Archive for Setembro, 2014

Maria Judite de Carvalho – Na Voz de Jacinto do Prado Coelho
Setembro 30, 2014

Maria Judite de Carvalho

“O estilo de Maria Judite não apresenta um sinal de rebusca ou uma palavra a mais. Pelo contrário: sugere, penetra, define, magoa, pela estrita economia das palavras, por uma admirável contenção…

Distingue-se pela justeza inesperada do adjectivo, pela frase nominal, um adjectivo, um substantivo isolado, em foco, dando a ênfase emocional com uma febre lúcida.”

COELHO, Jacinto do Prado, Ao Contrário de Penélope

Maria Judite de Carvalho (Lisboa, 18/9/1921 – Lisboa, 1998)
Contista, novelista, cronista, romancista, dramaturga, colaboradora em vários jornais e revistas.
Esposa de Urbano Tavares Rodrigues e mãe da escritora Isabel Fraga.

José Régio – Em Cima da Minha Mesa
Setembro 30, 2014

José Régio

Em cima da minha mesa
Da minha mesa de estudo
Mesa da minha tristeza –
Em que de noite e de dia
Rasgo as folhas, leio tudo
Destes livros em que estudo,
E me estudo
(Eu já me estudo…)
E me estudo
A mim
Também
Em cima da minha mesa,
Tenho o teu retracto, Mãe!
À cabeceira do leito,
Dentro de um caixilho,
Tenho uma Nossa Senhora
Que venero a toda a hora…
Ai minha Nossa Senhora,
Que se parece contigo,
E que tem ao peito,
Um filho
(O que ainda é mais estranho)
Que se parece comigo,
Num retratinho,
Que Tenho,
De menino pequenino!…
No fundo da minha mala,

Mesmo lá no fundo a um canto,
Não lhes vá tocar alguém,
(Quem as lesse, o que entendia?
Só riria
Do que nos comove a nós…)
Já tenho três maços, Mãe,
Das cartas que tu me escreves
Desde que saí de casa…
Três maços – e nada leves! –
Atados com um retrós…

Se não fora eu ter-te assim,
A toda a hora,
Sempre à beirinha de mim,
(sei agora
Que isto de a gente ser grande
Não é como se nos pinta…)
Mãe!, já teria morrido,
Ou já teria fugido,
Ou já teria bebido
Algum tinteiro de tinta.

José Régio (Vila do Conde, 17/09/1901 – Vila do Conde, 22/12/1969)
Pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira
Poeta, dramaturgo, romancista, contista, ensaísta, crítico, desenhador, coleccionador, licenciado em Filologia Românica.

Rodrigues Lapa – O Eufemismo
Setembro 30, 2014

Rodrigues Lapa

“(…) o sentimento das conveniências sociais leva-nos muitas vezes a atenuar a dureza e a franqueza de certas expressões, que evocam imagens grosseiras ou desagradáveis. Certos termos que exprimem a morte.o furto, a embriaguês, a idiotia, a mentira, etc., requerem eufemismos, isto é, meios expressivos que adoçam a brutalidade ou a inconveniência social desses termos.

Para o homem, nada mais terrível do que a morte. Pois bem, na vida social, o vocábulo que define a idéia pura – morrer, é suavizado pelos seguintes eufemismos: falecer, expirar, decidir, acabar, perecer, ir para o céu, finar-se, fechar os olhos, entregar a alma a Deus, passar-se, etc. Tudo expressões que procuram atenuar a fealdade do horrível transe. E quando se anuncia no jornal a morte de alguém, pessoa católica e de bom-tom, a sua família não escreve seca e trivialmente, morreu, mas sim um longo circunlóquio eufemístico: Foi Deus servido chamar à sua divina presença Fulano de tal.

O emprego do eufemismo também caracteriza certas camadas sociais. A um homem da plebe que comete um furto, as gazetas não hesitam em exprobrar ao ladrão, ao gatuno, o roubo que praticou; mas se um homem de alta sociedade cometeu o mesmo crime, então os redactores adoçam servilmente a frase e escrevem: desvio de fundos, fraude, alcance, etc.

O povo observou perfeitamente esta injustiça e fez sobre ela um provérbio admirável: “Quem rouba um pão, é ladrão; quem rouba um milhão, é barão.”

Um homem do povo que não se embriaga; isso é próprio da gente fina; o plebeu embebeda-se, e, empregando termos de gíria popular, toma a carraspana, o pifão, o pileque, fica grossso, colhe a trompa (gíria galega), etc.

