Archive for Setembro, 2013

Gonçalves Crespo – Na Aldeia
Setembro 30, 2013

Gonçalves Crespo by lusografias

Duas horas da tarde. Um Sol ardente
Nos colmos dardejando, e nos eirados.
Sobreleva aos sussurros abafados
O grito das bigornas estridente.

A taberna é vazia; mansamente
Treme o loureiro nos umbrais pintados;
Zumbem à porta insectos variegados,
Envolvidos do Sol na luz tremente:

Fia à soleira uma velhinha: o filho,
No céu mal acordou da aurora o brilho,
Saiu para os cansaços da lavoura.

A nora lava na ribeira, e os netos
Ao longe correm seminus, inquietos,
No mar ondeante da seara loura.

Gonçalves Crespo (Rio de Janeiro, 11/3/1846 – Lisboa, 11/6/1883)
Poeta, colaborador em diversas publicações, deputado, licenciado em Direito – Univ. de Coimbra -, marido da escritora Maria Amália Vaz de Carvalho, com quem escreveu: Contos para os Nossos Filhos.

Guilherme de Almeida – Outono
Setembro 30, 2013

Guilherme de Almeida by lusografias

Cessou o aguaceiro.
Há bolhas novas nas folhas
do velho salgueiro.

Guilherme de Almeida (Campinas, 24/7/1890 – São Paulo, 11/7/1969)
Poeta, dramaturgo, ensaísta, tradutor, crítico de cinema, jornalista e advogado, divulgador do poemeto japonês haikai no Brasil.

Al Berto – Ler Prosa e Poesia
Setembro 28, 2013

Al Berto by lusografias

” (…)  sempre li mais prosa que poesia.

Na verdade, a poesia aborrece-me mais. Não é bem isso… é no sentido de que ocupa um espaço muito menor nas minhas leituras.

A poesia é assim: abro um livro, leio este poema, leio aquele, depois arrumo, um dia volto…(…)”

Al Berto (Coimbra, 11/1/1948-Lx, 13/6/1997)
Pseudónimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares
Poeta, pintor, editor, animador cultural, um “coimbrense-siniense” único.

Alberto de Oliveira (Brasil) – Fonte Oculta
Setembro 28, 2013

Alberto de Oliveira (brasileiro) by lusografias

Entre umas pedras metida,
Rolando clara e modesta,
No coração da floresta
Vive uma fonte escondida.

Receosa de ser ouvida,
Talvez abafando um ai,
Quase sem queixa ou murmúrio
Fluindo vai;

E de ser vista receosa,
O vivo fio adelgaça;
E assim ignorada passa,
Passa ligeira e medrosa.

Tal em alma desditosa
Que já não ama nem crê,
Se escoa um fio de lagrimas
Que ninguém vê…

Alberto de Oliveira, pseudónimo de António Mariano Oliveira (Saquarema, 28/4/1857 – Niterói, 19/1/1937)
Poeta – “o Príncipe dos Poetas” -, professor de Português, co-fundador da Academia Brasileira de Letras, farmacêutico.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa – António Baticã Ferreira – O Mar
Setembro 28, 2013

António Baticã Ferreira by lusografias

O mar, esse mundo que os Homens não habitam,

É imenso, tão belo e tão perfeito!

O mar tem influência singular

Sobre mim. Eu bem queria ir ver as ondas:

Valia a pena olhá-las a correr

Loucamente; valia a pena

Ver qual delas primeiro entrava na baía.

António Baticã Ferreira (Canchungo, Cacheu, Guiné-Bissau, 25/12/1939)
Poeta, colaborado em várias publicações, médico.

Adriana Lisboa – Os Escritores e o Género
Setembro 28, 2013

Adriana Lisboa by lusografias

“(…) Escritores de ambos os sexos merecem ser lidos pela qualidade literária do que fazem, isentos de rótulos.

No caso das mulheres, essa é a única forma de honrar o lugar que vêm conquistando, a duríssimas penas, numa História que quase sempre quis relegá-las ao lugar de coadjuvantes. Do contrário, seguiremos todas sendo Amélias boazinhas, e simplesmente substituindo pela prótese de silicone o velho sutiã. (…)

In O Globo On Line, 05/03/2005

Adriana Lisboa (Rio de Janeiro, 1970)
Romancista, contista, autora de literatura infantil, cantora, flautista e professora
Doutorada em Literatura Comparada, Mestre em Literatura Brasileira e graduada em música, residente nos Estados Unidos desde 2006.

Alberto de Oliveira (Portugal) – Bíblia de Sonho
Setembro 28, 2013

Alberto de Oliveira by lusografias

O Mar agita-se, como um alucinado:
a sua espuma aflui, baba da sua Dor…
Posto o escafandro, com um passo cadenciado,
Desce ao fundo do Oceano, algum mergulhador.

Dá-lhe um aspecto estranho a campânula imensa:
Lembra um bizarro Deus de algum pagode indiano:
Na cólera do Mar, pesa a sua Indiferença
Que o torna superior, e faz mesquinho o Oceano!

