Padre Moreira das Neves – O Silêncio da Poesia

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Não pares na palavra.
Deixa o vento Levar para as distâncias infinitas
O som de terra que te sai disperso.

Não prendas, com a fala, o pensamento.
És maior sobre o mundo, se não gritas
E deixas no, silêncio o melhor verso.
Dor que se diz é dor desperdiçada.
Quando conversas, perdes-te no ar.
Ensina-te o Deserto coisas puras.

É mais bela uma lágrima calada
Do que todos os cânticos do mar
E todas as orquestras das alturas.

No silêncio é que Deus acende a luz
Mais fácil para entrar dentro de nós.
O silêncio tem graças de tesoiro.

Ama o silêncio em ti, como Jesus.
A prece das angústias não tem voz,
Mas o Senhor no céu a grava em oiro.

Benditos sejam os que a língua domem
Diz-me tu se calas o que sentes,
Eu te direi se vales o que dizes…

A própria natureza avisa o homem:
— A flor vem do silêncio das sementes
O fruto, do silêncio das raízes.

Faz com Deus, e contigo em oração,
Séria promessa, bem jurada e calma,
Como um profeta há séculos faria.

Escrever é violar a solidão.
Não escrevas.
Poeta, cala a alma,
Não mates o silêncio da Poesia!

Padre Francisco Moreira das Neves (Gandra, Paredes, 18/11/1906- 31/03/1992)
Monsenhor, escritor, jornalista e poeta.

 

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