Archive for Novembro, 2013

António Feijó – Eu e Tu
Novembro 30, 2013

António Feijó by lusografias

Dois! Eu e Tu, num ser indispensável! Como
Brasa e carvão, centelha e lume, oceano e areia,
Aspiram a formar um todo, — em cada assomo
A nossa aspiração mais violenta se ateia…

Como a onda e o vento, a Lua e a noite, o orvalho e a selva — O vento erguendo a vaga, o luar doirando a noite,
Ou o orvalho inundando as verduras da relva —
Cheio de ti, meu ser de eflúvios impregnou-te!

Como o lilás e a terra onde nasce e floresce,
O bosque e o vendaval desgrenhando o arvoredo,
O vinho e a sede, o vinho onde tudo se esquece,
— Nós dois, de amor enchendo a noite do degredo,

Como partes dum todo, em amplexos supremos
Fundindo os corações no ardor que nos inflama,
Para sempre um ao outro, Eu e Tu, pertencemos,
Como se eu fosse o lume e tu fosses a chama…

António Feijó (Ponte de Lima, 1/6/1859 – Estocolmo, 20/6/1917)
Poeta e diplomata, fundador da Revista Científica e Literária com Luís de Magalhães – 1880, Coimbra -, colaborador nas revistas Arte, A Ilustração Portuguesa, O Instituto, Novidades, Museu Ilustrado, licenciado em Direito.

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Ana Mafalda Leite – O Vermelho das Acácias na Paisagem
Novembro 29, 2013

Ana Mafalda Leite by lusografias

cai ao chão a mais íntima aurora
há-de vestir-me de cor rubra
a matéria que tinge o céu e me deslumbra
este assalto da aurora será meu enxoval meu dote de menina
agora que sei o mistério e continuo donzela
tu que pões o vermelho das acácias na paisagem
estranho amor te foi cobrindo amarga toranja
doce de papaia regressa
de cada vez
mais jovem
a semente
chama
arde em lábios audaciosos
neste acontecer saboroso
eles são afeitos
à incandescente terra a crescer um dom de mansidão
em fundo laranja canta o palato assim aceso enquanto
um rosário de contas pretas me escorre dos dedos
devagarinho para o chã

Ana Mafalda Leite (Lisboa, década de cinquenta)
Poetisa luso-moçambicana, ensaísta, tradutora, investigadora de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, professora catedrática – brilhante, posso afirmar!

Alexandre Vargas – Era um Dia de Outono Nevoeiro
Novembro 29, 2013

Alexandre Vargas by lusografias

Era um dia de outono nevoeiro,
eu caminhava ao longo de uma costa
por mar batida, num carreiro,
depois de fazer parar a mala-posta.

Um pouco afastadas da falésia
algumas árvores meditavam ao ar livre,
aproximei-me: logo ali, sob uma delas,
encontrei a folha que faltava no meu livro.

Tratava-se de um volume de epístolas
arrumadas entre cartas de jogar,
cerrado ao peito como uma pistola
ás de copas recolhi para disparar.

A noite ia passar naquelas bandas,
já lobrigara estalagem o cocheiro
marcara quarto simples na “Old England”
de cuja ceia rescendia sóbrio cheiro.

Depois da janta adormeci sobre a lareira
de “whiskey” e charutos carta ao fogo,
logo para a mesa estalajadeira,
refeito, me conduziu a novo jogo.

O cocheiro dormia agora a sono solto
bebidas “pints” outro ás ganhava belo
sonhei que partia para o monte
a câmara rubra levou ela contarelo:

“Arcelo, Arcelo,
deita o teu cabelo
cá abaixo de repente,
quero subir imediatamente!”

Era uma narrativa popular
que subia, à torre subia e subia
o tempo a desenrolar-
-me a estalajadeira e o fâmulo na via.

Alexandre Vargas (Lisboa, 31/12/1952)
Poeta, tradutor, colaborador em jornais e revistas, licenciado em Filologia Românica,
Filho de José Gomes Ferreira.

Alexei Bueno – A Boa Poesia
Novembro 29, 2013

Alexei Bueno by lusografias

“Há boa poesia em qualquer gênero.

Em todo o mundo os gêneros convivem, do mais clássico ao mais insólito, e o único critério que interessa é a qualidade.

