Carlos Queirós – Teatro da Boneca

Carlos Queirós

A menina tinha os cabelos louros.

A boneca também.

A menina tinha os olhos castanhos.

Os da boneca eram azuis.

A menina gostava loucamente da boneca

A boneca ninguém sabe se gostava da menina.
Mas a menina morreu.

A boneca ficou.

Agora já ninguém sabe se a menina

gosta da boneca.
E a boneca não cabe em nenhuma gaveta.

A boneca abre as tampas de todas as malas.

A boneca arromba as portas de todos os

armários

A boneca é maior que a presença de todas as

coisas.

A boneca está em toda a parte.

A boneca enche a casa toda.
É preciso esconder a boneca.

É preciso que a boneca desapareça para sempre.

É preciso matar, é preciso enterrar a boneca.

A boneca.

A boneca.

Carlos Queirós (Lisboa, 5/4/1907 – Paris, 27/10/1949)
Poeta modernista, um dos grandes vultos da Revista Presença.

There are no comments on this post.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: