Archive for Maio, 2015

Lindolf Bell – Do Pão de Cada Dia
Maio 23, 2015

Lindolf Bell

I

Arde uma estrela
dentro do pão.
Tão imensa
que não cabe
na palavra pão
nem na palavra estrela.
Uma estrela infinita.
Uma estrela.
Uma estrela infinita,
infinitamente ardida.
No céu da boca.
Na terra da fome.
No coração nosso de cada dia.

Dai, pão, aos vivos,
para que a luz
seja mais forte.

Dai, pão, no escuro,
para que se faça a luz.

Lindolf Bell (Timbó, 2/11/1938 – Blumenau, 10/12/1998)
Poeta, grande divulgador da poesia: líder do movimento Catequese Poética – distribuição de poemas nas ruas, estádios, escolas, “boites”, teatros, fábricas, clubes, praças -, criador das camisetas-poema, gravou poemas em blocos de granito na Praça do Poema, entre outras, formado em Dramaturgia.

Lêdo Ivo – Acontecimento do Soneto
Maio 23, 2015

Lêdo Ivo

 

À doce sombra dos cancioneiros
em plena juventude encontro abrigo.
Estou farto do tempo, e não consigo
cantar solenemente os derradeiros

versos de minha vida, que os primeiros
foram cantados já, mas sem o antigo
acento de pureza ou de perigo
de eternos cantos, nunca passageiros.

Sôbolos rios que cantando vão
a lírica imortal do degredado
que, estando em Babilônia, quer Sião,

irei, levando uma mulher comigo,
e serei, mergulhado no passado,
cada vez mais moderno e mais antigo.

 

Lêdo Ivo (Maceió, 18/2/1924 – Sevilha, 23/12/2012)
Poeta, romancista, contista, cronista, ensaísta, autor de literatura infanto-juvenil, jornalista.

Manuel Alegre – Trova do Vento que Passa
Maio 23, 2015

Manuel Alegre

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio – é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

 

Manuel Alegre (Águeda, 12/5/1936)
Poeta, prosador e político português.

Ivo Castro – O Acordo Ortográfico e as Políticas da Língua Portuguesa
Maio 23, 2015

 

“Portugal não precisa de uma política da língua, mas de várias.

Uma política dirigida ao ensino da língua materna a portugueses ( a aula de português não deve ser uma aula de literatura, nem de linguística, nem uma continuação do recreio).

Uma política dirigida ao ensino da língua materna a não portugueses (os brasileiros e africanos que estudam em Portugal têm variedades próprias da língua que não devem ser tratadas com lógica correctiva).

Outra dirigida à preservação da língua nas relíquias asiáticas e entre os descendentes de emigrantes (tendo em atenção a necessária integração destes nas sociedades em que vivem).

Finalmente, uma política de cooperação linguística com os outros países de língua oficial portuguesa (com lógica bilateral). (…)”

(continua)

 

In JL 25 Abril – 8 Maio 2007

 

Ivo Castro – Doutorado em Linguística, professor catedrático da FLL.

Eduíno de Jesus – Poema do Amor Desesperado
Maio 20, 2015

Eduíno de Jesus

Espera um pouco (até que o amor de todo nos destrua!)
Amanhã, amanhã é que esta história há-de ser contada.
Então, da nossa vida e amores, não haverá mais nada
Do que um fantasma branco balouçando à lua.

Mas é agora que tudo é verdadeiro. Amanhã, quando
Não houver de nós ambos nem o nome escrito
Em letras de pedra numa pedra num canto do mundo,
Nina, quem saberá o que foi o nosso amor profundo?
O nosso amor maldito?
O nosso amor tão grande?

É preciso, é preciso dar notícia aos grandes profetas do futuro!
(Não vão depois dizer que o nosso amor era pecado…)
Não havia nenhum muro, e para trazer calado
O mundo, é que os dois, a pedra e lágrimas, levantámos a
[enorme e intransponível sombra deste muro!

Eduíno de Jesus (Ponta Delgada, Açores, 18/1/1928)
Ensaísta, dramaturgo, poeta, professor do Ensino Secundário e, posteriormente, docente universitário.

