela, 29/10/1941)
Pseudónimo de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos .
Escritor, distinguido com o Prémio Camões em 1997.
Guerrilheiro do MPLA, político, governante, professor universitário, licenciado em Sociologia.

 

Pedro Tamen – Escrever
Julho 8, 2013

Pedro Tamen by lusografias

“Escrevo com a volúptia de esquadrinhar os múltiplos sentidos de cada palavra, do ponto de vista sonoro e semântico.”

In JL, 11.10.2006

Pedro Tamen (Lisboa, 1934)
Poeta, crítico literário, tradutor, professor, licenciado em Direito.

Locuções Latinas — Ibidem; Id est; Imprimatur; In articulo mortis; In continenti; In dubio pro reo (continuação)
Julho 8, 2013

Vogais by lusografias

As locuções latinas mencionadas em título continuam a ser utilizadas.
Eis o significado de cada uma delas:

– ibidem ————– no mesmo lugar

– id est (i.e.) ——— isto é

– idem —————- o mesmo

– imprimatur ——– imprima-se

– in articulo mortis – no momento próximo da morse

– in continenti ——– imediatamente

– in dubio pro reo — em caso de dúvida, a favor do réu.

(continua)