Archive for Dezembro, 2015

Prefixos de Origem Latina – ne-; ob-,o-; pene-, pen-; per-; pos-, pós- 
Dezembro 30, 2015

As Vogais

A língua portuguesa é constituída por numerosos elementos de origem latina e grega na formação das suas palavras. O seu conhecimento facilita-nos a compreensão do seu significado.

Eis alguns exemplos:

1. Prefixos de Origem Latina

Prefixo                                         Significado

ne-                                                   ideia contrária                    

Ex.: Nefasto

 

ob-, o-                                            oposição

Ex.:   Obstar; opor                                                                                                                                     

  

pene-, pen-                                  aproximação,  ideia de quase

Ex.: Penúltimo

                                                           

 per-                                                movimento, através                     

Ex.: Perfurar

           

pos-, pós-                                      movimento para a frente                         

Ex.: Posfácio; pósescrito

(continua)

 

Anúncios

Dora Ferreira da Silva – Agora
Dezembro 30, 2015

Dora Ferreira da Silva

 

Agora que no vagar dos pensamentos
chamo-te – pai – da estação da infância
como se pudesses voltar no rápido só para me embalar,
fecho os olhos dentro de tuas pálpebras.
És minha invenção de amor. Olhos melancólicos
os teus. Eu contigo em degredo.

Difícil tocar a face desse segredo cada vez mais longe
e partir e também ficar, embora encontrada a chave
[da porta mais secreta.
Se eu pudesse dizer: seja a paisagem de seda azul
e o último sol fortíssimo do ocaso
– eu liberta enfim de tuas pupilas.
Um rio passaria desenhado pela mão mais fina. Passa uma
[pluma apenas uma
no rio acordado.

Dora Ferreira da Silva (Conchas, 1/7/1919 -S. Paulo, 6/4/2006)
Poetisa e tradutora.

Dinis Machado – A Linguagem
Dezembro 30, 2015

Dinis Machado

“A linguagem é apenas uma parte da realidade que conseguimos tirar ao silêncio para nos abrirmos melhor.”

In Jornal de Notícias, 09/11/ 2003

Dinis Machado (Lisboa, 21/3/1930 – Lisboa, 3/10/2008)
Jornalista, poeta, ficcionista, crítico cinematográfico.

Dias de Melo – Baleeiros
Dezembro 30, 2015

Dias de Melo

Todos somos baleeiros:
Tanto os que vão balear
como os que ficam, em terra,
de olhos pregados no Mar.

E os Baleeiros lá vão…
–Botes de velas erguidas,
aves de sonho e aventura,
por sobre as ondas perdidas.

Lá vão!…lá vão!…no horizonte!…
Ai! quantos! quantos largaram
do porto…Quantos! E nunca
mais…ai! nunca mais!…–voltaram!

Dias de Melo (Calheta do Nesquim, Ilha do Pico, 8/4/1925 – Ponta Delgada, 14/9/2008)
Poeta, conhecido pelo escritor das baleias e dos baleeiros, colaborador do Diário de Notícias e o Diário de Lisboa, professor.

Manuel Alegre – Tanto Mar
Dezembro 30, 2015

Manuel Alegre

A Cristóvão de Aguiar, junto
do qual este poema começou a nascer.

Atlântico até onde chega o olhar.
E o resto é lava
e flores.
Não há palavra
com tanto mar
como a palavra Açores.

Manuel Alegre
Pico 27.07.2006

Manuel Alegre (Águeda, 12/5/1936)
Poeta, prosador e político português.

David Pinto Correia – Dedicatória
Dezembro 30, 2015

David Pinto Correia

“Dedico este meu trabalho aos amigos,

aos alunos, que, segundo me têm

confiado, não “sabem”, não “gostam” de escrever…,

e

ainda a quantos sempre me têm

afirmado sentir dificuldades de

expressão na língua materna.”

CORREIA, João David Pinto, Introdução às Técnicas de Comunicação e de Expressão

Acresce ainda que consta na Nota Prévia, que os apontamentos editados, escritos na década de 1965 a 1975,  não se destinavam a especialistas, mas “a pessoas de variada formação, interessadas em melhorar os conhecimentos de “o Português”, “aperfeiçoar a sua “competência” linguística para bem se exprimirem quer oralmente, quer por escrito. (…)

Lisboa, Outubro de 1977.”

David Pinto Correia (Funchal, 1939)
Professor catedrático na FLUL, doutorado em Literatura Portuguesa, autor de várias obras, dirigente de diversas publicações e colectâneas, detentor de cargos na cultura portuguesa – um professor para recordar pela vida fora.