As Dúvidas do Zé-Concertina – Ratificar e Retificar
Maio 20, 2015

As Vogais

Conversa entre o Zé-Concertina, as Vogais e Outras Mais…

– Bom Dia, Sr. Zé-Concertina!

– Bom Dia, Menina Consoante R! Está muito risonha!

– Acordei bem-disposta! Como está?

– Estou bem, obrigado! Mas, tenho uma dúvida! Uma dúvida… R…

– Exponha a dúvida, Sr. Zé-Concertina, pois todo o R é comigo.

– Obrigado, Menina R! Cá vai ela! Ouvi na sede do clube que a direção do Vasquinho ia ratificar qualquer coisa que uns sócios queriam. E fiquei a cogitar se não seria retificar, mas como não tinha a certeza, fiquei caladinho, não fosse alguma modernice, por causa dessa “balhana” do “desacordo”, e que o retificar sem o c tivesse perdido o tino.

– Nada disso, Sr. Zé-Concertina! Eu explico-lhe:

. ratificar (ratu+facere) significa confirmar, validar o que foi proposto;

. retificar (rectificare), que perde o c segundo o Acordo Ortográfico, por se tratar de uma consoante muda, significa tornar reto, corrigir.

– Ah! Muito me conta, Menina Consoante R! Uma pessoa fica parva com estas coisas! Posso dar uns exemplos para ver se entendi bem?

– Faça favor, Sr. Zé-Concertina!

– Muito agradecido! Nesse caso, fica assim:

. A direção do Vasquinho ratificou a proposta daqueles sócios.

. A minha Benvinda retificou o tempero do jantar, porque pôs água demais, e aquilo não tinha gracinha nenhuma.

– Muito bem, Sr. Zé.Concertina!

– Muito obrigado, Menina R! Vou indo, que se faz tarde! Passe bem!

– Não tem de quê, Sr. Zé-Concertina! Também tenho de fazer umas entregas de riso a muita gente que anda triste!

Eduardo Lourenço – O Socialismo
Maio 20, 2015

Eduardo Lourenço

“Para ter futuro não como mera expressão na ordem político-democrática o Socialismo terá como obrigação primeira reinventar um novo discurso cultural, revisitar seriamente o seu imaginário que ainda o protege aparentemente do fascínio do discurso pseudo-liberal.”

“O Socialismo ou é ética social em acto ou não é nada. Estou certo de pouca coisa, mas não duvido de que o futuro para o Socialismo ou se alimenta dessa convicção e das consequências práticas que dela revelam ou se converterá numa legenda sem leitura e sem leitores.”

LOURENÇO, Eduardo, A Esquerda na Encruzilhada ou Fora da História?

Eduardo Lourenço (S. Pedro de Rio Seco, 23/5/1923)
Ensaísta, filósofo, intelectual, professor universitário, distinguido com o Prémio Camões em 1996.

Camilo Castelo Branco – Soneto A António de Macedo Papança
Maio 19, 2015

Camilo Castelo Branco

Relata-nos Trindade Coelho, na sua obra  In Illo Tempore, entre as diversificadas aventuras estudandis coimbrãs, que um dia Camilo assistiu à récita dos Fígados de Tigre do camarote chamado “dos conselheiros”, na qual o poeta das Crepusculares, Macedo Papança, que na altura em que redigiu as suas memórias era conde de Monsaraz, fizera “um papelão”, o de Tomásia, e que aquele brindou a “exímia actriz” com a primeira quadra de um soneto, que lhe enviaria juntamente com uma carta de São Mamede de Ceide, que transcrevo:

“Il.mº e Ex.mº Sr. – Agradeço a V. Ex.ª lembrar-se deste seu admirador, em anos já tão frios e incapazes de admirações pelas formosas coisas da poesia.

Tem V. Ex.ª o condão de ser bom e amorável no meio dos seus satanismos métricos.

Os da escola de V. Ex.ª, por via de regra, alinham todas as consoantes perversas que podem, e nem sempre respeitam Deus mais do que a gramática. Quando falo na escola, não comparo V. Ex.ª como idealista aos filhos da Ideia Nova, que conversam as ondinas do Tejo e o mau Colares do Xijank. Os seus versos, meu caro poeta, são sentimentos; e, se, às vezes, parecem banalidades, isso demonstra que V. Ex.ª está nos vinte anos e é sanguíneo.