E em vão as ondas se enroscam à cabeça:
Ele desce orgulhoso, impassível, sem pressa,
Com suprema altivez, com ironias calmas:

Assim devemos nós, Poetas, no Mundo entrar,
Sem nos deixarmos absorver por esse Mar
— Pois a Arte é, para nós, o escafandro das Almas!

Alberto de Oliveira (Porto, 16/11/1873 – Porto, 23/4/1940)
Poeta, memorialista, cronista, crítico, colaborador da Revista Bohemia Nova, diplomata.

Afonso Lopes Vieira – Patriotismo
Setembro 28, 2013

Afonso Lopes Vieira by lusografias

Se um inglês ao passar me olhar com desdém,
num sorriso de dó eu pensarei: — Pois bem!
se tens agora o mar e a tua esquadra ingente,
fui eu que te ensinei a nadar, simplesmente.
Se nas Índias flutua essa bandeira inglesa,
fui eu que t’as cedi num dote de princesa.
e para te ensinar a ser correcto já,
coloquei-te na mão a xícara de chá…

E se for um francês que me olhar com desdém,
num sorriso de dó eu pensarei: — Pois bem!
Recorda-te que eu tenho esta vaidade imensa
de ter sido cigarra antes da Provença.
Rabelais, o teu génio, aluno eu o ensinei
Antes de Montgolfier, um século! Voei
E do teu Imperador as águias vitoriosas
fui eu que as depenei primeiro, e ás gloriosas
o Encoberto as levou, enxotando-as no ar,
por essa Espanha acima, até casa a coxear

E se um Yankee for que me olhar com desdém,
Num sorriso de dó eu pensarei: — Pois bem!
Quando um dia arribei á orla da floresta,
Wilson estava nu e de penas na testa.
Olhava para mim o vermelho doutor,
— eu era então o João Fernandes Labrador…
E o rumo que seguiste a caminho da guerra
Fui eu que to marquei, descobrindo a tua terra.

Se for um Alemão que me olhar com desdém,
num sorriso de dó eu pensarei: — Pois bem!
Eras ainda a horda e eu orgulho divino,
Tinha em veias azuis gentil sangue latino.
Siguefredo esse herói, afinal é um tenor…
Siguefredos hei mil, mas de real valor.
Os meus deuses do mar, que Valhala de Glória!
Os Nibelungos meus estão vivos na História.

Se for um Japonês que me olhar com desdém,
num sorriso de dó eu pensarei: — Pois bem!
Vê no museu Guimet um painel que lá brilha!
Sou eu que num baixel levo a Europa á tua ilha!
Fui eu que te ensinei a dar tiros, ó raça
belicosa do mundo e do futuro ameaça.
Fernão Mendes Zeimoto e outros da minha guarda
foram-te pôr ao ombro a primeira espingarda.

Enfim, sob o desdém dos olhares, olho os céus;
Vejo no firmamento as estrelas de Deus,
e penso que não são oceanos, continentes,
as pérolas em monte e os diamantes ardentes,
que em meu orgulho calmo e enorme estão fulgindo:
— São estrelas no céu que o meu olhar, subindo,
extasiado fixou pela primeira vez…
Estrelas coroai meu sonho Português!

P.S.
A um Espanhol, claro está, nunca direi: — Pois bem!
Não concebo sequer que me olhe com desdém.

Afonso Lopes Vieira (Leiria, 1878 –Lisboa,1946)
Poeta, representante do Neogarretismo, ligado à Renascença Portuguesa, licenciado em Direito.

Alberto Osório de Castro – Poslúdio
Setembro 28, 2013

Alberto Osório de Castro by lusografias

Dos meus sonhos o urdume redoirado
Por meu sangue passei.
Nesse sumptuoso e fúnebre brocado
Meu ser amortalhei.
E que resta dos faustos no moimento?
Tudo os dias consomem.
Nem um eco sequer do teu lamento,
Pobre coração de homem.

Alberto Osório de Castro (Coimbra, 1/3/1868 – Lisboa, 1/1/1946), escritor e poeta, ligado à revista Boémia Nova, amigo de Camilo Pessanha e colega universitário, em Coimbra, onde também eram estudantes: António Nobre e Eugénio de Castro; juiz.

António Ramos Rosa – Escrevo-te com o Fogo e a Água
Setembro 28, 2013

António Ramos Rosa by lusografias

Escrevo-te com o fogo e a água. Escrevo-te
no sossego feliz das folhas e das sombras.
Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é
[surpresa.
Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.
Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.

O que procuro é um coração pequeno, um animal
perfeito e suave. Um fruto repousado,
uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado,
uma pergunta que não ouvi no inanimado,
um arabesco talvez de mágica leveza.

Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma?
Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore.
As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos.
O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu,
o grande sopro imóvel da primavera efémera.

António Ramos Rosa (Faro, 17/10/1924 – Lisboa, 23/09/2013)
Poeta, crítico literário, ensaísta, tradutor e desenhador.
Marido da poetisa Agripina Costa Marques.