Archive for Setembro, 2015

Ana Paula Bastos – Tristeza de não Saber Amar
Setembro 30, 2015

Como são tristes as pessoas que não sabem amar,
Cujas vidas nunca deram flor
Nem foram iluminadas
pelo rastro luminoso
de uma Amizade verdadeira, nobre e bela…

A tristeza de nunca ter
Sido envolvido num abraço de um amigo…

A tristeza de nunca ter sido
Absorvido pelo mistério impenetrável do Amor…
Porque um momento de verdadeiro amor
…vale uma vida.

Não há dúvidas de que
a ciência de viver é a arte de amar.

Como são vazias estas vidas sem amor,
estes corações áridos, secos,
Cheios de espinhos,
sem uma única flor que nelas abra
e perfume ambiente…

Sem a maravilhosa sensação
de experenciar um louco amor pela humanidade
mergulhado no oceano da vida…
Do espíito…
Da vibração…
E da comunhão…

Ana Paulo Bastos (Portimão, 1955)
Professora de Educação Moral e Religiosa Católica, Formadora de Teologia, Fisioterapeuta, Mestre em Ciências da Educação.

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Ana Marques Gastão –Alimento Imperfeito
Setembro 30, 2015

Ana Maria Garção

Possa eu tornar-me pedra,
da pedra areia, da rocha
grão, do diamante brilho.
Endureça eu como concha
de água matricial, minério
de cobre, coração cristalino.
Seja eu alimento imperfeito
de clareza perfeita, mar denso,
condensado, astral e puro.
Seja eu mel coagulado
d’orvalho e ouro vivo.

GARÇÃO, Ana Maria,  Adornos

 

Ana Marques Gastão (Lisboa, 1962)
Poetisa, crítica literária, colaboradora de diversas publicações, licenciada em Direito .

Prefixos de Origem Latina – intra-; intro-; justa-; mal, male; menos-
Setembro 28, 2015

As Vogais

A língua portuguesa é constituída por numerosos elementos de origem latina e grega na formação das suas palavras. O seu conhecimento facilita-nos a compreensão do seu significado.

Eis alguns exemplos:

1. Prefixos de Origem Latina

Prefixo                                                      Significado

intra-                                                       posição  interior

Ex.: Intravenoso

 

intro-                                                    movimento para  dentro

Ex.: Intrometido

 

justa-                                                     aproximação

Ex.: Justapor

 

mal-, male-                                           ideia de mal

Ex.: Malcriado,  malefício

 

menos-                                                     ação  inversa

Ex.: Menosprezar

 (continua)

 

Ana Mafalda Leite – As Vozes das Plantas
Setembro 28, 2015

Ana Mafalda Leite

ao Gulamo Khan

neste lugar que não lembro a noite cresce silenciosa
em sua deslumbrada obscuridade, o dia esboça repouso
estremecimentos leves a pálpebra inteira a distância percorre
atenuada, ao fundo dos jardins se escutam as vozes vindas do
interior das plantas acesas na sua sombra em lugar tranquilo.
por vezes nela se guarda alguma palavra insuspeita, o olhar
demora no vazio nómada dos pequenos brilhos, movimentos
cintilados e doçura por entre a intuida convicção do desenho.
tremor da paisagem obscuro vento em seus domínios
pressentido a transportam até onde a voz arranca surpreendida
intraduzível som, templo guardado e tempo incerto
a luz resplandecendo e a noite se envolvendo em lua
por dentro, em cristal e em silêncio

 

Ana Mafalda Leite (Lisboa, década de cinquenta)
Poetisa luso-moçambicana, ensaísta, tradutora, investigadora de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, professora catedrática – brilhante, posso afirmar!

 

Ana Luísa Amaral – Carta à Minha Filha
Setembro 28, 2015

Ana Lúisa Amaral

Lembras-te de dizer que a vida era uma fila?
Eras pequena e o cabelo mais claro,
mas os olhos iguais. Na metáfora dada
pela infância, perguntavas do espanto
da morte e do nascer, e de quem se seguia
e porque se seguia, ou da total ausência
de razão nessa cadeia em sonho de novelo.