Há o respeito pela especificidade do artista. (…)”

In Tarde, 27/2/99, entrevista a Luís António Cajazeira Ramos

Alexei Bueno (Rio de Janeiro, 26/4/1963)
Poeta, ensaísta, editor, antologista, tradutor.

Alice Vieira – A Poesia em Nós
Novembro 29, 2013

Alice Vieira by lusografias

“Na poesia podemos não entender tudo, podemos nem entender nada. Mas, sem sabermos como, ela fica em nós”

In O Meu Primeiro Álbum de Poesia, prefácio

Alice Vieira (Lisboa, 1943)
Jornalista e escritora, licenciada em Filologia Germânica.

Almeida Faria Visto por Miguel Esteves Cardoso
Novembro 29, 2013

Almeida Faria by lusografias

“Almeida Faria foi génio aos dezanove anos, quando publicou Rumor Branco, e desde então tem ousado publicar uma obra imprevisível, corajosa e inclassificável”.

Almeida Faria (Montemor-o-Novo, 6/5/1943)
Romancista, contista, ensaísta, colaborador em diversas publicações, licenciado em Filosofia.

Carlos Reis – Literaturas Lusófonas
Novembro 26, 2013

Carlos Reis by lusografias

“Chamo literaturas lusófonas ao conjunto das literaturas que, em estádios diferentes de institucionalização e difusão, têm como elemento comum a utilização da língua portuguesa como forma e substância.”

Carlos Reis (Angra do Heroísmo, 28 /09/1950)
Ensaísta, colaborador de jornais e revistas,professor universitário, especialista em literatura portuguesa.

Marly de Oliveira – Felicidade
Novembro 23, 2013

Marly de Oliveira  by lusografias

Minha felicidade vem de quando estou só

e ninguém me interrompe no poema,

essa espécie de transfusão

do sangue para a palavra,

sem qualquer estratagema.

A palavra é meu rito, minha forma

de celebrar, investir, reivindicar:

a palavra é a minha verdade,

minha pena exposta sem humilhação

à leitura do outro,

hypocrite lecteur, mon semblable.

Marly de Oliveira (Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo 1935 — Rio de Janeiro, 1/6/2007)
Poetisa, professora de língua e literatura italiana e de literatura hispano-americana, ex-esposa de João Cabral de Melo Neto.

Luís Miguel Nava – Falésias
Novembro 23, 2013

Luís Miguel Nava by lusografias

Poder-me-ão encontrar, trago um rapaz na minha
memória, a casa a uma janela
da qual o faço vir como um sabor à boca,
falésias onde o aguardo à hora do crepúsculo.

Regresso assim ao mar de que não posso
falar sem recorrer ao fogo e as tempestades
ao longe multiplicam-nos os passos.
Onde eu não sonhe a solidão fá-lo por mim.

Luís Miguel Nava (Viseu, 29/9/1957 – Bruxelas, 10/5/1995)
Poeta, galardoado com o Prémio Revelação da Associaçõa Portuguesa de Escritores em 1978, ensaísta, antologista, leitor de português, tradutor, licenciado em Filologia Românica.

Luís Quintais – Imaginar e Crer
Novembro 23, 2013

Luís Quintais by lusografias

“Imagino que o amor se manifesta por certos indícios ou formas muito gerais (…)

Tu estás sentada, eu reparo nos simples gestos, nos olhos. Reparo nas palavras que dizes. Estou preso ao que se encontra para lá delas, algures nesse interior só presumido.E por uma misteriosíssima semelhança ou analogia, escuto-te saciando-te, saciando-me de atenção. (…)

Dir-se-ia que tu e eu vamos de mãos dadas visitar o invisitável, e que o descobrimos como quem descreve um palácio há muito abandonado, e que nos guiamos, como cegos, um ao outro, reconhecendo detalhes e formas do que em nós julgávamos perdido, ou simplesmente impossível. (…)

Mas entre ti e mim, a analogia é perfeita, epifânica, ou assim quero crer.”

QUINTAIS, Luís, Canto Onde

Luís Quintais (Luena, Angola, 19/8/1968)
Escritor, galardoado com prémios de poesiaa nos anos de 1995 e 2005 (dois), antropólogo, professor na Universidade de Coimbra.