Archive for Maio, 2014

Aquilino Ribeiro – “Alcança…
Maio 26, 2014

Aquilino Ribeiro

“Alcança quem não cansa”

Aquilino Ribeiro (Tabosa do Carregal, 13/9/1885 – Lisboa, 27/5/1963)
Romancista, folhetinista, contista, novelista, professor.

Director da Seara Nova (1921),

Fundador e Presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores (1956)

Francisco Rodrigues Lobo – A Primavera
Maio 26, 2014

Francisco Rodrigues Lobo

Já nasce o belo dia,

Princípio do verão fermoso e brando,

Que com nova alegria

Estão denunciando

As aves namoradas,

Dos floridos raminhos penduradas.

 

Já abre a bela Aurora

Com nova luz as portas do Oriente,

E mostra a linda Flora

O prado mais contente,

Vestido de boninas

Aljofradas de gotas cristalinas.

 

Já o sol mais fermoso

Está ferindo as águas prateadas,

E Zéfiro queixoso

Ora as mostra encrespadas

À vista dos penedos,

Ora sobre elas move os arvoredos.

 

De reluzente areia

Se mostra mais fermosa a rica praia,

Cuja riba se arreia

Do álamo e da faia,

Do freixo e do salgueiro,

Do ulmo, da aveleira e do loureiro.

 

Já com rumor profundo

Não soa o Lis nos montes seus vizinhos,

Antes no claro fundo

Mostra os alvos seixinhos

E os peixes que nas veias

Deixam tremendo a sombra nas areias.

 

Já sem nuvens medonhas

Se mostra o céu vestido de outras cores;

Já se ouvem as sanfonas

E frautas dos pastores

Que vão guiando o gado

Pela fragosa serra e pelo prado.

 

Já nas largas campinas

E nas verdes decidas dos outeiros

Ao som das sanfoninas

Cantam os ovelheiros,

Enquanto os gados pastam

As mimosas ervinhas que renascem.

 

Sobre a tenra verdura

Agora os cabritinhos vão saltando,

E sobre a fonte pura

Passa a noite cantando

O rouxinol suave,

Com saudoso acento, agudo e grave.

 

Diana mais fermosa

Sem ventos sobre as águas aparece,

E faz que a noite irosa

Tão clara resplandece

À vista das estrelas

Que se envergonha o sol de inveja delas.

 

Tudo nesta mudança

Também de novo cobra novo estado;

Qual em sua esperança,

E qual em seu cuidado,

Acha contentamento;

Qual melhora na vida o pensamento.

 

Francisco Rodrigues Lobo (Leiria, 1580 – 4/11/1620)

Poeta e prosador, considerado discípulo de Camões e o iniciador do Barroco em Portugal, licenciado em Direito.

Egito Gonçalves – Convite
Maio 26, 2014

Egito Gonçalves

Nesta fase em que só o amor me interessa

o amor de quem quer que seja

do que quer que seja

o amor de um pequeno objecto

o amor dos teus olhos

o amor da liberdade

 

o estar à janela amando o trajecto voado

das pombas na tarde calma

 

nesta fase em que o amor é a música de rádio

que atravessa os quintais

e a criança que corre para casa

com um pão debaixo de um braço

 

nesta fase em que o amor é não ler os jornais

 

podes vir podes vir em qualquer caravela

ou numa nuvem ou a pé pelas ruas

– aqui está uma janela acolá voam pombas –

 

podes vir e sentar-te e falar com as pálpebras

pôr a mão sob o rosto e encher-te de luz

 

porque o amor meu amor é este equilíbrio

esta serenidade de coração e árvores

 

Egito Gonçalves (1922- Porto, 2001)

Poeta, editor, tradutor, fundou e participou na direcção de revistas.

 

D. Dinis – Amiga, Muit’ha Gran Sazón
Maio 26, 2014

D. Dinis

Amiga, muit’ha gran sazón

que se foi d’aquí con el-rei

meu amigo, mais ja cuidei

mil vezes no meu coraçón

que algur morreu con pesar,

pois non tornou migo falar.

 

Porque tarda tan muito lá

e nunca me tornou veer,

amiga, si veja prazer,

máis de mil vezes cuidei ja

que algur morreu con pesar,

pois non tornou migo falar.

 

Amiga, o coraçón seu

era de tornar ced’aquí,

u visse os meus olhos en mí,

e por én mil vezes cuid’eu

que algur morreu con pesar,

pois non tornou migo falar.

 

D. Dinis (Lisboa (?), 9/10/1261 – Santarém, 7/1/1325)

Rei-Trovador, Pai-da-Pátria, O Lavrador.

