Archive for Janeiro, 2015

Vergílio Ferreira – Um Livro Ainda…
Janeiro 31, 2015

Vergílio Ferreira

“Um livro ainda, reinventar  a necessidade de estar vivo. Mundo da pacificação e do encantamento – visitá-lo ainda – mundo do êxtase deslumbrado. Da minha comoção subtil e íntima, virada de ternura até às lágrimas. Da pálida alegria oculta como uma doença. Do frémito misterioso da transcendência visível. Da fímbria da névoa como auréola que divinizam o real. Do reencontro com o impossível de mim. Da quietude submersa. Do silêncio.”

FERREIRA, Vergílio, Rápida, a Sombra

Vergílio Ferreira (Melo, Gouveia, 28/1/1916 – Lisboa, 1/3/1996)
Romancista, contista, ensaísta, autor de diários, galardoado com o Prémio Camões em 1992, professor, licenciado em Filologia Clássica.

Afonso Lopes Vieira – Os Ninhos
Janeiro 31, 2015

Os Ninhos - Afonso Lopes Vieira

 

Caros Visitantes,

Partilho convosco esta página d´O Livro da Segunda Classe do Ensino Primário Elementar em Portugal (6.ª Edição 1958), o qual apresentava três grandes vertentes: textos diversos, contemplando neste ano o contacto com a poesia; Doutrina Cristã e Aritmética, estrutura análoga à d´O Livro da Primeira Classe  – o exemplar do ano seguinte àquele designava-se: Livro de Leitura da 3.ª Classe; ao nível dos conteúdos apenas a Aritmética estava excluída neste volume.

Transcrevo o poema para facultar a sua leitura e apreciação!

Muito obrigada pela vossa presença!

 

Os passarinhos
Tão engraçados,
Fazem os ninhos
Com mil cuidados.

São p’ra os filhinhos
Que estão p’ra ter
Que os passarinhos
Os vão fazer.

Nos bicos trazem
Coisas pequenas,
E os ninhos fazem
De musgo e penas.

Depois, lá têm
Os seus meninos,
Tão pequeninos
Ao pé da mãe.

Nunca se faça
Mal a um ninho,
À linda graça
De um passarinho!

Que nos lembremos
Sempre também
Do pai que temos,
Da nossa mãe!

Afonso Lopes Vieira (Leiria, 1878 –Lisboa,1946)
Poeta, representante do Neogarretismo, ligado à Renascença Portuguesa, licenciado em Direito.

Cecília Meireles – Os Pescadores e as Suas Filhas
Janeiro 31, 2015

Cecília Meireles

Os pescadores dormiam
cansados, ao sol, nos barcos.

As filhinhas dos pescadores
brincavam na praça, de mãos dadas.

As filhinhas dos pescadores
cantavam cantigas de sol e de água.

Os pescadores sonhavam
com seus barcos carregados.

Os pescadores dormiam
cansados de seu trabalho.

As filhinhas dos pescadores
falavam de beijos e abraços.

Em sonho, os pescadores sorriam.
As meninas cantavam tão alto,

que até no sonho dos pescadores
boiavam as suas palavras.

MEIRELES, Cecília, Ou Isto Ou Aquilo

Cecília Meireles (Rio de Janeiro, 7/11/1901 – Rio de Janeiro, 9/11/1964)
Poetisa, professora e jornalista, fundadora da 1.ª Biblioteca Infantil do Rio de Janeiro.

Glória de Sant´Anna – Afirmação
Janeiro 29, 2015

Glória de Sant´Anna

A essência das coisas é senti-las
tão densas e tão claras,
que não possam conter-se por completo
nas palavras.

A essência das coisas é nutri-las
tão de alegria e mágoa,
que o silêncio se ajuste à sua forma
sem mais nada.

Glória de Sant´Anna (Lisboa, 1925 – 2/6/2009)
Poetisa, colaboradora de publicações em Moçambique, onde viveu de 1951 a 1975, professora.

Francisco José Viegas – Último dos Poemas de um Marinheiro
Janeiro 29, 2015

Francisco José Viegas

das paixões só conheci as mais pequenas
aquelas que nasciam na palma das mãos e desapareciam
com a água do mar. mas não eram paixões por barcos
ou pássaros ou cabelos teus: só uma fenda no céu
verde e azul e uma casa desabitada

das paixões só conheci as mais pequenas
como se no minuto imediato eu tivesse de esperar a morte
ou as aves no seu regresso do norte
de resto, implorei aos deuses uma morada branca
onde nenhum peixe chegasse antes do alvorocer
onde nenhum nome coubesse, onde nenhum olhar entrasse
implorei aos deuses o seu encantamento
não o seu dó. foi então que, das paixões, das mais pequenas
surgiram os teus olhos tão verdes e tão brancos
que só eu neles poderia poisar como um pescador
sem mar onde navegar ou lavar o rosto.

Francisco José Viegas (Vila nova de Foz Côa, 14/3/1962)
Poeta, romancista, contista, dramaturgo, relator de viagens, cronista com o heterónimo António Sousa Homem, jornalista, licenciado em Estudos Portugueses.

Fiama Hasse Pais Brandão – Para Maria de Lourdes Pintasilgo em Breve Homenagem
Janeiro 29, 2015

Fiama Hasse Pais Brandão

O que nos chama para dentro de nós mesmos
é uma vaga de luz, um pavio, uma sombra incerta.
Qualquer coisa que nos muda a escala do olhar
e nos torna piedosos, como quem já tem fé.
Nós que tivemos a vagarosa alegria repartida
pelo movimento, pela forma, pelo nome,
voltamos ao zero irradiante, ao ver
o que foi grande, o que foi pequeno, aliás
o que não tem tamanho, mas está agora
engrandecido dentro do novo olhar.

Fiama Hasse Pais Brandão (Lisboa, 15/8/1938 – Lisboa, 19/1/2007)
Poetisa, romancista, dramaturga, ensaísta, tradutora.
(Foi esposa de Gastão Cruz)

Gastão Cruz – A Eugénio de Andrade Glosando A Litania
Janeiro 29, 2015

Gastão Cruz

Sabia, sei ainda, de cor a Litania,

em que um rosto inclinado era

a razão, a única, na vida

para que com o vento elas viessem,

as palavras, de sol atravessadas e do

medo da solidão, metades

do mesmo mundo, dia

e noite, e as mãos irresponsáveis,

também elas sombrias, transparentes

 

Não, não era somente claridade

nem só o sol amigo irradiava

da brancura feroz daqueles dentes;

cruéis eram as pernas triunfantes

na noite que chegava: e esse claro-

-escuro essa traição fiel à

realidade, um corpo dividindo

as palavras, alegria terror, sombrio

transparente, triunfo crueldade,

poesia que não era apenas sol

mas também solidão escuridão

era, passara a ser, minha verdade

CRUZ, Gastão, Repercussão

Gastão Cruz (Faro, 20/7/1941)
Poeta, crítico literário, encenador, licenciado em Filologia Germânica.

Eugénio de Andrade – Litania 
Janeiro 29, 2015

Eugénio de Andrade

O teu rosto inclinado pelo vento;
a feroz brancura dos teus dentes;
as mãos, de certo modo, irresponsáveis,
e contudo sombrias, e contudo transparentes;

o triunfo cruel das tuas pernas,
colunas em repouso se anoitece;
o peito raso, claro, feito de água;
a boca sossegada onde apetece

navegar ou cantar, ou simplesmente ser
a cor dum fruto, o peso duma flor;
as palavras mordendo a solidão,
atravessadas de alegria e de terror,

são a grande razão, a única razão.

Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, Fundão , 19/01/1923 – Porto, 13/06/2005)
Pseudónimo de José Fontinhas.
Poeta de renome internacional, tradutor, prosador, autor de literatura infantil, antologista, detentor de diversos prémios literários, nomeadamente o Prémio Camões em 2001.

Locuções Latinas- Mea culpa; media; memento; mirabile dictu; modus faciendi; modus operandi; modus vivendi
Janeiro 29, 2015

Vogais

As locuções latinas mencionadas em título continuam a ser utilizadas.
Eis o significado de cada uma delas:

mea culpa —————- por minha culpa;

media ———————– meios de comunicação;

memento ——————- lembra-te;

mirabile dictu ———– admirável de dizer;

modus faciendi ———- modo de fazer;

modus operandi ——– modo de trabalhar;

modus vivendi ———- modo de viver.

(continua)

Lopes Morgado – Só Por Isso
Janeiro 25, 2015

Lopes Morgado

Mesmo que a noite esteja escura,

Ou por isso,

Quero acender a minha estrela.

 

Mesmo que o mar esteja morto,

Ou por isso,

Quero enfunar a minha vela.

 

Mesmo que a vida esteja nua,

Ou por isso,

Quero vertir-lhe o meu poema.

 

Só porque tu existes,

Vale a pena!

MORGADO, Lopes, MULHER MÃE

Lopes Morgado (Areias de Vilar, Barcelos, 23/4/1938)
Sacerdote – Frei da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos – , professor, escritor, poeta, jornalista.