Antunes da Silva – Passei o Tejo à Noitinha

Antunes da Silva

Passei o Tejo à noitinha

e vi o Tejo calado,

trago um barco de papel

p’ró deitar no mar salgado.

Quando o barco se romper

deito no Tejo uma estrela

e a estrela branca lá fica

e nunca mais torno a vê-la…

Dizem os homens e mulheres

que nas águas deste Tejo

barra fora lá seguiram

camponeses do Alentejo

que nesse tempo sentiram

o que era a triste vida

feita de nada de nada

e por demais permitida…

 

Falam os homens mais velhos

que neste rio -ó desgraça! –

partiu barco e partiu povo

rumo a Timor e Mombaça

passando pelo mar alto

p’ró Bié e Tarrafal,

gente de boa presença

que nunca a ninguém fez mal!

 

Diziam os homens mais velhos

com espanto e em segredo,

que nas águas do rio Tejo

partiu gente p’ro degredo:

Timor, Bié, Tarrafal,

no tempo do salazar

as barcas seguiam cheias

a navegar, a navegar,

com homens em cativeiro,

Timor, Bié, Tarrafal,

e regressavam com ferro,

coco, amendoim e sisal…

 

Passo o Tejo à noitinha

e já ninguém me faz mal!

 

Antunes da Silva (Évora, 31/7/1921 – 1997)
Poeta, contista, cronista, participou em várias publicações, escreveu dois diários.

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