 

Carlos de Oliveira – Bilhete Postal
Maio 26, 2014

Carlos de Oliveira

Escrevo-te agasalhando o nosso amor,

que o tempo é este inverno sem disfarce:

Pelos meus olhos fartos de miséria

Mereço bem a luz da tua face.

 

Mas no meu coração as pobres coisas

choram, a cada lágrima exigida,

a tristeza precisa pra que eu saiba

quanto custa a alegria de uma vida!

 

Carlos de Oliveira (Belém do Pará, Brasil, 10/8/1921 – Lisboa, 1/7/1981)

Poeta, romancista, cronista, co-autor de Contos Tradicionais Portugueses com José Gomes Ferreira, 1953, colaborador nas revistas Seara Nova e Vértice, licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas.

 

António Franco Alexandre – Escrevo…
Maio 26, 2014

António Franco Alexandre

escrevo que sei o que ignoro

esqueço-me de ti que não me esqueces

existes no futuro como as casas

como os caules do vento permaneces

 

olho-te agora e já não estremeço

dias vadios de terra desfolhada

não tenho já motivos como dantes

nossas paixões são rimas consoadas

 

deixa que pouse a pedra psicológica

azul por dentro como um vão veneno

bebo na fonte as mão mãos termino o quadro.

 

António Franco Alexandre (Viseu, 17/7/1944)

Poeta, professor universitário, doutorado em Matemática e Filosofia.

António Ramos Rosa – O Poeta
Maio 26, 2014

António Ramos Rosa

 

“O poeta apreende-se através das coisas e atinge-as através de si mesmo: esta dupla e recíproca relação determina o carácter integrativo da poesia, a sua função unitária.(…)”

ROSA, António Ramos, “O Poema, sua génese e significação” in Poesia, Liberdade Livre

 

António Ramos Rosa (Faro, 17/10/1924 – Lisboa, 23/09/2013)
Poeta, crítico literário, ensaísta, tradutor e desenhador
Marido da poetisa Agripina Costa Marques.

Eduardo Lourenço – O Homem, a Imagem e a Sombra
Maio 26, 2014

Eduardo Lourenço

“Em face da sua imagem ou da sua sombra, o homem realiza um dia o encontro decisivo com os seus limites. A aventura misteriosa de Narciso repete-se desde  a infância em frente de cada espelho. Gostaríamos de nos tocar do lado de lá sem quebrar o vidro nem turvar a água. (…)

A aventura é impossível pois a imagem e a sombra são reais. Isso significa que o mundo nos cerca, nos divide e nos limita. Jamais seremos esse que pode ver-se face a face. (…)”

LOURENÇO, Eduardo, “Esfinge ou a Poesia” in Tempo e Poesia

 

Eduardo Lourenço (S. Pedro de Rio Seco, 23/5/1923)
Ensaísta, filósofo, intelectual, professor universitário, distinguido com o Prémio Camões em 1996.

 

Jorge de Sena – O Romance
Maio 26, 2014

Jorge de Sena

“Confesso-me um incorrigível leitor de romances, e que, de um romance, exige duas coisas que raramente vão juntas: ser um romance bem feito e ser mais que um romance.

Há que explicar, embora seja difícil e um tanto subjetivo, o que entender-se por estas duas coisas. Difícil, porque, concretamente (e  até in abstracto) não há juízos seguros para classificar a perfeição romanesca; e subjectivo, porque, não os havendo e ainda que os houvesse, sempre uma parcela de simpatia, de preferência intelectuais ou emocionais, influiria, senão na classificação, pelo menos na escolha dos classificados. Por isso ponho pessoalmente a questão. (…)”

SENA, Jorge de, “Da natureza dos Romances” in Sobre o Romance

 

Jorge de Sena (Lisboa, 2/11/1919 – St.ª Bárbara, Califórnia, 4/6/78)

Poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta, crítico, tradutor, professor catedrático, licenciado em Engenharia Civil e doutorado em Letras.

Manuel Antunes – Poesia e Crítica
Maio 26, 2014

Manuel Antunes

“(…) Como a poesia, a crítica é um dom. Nasce-se com aptidão interpretativa e justificativa como se nasce com aptidão criadora e expressiva.(…)”

ANTUNES, Manuel, “Da Crítica Literária” in Ao Encontro da Palavraensaio de crítica literária.

Padre Manuel Antunes (Sertã, 13/11/1918 – Lisboa, 16/1/1985)
Sacerdote, professor universitário, ensaísta, doutorado em Filosofia e Teologia, grande amigo de: Almada Negreiros, António Sérgio, Jorge de Sena, José Régio e Vitorino Nemésio.