Cristovão de Aguiar – As Memórias da Escola e do Liceu
Dezembro 30, 2015

Cristovão de Aguiar

“O que me marcou muito na vida foi a Escola Primária e o Liceu.

Nos meus livros, há professores que são recriados com o próprio nome e outros que apresentam nomes fictícios. O professor de Francês existiu e era, como eu digo num dos livros, tão mau professor como bom poeta. Miss Pamplinas não se chamava miss Pamplinas e havia, realmente, um professor que nos punha a fazer meditação transcendental no fim das aulas. Houve um ano em que um professor de Matemática deu Português.

No Liceu de Ponta Delgada era assim. O primeiro toque era para os alunos, o segundo para as meninas e o terceiro para o sumário. No final da aula, o primeiro toque era para o sumário e o segundo para sair. Não sei se isso era comum a todos liceus mas no Liceu de Ponta Delgada era assim.

Refiro (…) a memória de uma tradição da Primeira República segundo a qual não havia aulas à quinta-feira, julgo que em todos os graus de ensino… Faziam uma pausa, a meio da semana, talvez para dar mais energia aos alunos… Isto acontecia no tempo da minha mãe, na primeira República.

O Liceu de Ponta Delgada era misto, embora no meu 5º ano tivesse sido criado uma secção feminina. No 6º e 7º ano (actual décimo e décimo primeiro) era misto. Mas nós não estávamos habituados a ligar com as miúdas. Viamo-las à distância… Havia uma separação rígida.

Havia uma percentagem muito pequena de gente de fora da cidade a estudar. Estes, ou ficavam alojados na cidade ou iam na camioneta todos os dias. Eu fazia parte do grupo, desse pequeno número de alunos, fora da burguesia e da aristocracia de meia-tijela, que conseguiu ir para o Liceu. Éramos olhados com outros olhos. Tínhamos menos benesses, os professores tratavam-nos de outra maneira.

Na escola da palmatoada, os pais influenciavam mesmo sem lá estarem. Na Primária e mesmo no Liceu.. Os professores sabiam com quem estavam a falar. Até pelos nomes. Numa ilha é fácil saber quem pertence a uma família ilustre. A influência que os pais tinham na sociedade chegava à escola.

A canhotice, escrever com a esquerda, era considerada, há muitos anos, como sendo uma coisa do Diabo, um aleijão provocado pelo Diabo. E as pessoas que nasciam esquerdinas eram, muitas vezes, torturadas. Essa história da “Vindima de Fogo” não é totalmente verdadeira mas é da realidade.

No meu caso particular, escrevo muito sobre a escola e sobre o Liceu porque foram duas instituições que me marcaram muito. Eu tinha medo. A escola não era a alegria que é hoje. No meu tempo ia-se para a escola com medo. Esse medo marcou-me muito. Talvez por isso escreva tanto sobre a escola. A minha memória acompanha-me sempre. Quando falo, de memória, do meu Liceu, chego a pensar que não falo do passado. Há certas coisas que me aconteceram na escola que me acompanham pela vida fora, que são aguilhões. Ter memória é muito bom mas também pode ser muito mau. (…)”

Breves Excertos da entrevista conduzida por Luís Souta, in A Página da Educação

Cristovão de Aguiar (Pico da Pedra, Ilha de S. Miguel, 8/9/1940)
Romancista, poeta, contista e diarista, licenciado em Filologia Germânica.

David Mourão-Ferreira – Ladainha dos Póstumos Natais
Dezembro 30, 2015

David Mourão-Ferreira

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

MOURÃO-FERREIRA, David,  Cancioneiro de Natal

David Mourão-Ferreira (Lisboa, 24/2/1927 – 16/6/1996)
Poeta, novelista, romancista, ensaísta, colaborador de múltiplos jornais e revistas, co-fundador da revista Távola Redonda, professor, licenciado em Filologia Românica.

Cláudio Cordeiro – Sobram-me as Palavras
Dezembro 30, 2015

 

Sobram-me as palavras
que me restam num muro
de silêncio para dizer que te amo.

Eu sei que são pobres
as minhas palavras…
Mas em ti encontro a riqueza
que se produz nas altas linhas
das águias.

Adoro acordar de uma só vez
nos braços que me fazem
nascer a vida…

É de ti, meu amor,
à vista despida de ouvido
que nascem as flores do céu.

