Archive for Novembro, 2014

Manuel Bandeira – Testamento
Novembro 28, 2014

Manuel Bandeira

O que não tenho e desejo
É que melhor me enriquece.
Tive uns dinheiros – perdi-os…
Tive amores – esqueci-os.
Mas no maior desespero
Rezei: ganhei essa prece.
Vi terras da minha terra.
Por outras terras andei.
Mas o que ficou marcado
No meu olhar fatigado,
Foram terras que inventei.
Gosto muito de crianças:
Não tive um filho de meu.
Um filho!… Não foi de jeito…
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu.
Criou-me, desde eu menino
Para arquitecto meu pai.
Foi-se-me um dia a saúde…
Fiz-me arquitecto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!
Não faço versos de guerra.
Não faço porque não sei.
Mas num torpedo-suicida
Darei de bom grado a vida
Na luta em que não lutei!

Manuel Bandeira (Recife, Brasil, 19/4/1886 – Rio de Janeiro, 13/10/1968)
Poeta, crítico literário e de arte, tradutor, professor.

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Cesário Verde – A Débil
Novembro 28, 2014

Cesário Verde

Eu, que sou feio, sólido, leal,
A ti, que és frágil, assustada,
Quero estimar-te, sempre, recatada
Numa existência honesta, de cristal.

Sentado à mesa dum café devasso,
Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura,
Nesta Babel tão velha e corruptora,
Tive tenções de oferecer-te o braço.

E quando deste esmola a um miserável,
Eu, que bebia cálices de absinto,
Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante, bom, saudável.

“Ela aí vem!” disse eu para os demais;
E pus-me a olhar, humilde e suspirando,
O teu corpo que pulsa, alegre e brando
Na fresquidão dos linhos matinais,

Via-te pela porta envidraçada;
E invejava, – talvez que não o suspeites! –
Esse vestido simples sem enfeites,
Nessa cintura tenra, imaculada.

Ia passando, a quatro, o patriarca.
Triste eu deixei o botequim, à pressa;
Uma turba ruidosa, negra, espessa,
Voltava das exéquias dum monarca.

Adorável! Tu, muito natural,
Seguias a pensar no teu bordado;
Avultava, num largo arborizado,
Uma estátua de rei num pedestal.

Sorriam, nos seus trens, os titulares;
E ao claro sol, guardava-te, no entanto,
A tua boa mãe, que te ama tanto,
Que não te morrerá sem te casares!

Soberbo dia! Impunha-me respeito
A limpidez do teu semblante grego;
E uma família, um ninho de sossego,
Desejava beijar sobre o teu peito.

Com elegância e sem ostentação,
Atravessavas branca, esbelta e fina,
Uma chusma de padres de batina,
E de altos funcionários da nação.

“Mas se a atropela o povo turbulento!
Se fosse, por acaso, ali pisada!”
De repente, paraste embraçada
Ao pé dum números ajuntamento.

E eu, que urdia estes fáceis esbocetos,
Julguei ver, com a vista de poeta,
Uma pombinha tímida e quieta
Num bando ameaçador de corvos pretos.

E foi, então, que eu, homem varonil,
Quis dedicar-te a minha pobre vida,
A ti, que és ténue, dócil, recolhida,
Eu, que sou hábil, prático, viril.

Cesário Verde (Lisboa, 25/2/1855 – Lumiar, 19/7/1886)
Poeta, estudante do curso Superior de Letras.

Castro Alves – Vozes D´África
Novembro 28, 2014

Castro Alves

Deus! oh Deus! onde estás que não respondes!

Em que mundo, em que estrela tu te escondes

Embuçado nos céus?

Há dois mil anos te mandei meu grito,

Que embalde, desde então corre o infinito…

Onde estás, Senhor Deus?…

(…)

Castro Alves (Curralinho, 14/3/1847 – Salvador, 6/7/1871)
Poeta, conhecido pelo “Poeta dos Escravos”.

