Manuel Teixeira-Gomes – A Natureza

Manuel Teixeira-Gomes

O ténue crescente da Lua corta  a linha do horizonte: uma apara de unha luminosa, um leve sulco de prata a esvair-se…

Subo vagarosamente o caminho estreito e sinuoso que leva as meu mirante …

Fez-se noite…

O céu é de charão negro polvilhado a oiro. Já não se distinguem, mas adivinham-se, os vultos das serras estriadas pelo fumo das queimadas, fumo que se tinge de roxo, com repasses fúlgidos, línguas de labaredas cujo oiro se pega um instante ao vidro do céu.

A ramagem emaranhada do velho cedro, que estende os seus braços de verdura tenebrosa sobre o mirante, parece povoada de estrelas.

Colho um ramo e ao esforço de o arrancar tremem as gotas de luz e logo um pesado perfume de incenso satura o ambiente.

Há em toda a natureza uma estranha dormência, um silêncio de prostração, uma lassidão, um temor…”

TEIXEIRA-GOMES, Manuel, Inventário de Junho, 1899

Manuel Teixeira-Gomes (Portimão, 27/5/1860 – Bougie, Argélia, 18/10/1941)
Co-fundador do jornal de teatro Gil Vicente, 1881, colaborador de outras publicações, escritor, sétimo Presidente da Primeira República, de 1/10/1923 a 11/12/1925, tendo renunciado ao cargo, para se dedicar à literatura.

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