Se num salão aristocrático se ouvissem estes nomes, as senhoras corariam de indignação; se numa viela de Alfama, em Lisboa, alguém pronunciasse o vocábulo embriagar, era apupado e escarnecido – caso verdadeiramente o entendessem.

(…)

Pode portanto dizer-se que há na linguagem uma dissimulação, uma espécie de hipocrisia – o reflexo de todas as atenuações, transigências e desigualdades que a vida social, como está constituída, nos impõe.”

LAPA, M. Rodrigues, Estilística da Língua Portuguesa

Manuel Rodrigues Lapa ( Anadia, 22/4/1897 – Anadia, 28/3/1989)
Filólogo, escritor, ensaísta, crítico e investigador literário, jornalista – Director de O Diabo e Seara Nova -, professor catedrático.

José Gomes Ferreira – Inspiração e Razão
Setembro 30, 2014

José Gomes Ferreira

 

” (…) Quando à inspiração e à razão (…) confesso que a primeira ideia que me acudiu, por comodidade prática, foi a de aceitá-las se discutir , e de fazer corresponder a inspiração ao período dos diários e dos papelinhos, e a razão ao trabalho construtivo posterior.

Mas, esta divisão, sem dúvida lógica e tentadora, não tardou a parecer-me esquemática em excesso e, ao cabo de alguns breves minutos de análise, falsíssima. Porque, em boa verdade, lembro-me de que me tem acontecido, com frequência, exactamente o contrário. Isto é: sobre notas de inspiração adiada, canhestras e frias, tomadas com rapidez, para não me esquecer de determinado instante, quantas vezes não construí, mais tarde, poesias de limpidez ardente, dessas que todos classificam de inspiradas!

Aliás, prefiro não empregar o termo inspiração. Troquei-o, há muito, por outro que se me afigura mais condizente com o meu ímpeto poético: fúria. Ou, até, Indignação.

Vai nascer o dia…

Apaga o archote, Indignação.

(Musa de cabelo de chicote

a fingir de Poesia)

FERREIRA, José Gomes, Gaveta de Nuvens

José Gomes Ferreira (Porto, 9/6/1900 – Lisboa, 1985)
Poeta, jornalista – colaborador da Presença e Seara Nova-, membro do Novo Cancioneiro, compositor musical, tradutor de filmes, Presidente da Associação Portuguesa de Escritores, licenciado em Direito, cônsul na Noruega, pai do arquitecto Raul H. Ferreira e do poeta Alexandre Vargas.

Camilo Pessanha – Canção da Partida
Setembro 30, 2014

Camilo Pessanha

Ao meu coração um peso de ferro
Eu hei de prender na volta do mar.
Ao meu coração um peso de ferro… Lançá-lo ao mar.
Quem vai embarcar, que vai degredado,
As penas do amor não queiram levar…
Marujos, erguei o cofre pesado, Lançai-o ao mar.
E hei de mercar um fecho de prata.
O meu coração é o cofre selado.
A sete chaves: tem dentro uma carta…
— A última, de antes do teu noivado.
A sete chaves, — a carta encantada!
E um lenço bordado… Esse hei de o levar,
Que é para o molhar na água salgada
No dia em que enfim deixar de chorar.

Camilo Pessanha (Coimbra, 7/8/1867 – Macau, 1/3/1926)
Poeta, licenciado em Direito.

Antero de Quental – O Templo (Excerto)
Setembro 30, 2014

Antero de Quental

(…)

O Evangelho novo é a biblia da Egualdade:

Justiça, é esse o thema immenso do sermão:

A missa nova, essa é a missa da Liberdade:

E o orgão a acompanhar… a voz da Revolução!

QUENTAL, Antero, Odes Modernas, 1861

Antero de Quental (Ponta Delgada,18/4/1842 – Ponta Delgada,11/9/1891)
Poeta, filósofo e político. Licenciado em Direito.

João de Araújo Correia – A Linguagem da Minha Terra“Encostar-se”
Setembro 30, 2014

João de Araújo Correia

“Muito se usou na minha terra, o verbo “encostar-se” no sentido de deitar-se… Mas, não deitar-se à noite para dormir na cama até ao dia seguinte.

O verbo encostar-se, tinha lá em cima, no meu povo, sentido especial.

Quem, durante o dia, se sentisse fatigado ou incomodado, levemente incomodado, ia-se encostar de moto próprio ou a conselho da família.

