Rodrigues Lapa – O Eufemismo

Rodrigues Lapa

“(…) o sentimento das conveniências sociais leva-nos muitas vezes a atenuar a dureza e a franqueza de certas expressões, que evocam imagens grosseiras ou desagradáveis. Certos termos que exprimem a morte.o furto, a embriaguês, a idiotia, a mentira, etc., requerem eufemismos, isto é, meios expressivos que adoçam a brutalidade ou a inconveniência social desses termos.

Para o homem, nada mais terrível do que a morte. Pois bem, na vida social, o vocábulo que define a idéia pura – morrer, é suavizado pelos seguintes eufemismos: falecer, expirar, decidir, acabar, perecer, ir para o céu, finar-se, fechar os olhos, entregar a alma a Deus, passar-se, etc. Tudo expressões que procuram atenuar a fealdade do horrível transe. E quando se anuncia no jornal a morte de alguém, pessoa católica e de bom-tom, a sua família não escreve seca e trivialmente, morreu, mas sim um longo circunlóquio eufemístico: Foi Deus servido chamar à sua divina presença Fulano de tal.

O emprego do eufemismo também caracteriza certas camadas sociais. A um homem da plebe que comete um furto, as gazetas não hesitam em exprobrar ao ladrão, ao gatuno, o roubo que praticou; mas se um homem de alta sociedade cometeu o mesmo crime, então os redactores adoçam servilmente a frase e escrevem: desvio de fundos, fraude, alcance, etc.

O povo observou perfeitamente esta injustiça e fez sobre ela um provérbio admirável: “Quem rouba um pão, é ladrão; quem rouba um milhão, é barão.”

Um homem do povo que não se embriaga; isso é próprio da gente fina; o plebeu embebeda-se, e, empregando termos de gíria popular, toma a carraspana, o pifão, o pileque, fica grossso, colhe a trompa (gíria galega), etc.

Se num salão aristocrático se ouvissem estes nomes, as senhoras corariam de indignação; se numa viela de Alfama, em Lisboa, alguém pronunciasse o vocábulo embriagar, era apupado e escarnecido – caso verdadeiramente o entendessem.

(…)

Pode portanto dizer-se que há na linguagem uma dissimulação, uma espécie de hipocrisia – o reflexo de todas as atenuações, transigências e desigualdades que a vida social, como está constituída, nos impõe.”

LAPA, M. Rodrigues, Estilística da Língua Portuguesa

Manuel Rodrigues Lapa ( Anadia, 22/4/1897 – Anadia, 28/3/1989)
Filólogo, escritor, ensaísta, crítico e investigador literário, jornalista – Director de O Diabo e Seara Nova -, professor catedrático.

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