Hoje, nesta noite tão quente rompendo-se
de junho, o teu cabelo claro mais escuro,
queria contar-te que a vida é também isso:
uma fila no espaço, uma fila no tempo
e que o teu tempo ao meu se seguirá.

Num estilo que gostava, esse de um homem
que um dia lembrou Goya numa carta a seus
filhos, queria dizer-te que a vida é também
isto: uma espingarda às vezes carregada
(como dizia uma mulher sozinha, mas grande
de jardim). Mostrar-te leite-creme, deixar-te
testamentos, falar-te de tigelas – é sempre
olhar-te amor. Mas é também desordenar-te à
vida, entrincheirar-te, e a mim, em fila descontínua
de mentiras, em carinho de verso.

E o que queria dizer-te é dos nexos da vida,
de quem a habita para além do ar.
E que o respeito inteiro e infinito
não precisa de vir depois do amor.
Nem antes. Que as filas só são úteis
como formas de olhar, maneiras de ordenar
o nosso espanto, mas que é possível pontos
paralelos, espelhos e não janelas.

E que tudo está bem e é bom: fila ou
novelo, duas cabeças tais num corpo só,
ou um dragão sem fogo, ou unicórnio
ameaçando chamas muito vivas.
Como o cabelo claro que tinhas nessa altura
se transformou castanho, ainda claro,
e a metáfora feita pela infância
se revelou tão boa no poema. Se revela
tão útil para falar da vida, essa que,
sem tigelas, intactas ou partidas, continua
a ser boa, mesmo que em dissonância de novelo.

Não sei que te dirão num futuro mais perto,
se quem assim habita os espaços das vidas
tem olhos de gigante ou chifres monstruosos.
Porque te amo, queria-te um antídoto
igual a elixir, que te fizesse grande
de repente, voando, como fada, sobre a fila.
Mas por te amar, não posso fazer isso,
e nesta noite quente a rasgar junho,
quero dizer-te da fila e do novelo
e das formas de amar todas diversas,
mas feitas de pequenos sons de espanto,
se o justo e o humano aí se abraçam.

A vida, minha filha, pode ser
de metáfora outra: uma língua de fogo;
uma camisa branca da cor do pesadelo.
Mas também esse bolbo que me deste,
e que agora floriu, passado um ano.
Porque houve terra, alguma água leve,
e uma varanda a libertar-lhe os passos.

AMARAL, Ana Luísa, Imagias 

Ana Luísa Amaral (Lisboa, 1956)
Poetisa, escritora de literatura infantil, tradutora, professora universitária, licenciada em Germânicas, doutorada em Literatura Norte-Americana.

Alves Redol – A Escassez do Pão
Setembro 28, 2015

Alves Redol

“Quando o pão escasseia não há mal que não chegue, nem tortura que não apoquente.”
REDOL, Alves, Fanga (1943)

 

Alves Redol (Vila Franca de Xira, 29/12/1911 – Lisboa, 29/11/1969)
Romancista, dramaturgo, cronista, contista, introdutor do neo-realismo em Portugal com a obra Gaibéus (1939).

Américo Durão – A Água
Setembro 28, 2015

Américo Durão

Eu fui a sombra a converter-se em luz,
E fui a névoa a transformar-se em cor,
E fui o pranto a consagrar a dor,
Quando brilhei nos olhos de Jesus.

E fui a nuvem a buscar a altura,
E recebi do Sol a cor da chama..
Caí na Terra e converti-me em lama,
Para a tornar melhor e menos dura!

Fui pranto de perdão e de humildade…
E foi nuns olhos cheios de saudade
Que mais linda me fiz e desejei!…

E fui rio… e fui mar… e onda… e espuma…
E, em sonho de Poetas, fui a bruma…
O vago… o indeciso… o que não sei…

Américo Durão (Coruche, 28/10/1893 – Lisboa, 7/3/1969)
Poeta e dramaturgo, licenciado em Direito.

