António Patrício – Em Prínkipo

António Patrício

O Outono de cristal enredomava a ilha.
Era uma elísia luz que os ciprestes fiavam
em rocas verde-bronze: os pinhais plumulavam.
Ouvimos não sei quê: e era – maravilha! –
era uma migração de cegonhas que vinha
em triângulos, gris, sobre a calma marinha,
num ritmo musical, musicalmente absorto,
como seguindo no ar o fantasma dum morto.
Suspendeu-nos os dois o lindo acorde de asas
que vinha do Mar Negro, entre jardins e casas.
E como a migração, rósea e gris despedida,
também em ti disseste o adágio da partida,
tu colaste-te a mim: deste-me o teu terror:
era a Morte a passar por sobre o nosso amor.
Muito tempo passou. – Onde estás tu agora? –

Queria saber se em ti a magia dessa hora,
aquela migração de cegonhas que vinha,
rósea e gris, a vibrar, na atmosfera marinha,
voa e revoa ainda, irreal maravilha,
no Outono de cristal que enredomava a ilha.

António Patrício (Porto, 7/3/1878 – Macau, 4/6/1930)
Poeta, dramaturgo, contista, colaborador em revistas, médico e diplomata.

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