Se a crítica dos velhos quiser aplicar.lhe a lanceta, ria-se V. Ex.ª das cantáridas com que eles se ungem para o sacrifício da castidade.

Lembrou-me agora que tinha aqui na capa de uma brochura escrito o soneto do qual lhe dei a primeira quadra naquela alegre noite dos Fígados. Aí o tem inteiro na página seguinte. Se tiver um arquivo de frioleiras, ponha-o lá.

De V. Ex.ª

Adm.or e Cr.do afectuoso e Obr.do

Camilo Castelo Branco”

 

A ANTÓNIO MACEDO PAPANÇA

Destes reis da Etiópia, Arábia e Ásia

Detesto cordialmente a realeza;

Mas dobro o joelho a ti, loira princesa,

Doida cocote, lúbrica Tomásia.

 

Não lembras de Romeu a doce amásia;

Mas fazes recordar certa Teresa

Que, em banzés de Paris, mantinha acesa

A lascívia que faz arder Aspásia.

 

Quem te pôs nesses olhos requebrados

O dardo cupidíneo com que feres

Uns peitos já senis e encouraçados?

 

Tu és hermafrodita quando queres;

E na farsa dos Fígados Danados

És mulher mais mulher do que as mulheres.

 

Camilo Castelo Branco (Lisboa, 16/3/1825 – S. Miguel de Seide, 1/6/1890)
Romancista, cronista, crítico, dramaturgo, poeta e tradutor.

Ramalho Ortigão – A Holanda – Prefácio da Terceira Edição
Maio 19, 2015

Ramalho Ortigão

“Prefácio da Terceira Edição

Há onze anos que este livro foi escrito para a Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro. Desde então até hoje têm-se transformado, cada vez mais profundamente, todos os antigos problemas de sociologia, relacio­nados com a literatura de viagens, que tem por objecto o estudo de civilizações comparadas.

A questão política cessou de interessar-nos, ao passo que a questão social de dia para dia se nos impõe com mais instância e mais violência . Vacilam todas as opiniões na filosofia e na ciência aplicada à arte de governar, perante a impotência manifesta de sanar as injustiças sociais, função de uma lei natural e irrevogável – a subjugação dos fracos pelos fortes. Nas idades passadas a Fé era um lenitivo dessa opressão, imposta à sociedade pela Natureza . Em nossos dias, porém a irreligio­sidade estancou os mananciais de resignação; e os mais poderosos gover­nos do Mundo reconhecem-se inaptos para reorganizar a virtude, decretando como no Evangelho a comiseração aos poderosos, a conformidade aos humildes.

Inútil para a História, estéril para a Filosofia, possa esta pintura sincera e comovida dos velhos lares holandeses, tão simples, tão modestos, tão recolhidos e tão meigos, ter um humilde lugar na Arte, cuja missão – hoje mais que nunca – é cultivar no coração dos homens a flor da simpatia.

Julho de 1894.

                   R.O.”

Ramalho Ortigão (Porto, 24/10/1836 – Lisboa, 27/9/1915)
Escritor, professor de Francês- de Eça e Ricardo Jorge -,
jornalista e bibliotecário.

Eugénio de Andrade – Lisboa
Maio 17, 2015

Eugénio de Andrade

Alguém diz com lentidão:

“Lisboa, sabes…”

Eu sei. É uma rapariga

descalça e leve,

um vento súbito e claro

nos cabelos,

algumas rugas finas

a espreitar-lhe os olhos,

a solidão aberta

nos lábios e nos dedos,

descendo degraus

e degraus

e degraus até ao rio.

 

Eu sei. E tu, sabias?

 

Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, Fundão , 19/01/1923 – Porto, 13/06/2005)
Pseudónimo de José Fontinhas.
Poeta de renome internacional, tradutor, prosador, autor de literatura infantil, antologista, detentor de diversos prémios literários, nomeadamente o Prémio Camões em 2001.