LÍdia Jorge – Um Dia Claro

Lídia Jorge

“Algarve, Verão, anos 70

Um Dia Claro

É costume dizer-se que as belas férias não existem, recordam-se. Grande falsidade. As minhas aqui estão onde devem ser – desbotadas, magníficas, prontas para entrarem na eternidade, agarradas ao final dos anos setenta.

O local já não sei precisar. Tanto poderá ter acontecido na Praia de Santa Eulália, como na Balaia, Olhos-de-Água ou Falésia, de tal forma os espaços se transformaram. E os hábitos também. O mundo de então era mesmo diferente.

Ou muito me engano ou nessa altura as férias ainda se passavam todas elas no mesmo lugar. A ideia de nos metermos em aviões que voassem para destinos exóticos ainda não se tinha tornado uma meta na vida do cidadão comum. Os hotéis ainda eram escassos e o conceito de resort estava longe de ser uma peça do nosso vocabulário.

E a prova de que o ensaio da liberdade individual continuava a ser um espaço da tribo é que pela manhã abancávamos na praia como quem vinha invadir um território selvagem, e como tal nos comportávamos. No entanto, o que mais me toca, a esta distância cuja estranheza por vezes incita ao humor, era a largueza que se dava às crianças. (…)”

(continua)

In ÚNICA, Expresso, 21 Julho 2007

Lídia Jorge (Boliqueime, Algarve, 18 de Junho de 1946)
Romancista, autora de antologias poéticas e de uma peça de teatro, colaboradora de diversas revistas e jornais, professora, licenciada em Filologia Românica.

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