Castro Alves – A Canção do Africano

Castro Alves

Lá na úmida senzala,

Sentado na estreita sala,

Junto ao braseiro, no chão,

Entoa o escravo o seu canto,

E ao cantar correm-lhe em pranto

Saudades do seu torrão …

 

De um lado, uma negra escrava

Os olhos no filho crava,

Que tem no colo a embalar…

E à meia voz lá responde

Ao canto, e o filhinho esconde,

Talvez pra não o escutar!

 

“Minha terra é lá bem longe,

Das bandas de onde o sol vem;

Esta terra é mais bonita,

Mas à outra eu quero bem!

 

“0 sol faz lá tudo em fogo,

Faz em brasa toda a areia;

Ninguém sabe como é belo

Ver de tarde a papa-ceia!

 

“Aquelas terras tão grandes,

Tão compridas como o mar,

Com suas poucas palmeiras

Dão vontade de pensar …

 

“Lá todos vivem felizes,

Todos dançam no terreiro;

A gente lá não se vende

Como aqui, só por dinheiro”.

 

O escravo calou a fala,

Porque na úmida sala

O fogo estava a apagar;

E a escrava acabou seu canto,

Pra não acordar com o pranto

O seu filhinho a sonhar!

 

Castro Alves (Curralinho, 14/3/1847 – Salvador, 6/7/1871)
Poeta, conhecido pelo “Poeta dos Escravos”.

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