Tomás Ribeiro Colaço – Carta de Fernando Pessoa

Tomás Ribeiro Colaço

“Caixa Postal 147
Lisboa, 10 de Outubro de 1935

Meu caro Tomás Colaço:

De há muito tempo que estou para lhe escrever, e de há muito antes do «estar para» lhe devia ter escrito. Mas o já longo corte de relações entre mim e a mais elementar decência social produz destes resultados; do que lhe diz respeito lhe venho pedir que me desculpe.

Sobretudo lhe deveria já ter escrito para lhe agradecer a amabilidade do contínuo envio do Fradique, e para lhe pedir que o não continue a fazer. Não assino, pois nada assino, mas compro avulso. Se compro avulso, e sempre, O Diabo e Bandarra porque não hei-de fazer o mesmo com Fradique? Entendido? E outra vez muito obrigado.

Já agora desejo felicitá-lo por o que tem conseguido fazer do Fradique, que é, verdadeiramente, o único semanário literário — ou, até, a única publicação jornalística literária, que temos, fazendo porém uma excepção vaga mas, a meu ver, justa em favor do Suplemento Literário do Diário de Lisboa. Não que esse iguale, ou sequer se aproxime, do Fradique, mas sempre é literário. O resto…

Uma coisa que me tem preocupado um pouco, com respeito a V., é se estaria melindrado por eu nunca mais ter aparecido com colaboração, que, aliás, lhe prometera. Deverá V. porém ter reparado que não tenho colaborado em parte alguma. Salvo erro, desde 4 de Fevereiro — data em que publiquei no Diário de Lisboa o artigo Associações Secretas — não publiquei senão um breve poema na revista Momento, revista de rapazes, revista simpática, mas, parece-me, muito mais secreta que as «associações» acima citadas.

O facto é que, desde o ano passado, tenho estado sob o influxo de estados nervosos de diversas formas e feitios, que por um longo período me arrancaram da vontade até o desejo de não fazer nada. Tenho-me sentido uma espécie de filme psíquico de um manual de psiquiatria secção psiconevroses. Só agora começo a emergir lentamente para qualquer coisa vagamente parecida com actividade. Tanto assim que finalmente lhe estou escrevendo.

Estou agora elaborando e completando várias coisas que, durante o período a que me referi, deixei esboçadas firmemente e incompletei com vigor. Logo que haja qualquer coisa pronta, que me pareça que lhe possa convir para o Fradique, envio-lha ou levo-lha. Isto se V. quiser, bem entendido. E pode contar que será para o Fradique o que primeiro tiver pronto, e, naturalmente, convenha ao seu semanário.
Reparo agora que estou falando um pouco no estilo de quem vai fornecer Hamlets em pílulas ou Paraísos Perdidos em comprimidos; e não quero que V. vá descobrir até nestas linhas maquinadas de uma carta particular uma daquelas minhas afirmações de valia própria que V. descobriu que eram um dos meus característicos distintivos. Onde diabo foi V. buscar isso?

Já que falei nisto, quero agradecer-lhe a sua crítica à Mensagem. Nela foi V., a meu ver, bom crítico, porque de facto criticou, justificando o que dizia; foi amável, porque não carregou a nota, fácil de carregar adentro do seu critério; e foi, até, bom jornalista, porque exprimiu o que muita gente sente, senão a meu respeito, pelo menos a respeito da Mensagem , ou de como eu sou na Mensagem.

Uma coisa: porque se zangou V. tanto com o meu artigo em defesa da Maçonaria? Li o seu artigo, ou carta aberta, duas — não, três — vezes, e não consegui nem perceber o que V. estava dizendo (coisa rara de suceder com o que V. escreve), nem porque é que V. escrevia essas coisas que eu, pelo menos, não percebi.
Bem, não lhe levo isso a mal. E, se o levasse, ou, antes, tivesse levado, teria ficado em pleno estado de vingança com o admirável artigo Não! de Rolão Preto. Aliás, nessa história da Maçonaria e anti-Maçonaria, foi o Fradique que marcou, e o único que marcou. Publicou os dois únicos artigos com jeito sobre o assunto — ambos, embora diversamente, concordando comigo. Um é esse do Rolão, que já citei; outro é o do Manuel Maia Pinto (O «T.D.»), que, embora conheça o assunto às manchas e irregularmente, ao menos alguma coisa conhece dele. Nova e especial razão para eu o felicitar.
Abraça-o o seu amigo e admirador verdadeiro, ”

 

Tomás Ribeiro Colaço (Lisboa, 1899 – Rio de Janeior, 1965)
Poeta, dramaturgo, cronista radiofónico,  fundador e dirigente do semanário Fradique, advogado.
Filho de Branca de Gonta Colaço e neto de Tomás Ribeiro.

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