In Rio de Doze Águas

 

Cláudio Cordeiro (Coimbra), Poeta

 

Cesário Verde – Num Bairro Moderno
Dezembro 30, 2015

Cesário Verde

Dez horas da manhã; os transparentes
Matizam uma casa apalaçada;
Pelos jardins estancam-se as nascentes,
E fere a vista, com brancuras quentes,
A larga rua macadamizada.

Rez-de-chaussée repousam sossegados,
Abriram-se, nalguns, as persianas,
E dum ou doutro, em quartos estucados,
Ou entre a rama do papéis pintados,
Reluzem, num almoço, as porcelanas.

Como é saudável ter o seu conchego,
E a sua vida fácil! Eu descia,
Sem muita pressa, para o meu emprego,
Aonde agora quase sempre chego
Com as tonturas duma apoplexia.

E rota, pequenina, azafamada,
Notei de costas uma rapariga,
Que no xadrez marmóreo duma escada,
Como um retalho da horta aglomerada
Pousara, ajoelhando, a sua giga.

E eu, apesar do sol, examinei-a.
Pôs-se de pé, ressoam-lhe os tamancos;
E abre-se-lhe o algodão azul da meia,
Se ela se curva, esguelhada, feia,
E pendurando os seus bracinhos brancos.

Do patamar responde-lhe um criado:
“Se te convém, despacha; não converses.
Eu não dou mais.” È muito descansado,
Atira um cobre lívido, oxidado,
Que vem bater nas faces duns alperces.

Subitamente – que visão de artista! –
Se eu transformasse os simples vegetais,
À luz do Sol, o intenso colorista,
Num ser humano que se mova e exista
Cheio de belas proporções carnais?!

Bóiam aromas, fumos de cozinha;
Com o cabaz às costas, e vergando,
Sobem padeiros, claros de farinha;
E às portas, uma ou outra campainha
Toca, frenética, de vez em quando.

E eu recompunha, por anatomia,
Um novo corpo orgânico, ao bocados.
Achava os tons e as formas. Descobria
Uma cabeça numa melancia,
E nuns repolhos seios injetados.

As azeitonas, que nos dão o azeite,
Negras e unidas, entre verdes folhos,
São tranças dum cabelo que se ajeite;
E os nabos – ossos nus, da cor do leite,
E os cachos de uvas – os rosários de olhos.

Há colos, ombros, bocas, um semblante
Nas posições de certos frutos. E entre
As hortaliças, túmido, fragrante,
Como alguém que tudo aquilo jante,
Surge um melão, que lembrou um ventre.

E, como um feto, enfim, que se dilate,
Vi nos legumes carnes tentadoras,
Sangue na ginja vívida, escarlate,
Bons corações pulsando no tomate
E dedos hirtos, rubros, nas cenouras.

O Sol dourava o céu. E a regateira,
Como vendera a sua fresca alface
E dera o ramo de hortelã que cheira,
Voltando-se, gritou-me, prazenteira:
“Não passa mais ninguém!… Se me ajudasse?!…”

Eu acerquei-me dela, sem desprezo;
E, pelas duas asas a quebrar,
Nós levantamos todo aquele peso
Que ao chão de pedra resistia preso,
Com um enorme esforço muscular.

“Muito obrigada! Deus lhe dê saúde!”
E recebi, naquela despedida,
As forças, a alegria, a plenitude,
Que brotam dum excesso de virtude
Ou duma digestão desconhecida.

E enquanto sigo para o lado oposto,
E ao longe rodam umas carruagens,
A pobre, afasta-se, ao calor de agosto,
Descolorida nas maçãs do rosto,
E sem quadris na saia de ramagens.

Um pequerrucho rega a trepadeira
Duma janela azul; e, com o ralo
Do regador, parece que joeira
Ou que borrifa estrelas; e a poeira
Que eleva nuvens alvas a incensá-lo.

Chegam do gigo emanações sadias,
Ouço um canário – que infantil chilrada!
Lidam ménages entre as gelosias,
E o sol estende, pelas frontarias,
Seus raios de laranja destilada.

E pitoresca e audaz, na sua chita,
O peito erguido, os pulsos nas ilhargas,
Duma desgraça alegre que me incita,
Ela apregoa, magra, enfezadita,
As suas couves repolhudas, largas.

E, como as grossas pernas dum gigante,
Sem tronco, mas atléticas, inteiras,
Carregam sobre a pobre caminhante,
Sobre a verdura rústica, abundante,
Duas frugais abóboras carneiras.

 

Lisboa, Verão de 1877

VERDE, Cesário, O Livro de Cesário Verde

Cesário Verde (Lisboa, 25/2/1855 – Lumiar, 19/7/1886)
Poeta, estudante do curso Superior de Letras.