António Feliciano de Castilho – A Festa das Sementeiras 

António Felicinao de Castilho

Nos Anais, onde as festas vêm marcadas,
festas em vão busquei das sementeiras.
Vendo-me a folhear, cuidoso, assíduo,
e entendendo-me o empenho, – “Em balde as buscas
rindo a Musa me diz; – “festas mudáveis
“das fixas no registro achar querias?
“Têm marcada estação, e o dia incerto;
“celebram-se no prazo em que estão prenhes
“de sementes os chãos. Gozai do ócio
“à farta manjedoira, ó bois coroados;
“lá virá logo a activa Primavera,
“à cerviz repoisada impondo jugo,
“com a renascente lida afadigar-vos.
“No abrigo do casal durma por ora
“a cansada charrua; a terra fria
“não deseja, não sofre, o ser rasgada.”

Agora, que jaz finda a sementeira,
lavradores, dai folga ao solo, aos braços;
lustrem colonos sua aldeia em festa,
dêem a seus fogos a anual fogaça.
Télus e Ceres, madres das searas
já com seus mesmos grãos se propiciem,
já com as entranhas da suína fêmea.
De entre ambas nasce o grão que nos sustenta:
Ceres no-lo produz; mantém-no a Terra.

Ó consócias em dádiva tão rica,
deusas, por quem a rude antiguidade
se abrandou, se poliu, deixada a glande
por mais nobre manjar, dai aos colonos,
em prémio a seu trabalho e a seus desvelos,
colheita sem medida, e que os sacie.

Dai aumento contínuo aos germes tenros,
e que a neve à nascença os não destrua.
Em quanto disparzirmos as sementes,
alimpai-nos o céu com ventos brandos;
mal que enterrada for, mandai-lhe as chuvas;
e, pois são glória vossa as pingues messes,
que em vagas de oiro, ao longo dessas veigas,
rumorejam fartura, eia, salve-as
do ávido bico das aladas hostes!
Por ora, que inda a terra o grão recata,
vós, formigas povoai-o; usura grande
havereis dele, se aguardais a ceifa.
Livre de torpe alforra a messe vingue
e cor de palma saúde o Céu lhe influa;
que nem definhe pálida, nem perca
por excesso de viço e nímia pompa.
Joio, à vista nocivo, os chãos não brotem,
nem torpe aveia as sementeiras mescle.
Só se vejam medrar profusamente
as cevadas, o trigo, e a rija escándia,
a escándia, a fogos dois predestinada.

Lavradores, por vós tais são meus rogos.
Com os rogos meus os vossos se misturem,
por que uma e outra deusa os ratifiquem.

Ferina longo tempo a humanidade
só nutriu belicosos pensamentos.
Mais apreço que a relha a espada tinha,
e em foros de nobreza era anteposto
o corcel que peleja, ao boi que lavra.
Não trabalhava a enxada; ia-se em lanças
dos alviões o ferro; o ancinho em elmos.
Graças deusas, a vós, a vós, ó Césares
o Génio marcial agrilhoado
já sob os pés de Roma em vão se extorce.
O toiro aceite o jugo; o solo, os germes;
Ceres, filha da paz, com a paz triunfe.

António Feliciano de Castilho (Lisboa, 28/1/1800 – Lisboa, 18/6/1875)
Escritor romântico, pedagogo.

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