Almeida Faria – “A Minha Literatura”
Setembro 28, 2015

Almeida Faria

“(…) eu não lia muito porque a terra onde eu vivia era provinciana. Havia apenas uma biblioteca pública, não tinha biblioteca no colégio que eu frequentava e em casa também não. Portanto, eu não tinha grandes leituras.

Li, por volta dos dezesseis ou dezessete anos, o Fernando Pessoa, sobretudo o heterônimo Álvaro de Campos, que é o mais radical e aparentemente antiliterário. Aquela liberdade da poesia dele teve uma influência muito grande em mim e tentei fazer isso na minha literatura.

Minha literatura era uma espécie de manifesto libertário contra todas as opressões, regras, normas sociais e contra a falta de expressão.(…)”

Entrevista: Equipa Livre Opinião, 04/08/2014

Almeida Faria (Montemor-o-Novo, 6/5/1943)
Romancista, contista, ensaísta, colaborador em diversas publicações, licenciado em Filosofia.

Almeida Garrett – As Minhas Asas
Setembro 28, 2015

Almeida Garrett

Eu tinha umas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Que, em me eu cansando da terra,
Batia-as, voava ao céu.

– Eram brancas, brancas, brancas,
Como as do anjo que mas deu:
Eu inocente como elas,
Por isso voava ao céu.
Veio a cobiça da terra,
Vinha para me tentar;
Por seus montes de tesouros
Minhas asas não quis dar.
– Veio a ambição, co’as grandezas,
Vinham para mas cortar,
Davam-me poder e glória;
Por nenhum preço as quis dar.

Porque as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Em me eu cansando da terra,
Batia-as, voava ao céu.

Mas uma noite sem lua
Que eu contemplava as estrelas,
E já suspenso da terra,
Ia voar para elas,

– Deixei descair os olhos
Do céu alto e das estrelas …
Vi entre a névoa da terra,
Outra luz rnais bela que elas.

E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo. me deu,
Para a terra me pesavam,
Já não se erguiam ao céu.
Cegou-me essa luz funesta
De enfeitiçados amores …
Fatal amor, negra hora
Foi aquela hora de dores!

– Tudo perdi nessa hora
Que provei nos seus amores
O doce fel do deleite,
O acre prazer das dores.

E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Pena a pena me caíram …
Nunca mais voei ao céu.

Almeida Garrett (Porto, 4/2/179 Lisboa, 9/12/1854)
Romancista, poeta, dramaturgo, jornalista, orador, político, deputado, implantou o teatro em Portugal, fundou o Teatro Nacional e o Conservatório.

Grupos Naturais – Apanhar Bonés; Apanhar Chapada; Apanhar Moscas; Apanhar Pifão; Apertar o Cinto; Apertar o Coração; Arrastar na Lama (ou no lodo)
Setembro 28, 2015

As Vogais

Grupos Naturais – combinação de grupos a dois, associados naturalmente, frequentemente verbo-substantivo, constituindo expressões vulgarizadas pelo uso.

Apresentação de alguns exemplos:

 

Apanhar bonés – não fazer negócio.

Ex.: Hoje estive toda a manhã a apanhar bonés.

 

Apanhar chapada – levar uma bofetada, um estalo.

Ex.: A Inês apanhou chapada do irmão.

 

Apanhar moscas – sem fazer nada.

Ex.: Hoje ela levou a manhã a apanhar moscas.

 

Apanhar pifão – embriagar-se.

Ex.: Ontem o teu vizinho apanhou pifão.

 

Apertar o cinto – sofrer privações; fazer sacrifícios.

Ex.: O momento é de crise, por isso temos de apertar o cinto.

 

Apertar o coração – sentir tristeza.

Ex.: Quando o vejo triste, sinto apertar o coração.

 

Arrastar na lama (ou no lodo)– falar muito mal

Ex.: Como se zangaram, ele agora arrasta-a na lama.

(continua)