Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Moçambique – Ungulani Ba Ka Khosa – A Cidadania das Línguas Nacionais

Ungulani Ba Ka Khosa

“O grande problema que nós temos aqui é que nos tornamos independentes, fizemos todo este percurso, mas, ao mesmo tempo, não conferimos a cidadania às línguas nacionais, para além do português.

Quer dizer, temos, no país, portanto, vinte e três línguas minimamente padronizadas, mas com 35 anos de independência, essas línguas são ainda marginais, marginais elas, marginais os valores que transportam, uma vez que centrarmo-nos na língua portuguesa como uma língua pátria e não deixamos que as outras línguas ganhem a cidadania. Então eu me insurjo nesse sentido, como moçambicano.

Quer dizer, se nós temos que edificar o país nessa complexidade, então, essas línguas, essas culturas tem que transportar consigo tudo, tem que transportar a culinária, os valores.

O provérbio que é ensinado, ou que é veiculado nos textos, tem que prever ao menos duas coisas, a sua tradução para a língua escrita em que vai ser veiculado e a cultura que transporta dentro dele.

Em relação à cobra, por exemplo.

Quando se fala em cobra, para os macua, etnia do norte do país, ela é uma alusão a uma pessoa esperta, pois não precisa de pernas para subir em uma árvore.

No sul, quando se diz ele é tão calado e tão manhoso como uma cobra, quer-se dizer que a pessoa é bem calada.

Dessa forma, todo o contexto que esse elemento cobra transporta nos diferentes universos culturais moçambicanos é totalmente diferente. Então eu digo, as crianças fazem a fase primária, a fase secundária, tendo o português como língua de unidade, mas os valores, as línguas locais e as culturas que elas representam não são transportadas.

Hoje já se fala no ensino bilíngue, mas ainda como experiência, como uma coisa que não está consolidada. É como se estivéssemos em uma casa e o debate se desse nos fundos da casa.

É como se os valores das culturas locais não estivessem na nossa sala de visitas.

Então, é a partir desse paradigma que é preciso pensarmos o mais urgentemente possível porque, é óbvio, a literatura vai transportar uma série de coisas, mas entre elas tem que estar os valores das culturas e das línguas locais.

Veja por exemplo, em 1908 e 1913, aqui na cidade, que se chamava Lourenço Marques, havia um jornal O Africano.

Depois, O Brado Africano, que era o jornal escrito em português, mas com a preocupação de falar sobre e para Moçambique, levar ao povo o real problema da colonização. Porque era necessário levar a cabo a tarefa de virar todas as atenções para a terra, para os homens da terra, o jornal abriu espaço para a língua ronga, dialeto praticado em algumas regiões do país, sobretudo na capital.

Havia também um jornal, aqui O Guardian, que era inglês.

Isso, no início do século, com uma comunidade assimilada bem reduzida.

Quer dizer, a língua nacional já era pouco ouvida, e ainda não fomos capazes de dar cidadania às nossas línguas, à cultura, depois de tantos anos pós-independência.”

Breve excerto de uma entrevista com Rosália Diogo, 2010.

 

Ungulani Ba Ka Khosa (Inhaminga, Moçambique, 01/08/1957)
Pseudónimo de Francisco Esaú Cossa,
Escritor e professor.

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