Deitava-se então na cama e aí ficava durante uma hora, duas horas até se sentir restaurado ou aliviado. Não ficava na cama até à noite, muito menos, até ao dia seguinte. Só se encostava o tempo necessário. Depois, toca a levantar…

Mãe ou esposa, se notassem mau aspecto em filho ou marido, logo o aconselhavam a encostar-se…

– Vai-te encostar um bocadinho, pode ser que fiques melhor…

Outras vezes, era o dono da casa, o patrão, que dizia à patroa: olha, mulher, parece que me vou encostar um migalho… Sinto-me cansado ou adoentado. Pode ser que me levante com outra disposição.

(…) o encostar-se , no sentido de descansar um pouco, sobre a cama, não foi privativo de Canelas. Foi geral em Trás-os-Montes e em vários pontos do País.

(…)

Por hoje, amigo leitor, acabou a nossa conversa. Vou-me encostar aí um quarto de hora para escrever sobre outro assunto.”

CORREIA, João de Araújo, Linguagem da Minha Terra, XV capítulo

João de Araújo Correia (Canelas do Douro, Peso da Régua, 1/1/1899 – Peso da Régua, 3/12/1985)
Contista, novelista, colaborador de jornais e revistas, linguista, médico e professor.

Ramalho Ortigão – A MATILHA
Setembro 28, 2014

Ramalho Ortigão

“O meu amigo Eça de Queirós, que tem andado comigo com uma muleta e com uma resma de papel, a procurar pelo reino um sítio limpo de maçadores, de moscas e de cozinheiros afrancesados, para aí acabar de escrever A Relíquia, chega-me hoje da Granja (…).

Ao sentarmo-nos à mesa para almoçar juntos no Palácio de Cristal, com Antero de Quental, Guerra Junqueiro e Oliveira Martins, soubemos apenas que no clube da granja o nosso amigo perdera na véspera a aposta de um leque numa partida de bilhar com uma das banhistas. Uma das condições da aposta era que o leque seria escrito pelos amigos com que Eça tinha de vir almoçar ao Porto.

À sobremesa fizemo-nos, pois, servir um tinteiro e uma pena de cozinha, e, entre a pêra e o queijo, o leque, comprado no Bazar do Palácio, de cetim cor de ouro ornado de uma aguarela representando um grupo de cinco cães, ficou escrito do seguinte modo:

Por cima dos cães, este dístico:  – Os autores.

Do lado oposto, a rubrica e o texto que passo a transcrever:

                         OS LATINOS

                                     I

Quem muito ladra, pouco aprende. Antero de Quental

                                   II

Escritor que ladra não morde. Oliveira Martins

                                  III

Dentada de crítico cura-se com pêlo do mesmo crítico. Ramalho Ortigão.

                                  IV

Cão lírico ladra à lua; cão filósofo aboca o melhor osso. Eça de Queirós.

                                 V

Cão de letras – cachorro! Guerra Junqueiro.

ENVOI

São cinco cães, sentinelas

De bronze e papel almaço;

De bronze para as canelas,

De papel para o regaço.

(Assinado) A MATILHA

(…)”

ORTIGÃO, Ramalho, As Farpas I

Ramalho Ortigão (Porto, 24/10/1836 – Lisboa, 27/9/1915)
Escritor, professor de Francês- de Eça e Ricardo Jorge -,
jornalista e bibliotecário.

Teixeira de Pascoaes – A Lembrança e a Esperança
Setembro 28, 2014

Teixeira de Pascoaes

“A lembrança e a esperança são as íntimas energias que trabalham o ser…

Lembrança e Esperança casadas dão na Saudade…

A Lembrança prende o homema tudo o que passou, a Esperança a tudo o que há-de vir.”

 

Teixeira de Pascoaes (Amarante, 8/11/1877- Gatão, 14/12/1952)
Poeta, prosador, licenciado em Direito.

António Correia de Oliveira – Louvor à Solidão
Setembro 28, 2014

António Correia de Oliveira

Louvor! Louvor a ti, ó solidão!

(…)

Por ti, nesta ansiedade,

mística exaltação em que medito,

alevanto às vertigens do infinito

mau humano e pesado coração,

mão-cheia de miséria, cinza e pó…

Sem ti, ó solidão,

é que me vejo só!

 

António Correia de Oliveira (S. Pedro do Sul, 1878 – Antas, 1960)
Poeta, jornalista, participou no Movimento Integralista Lusitano e nas revistas: Águia, Atlântida, Ave Azul e Seara Nova.