Eça de Queirós – Carta a Zezé
Novembro 25, 2014

Eça de Queirós

[Biarritz, Fevereiro 1900]

Cher Zezè

Tres content de te savoir mieux de ton torti coli. Ici maintenant il fait beau – mais la mer este toujours tres farouche. Voilá les danseus basques qui commencent le carnaval. Gros baiser ton petit pere

J

Querido Zezé

Muito contente por saber que estás melhor do teu torcicolo. Aqui, agora, o tempo está bom – o mar porém continua bravio. Eis os dançarinos bascos que começam os festejos de Carnaval. Grande beijo do teu papá

 J

QUEIRÓS, Eça, A Arte de Ser Pai

Eça de Queirós (Póvoa do Varzim, 25/11/1845 – Paris, 16/8/1900)
Diplomata e escritor, considerado o melhor escritor realista português do séc. XIX.

Miguel Torga – Alma Lusa
Novembro 23, 2014

Miguel Torga

“É um fenómeno curioso:

O país ergue-se indignado, moureja o dia

indignado, come, bebe e diverte-se

indignado, mas não passa disso.

 

Falta-lhe o romantismo cínico da agressão.

Somos, socialmente, uma coletividade

pacífica de revoltados”

 

Miguel Torga (São Martinho de Anta, Vila Real, 12/8/1907 – Coimbra, 17/1/1995)
Pseudónimo de Adolfo Correia Rocha.
Contista, poeta, romancista, ensaísta, dramaturgo, um dos mais importantes escritores portugueses do século XX,  galardoado com o Prémio Camões em 1989, médico.

Al Berto – As Marés
Novembro 22, 2014

Al Berto

“(…) Com as marés vêm os dias cheios de ausência e de perfume a violeta. (…)”

Al Berto (Coimbra, 11/1/1948-Lisboa, 13/6/1997)
Pseudónimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares
Poeta, pintor, editor, animador cultural, um “coimbrense-siniense” único.

Eugénio de Andrade – Essa Mulher
Novembro 22, 2014

Eugénio de Andrade

Essa mulher, a doce melancolia
dos seus ombros, canta.
O rumor
da sua voz entra-me pelo sono,
é muito antigo.
Traz o cheiro acidulado
da minha infância chapinhada ao sol.
O corpo leve quase de vidro.

Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, Fundão , 19/01/1923 – Porto, 13/06/2005)
Pseudónimo de José Fontinhas.
Poeta de renome internacional, tradutor, prosador, autor de literatura infantil, antologista, detentor de diversos prémios literários, nomeadamente o Prémio Camões em 2001.

Sophia – “Caminho da Manhã”
Novembro 22, 2014

Sophia de Mello Breyner Andresen

“(…) Caminha rente às casas. Num dos teus ombros pousará a mão da sombra, no outro a mão do Sol.

Caminha até encontrares uma igreja alta e quadrada.

Lá dentro ficarás ajoelhada na penumbra olhando o branco das paredes e o brilho azul dos azulejos. Aí escutarás o silêncio. Aí se levantará como um canto o teu amor pelas coisas visíveis que é a tua oração em frente do grande Deus invisível.”

ANDRESEN, Sophia de Melo Breyner, “Caminho da Manhã”, in Obra Poética I

Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 6/11/1919 – Lisboa, 2/7/2004)
Poetisa, contista, autora de literatura infantil e tradutora, a 1.ª mulher portuguesa a receber o prémio Camões (1999).

José Gabriel Duarte – Rio de Água
Novembro 22, 2014

Do nosso rio de água,

pura, doce e transparente,

eu sou lento,

tu és nascente,

não deixes de verter,

ajuda-me a  correr,

 

Não sei viver contigo ausente…

In Rio de Doze Águas

José Gabriel Duarte (Lisboa)
Poeta, estudou a vida e a obra de J.S. Bach, licenciado em engenharia informática, ex-oficial da Armada.

Saúl Dias – O Poema
Novembro 22, 2014

Saul Dias

A tarde cai,
silenciosa,
morosa…

Na alma do poeta,
o poema,
estranha rosa
rubra e preta,
abre…

 

Saúl Dias (Vila do Conde, 1/11/1902 – Vila do Conde, 1983)
Pseudónimo de Júlio Maria dos Reis Pereira
Irmão de José Régio, poeta, pertenceu ao Movimento da Presença, colaborador em vários jornais, desenhador e pintor – assinava as suas obras com o nome próprio -, engenheiro civil.