Dora Ferreira da Silva – Agora

Dora Ferreira da Silva

 

Agora que no vagar dos pensamentos
chamo-te – pai – da estação da infância
como se pudesses voltar no rápido só para me embalar,
fecho os olhos dentro de tuas pálpebras.
És minha invenção de amor. Olhos melancólicos
os teus. Eu contigo em degredo.

Difícil tocar a face desse segredo cada vez mais longe
e partir e também ficar, embora encontrada a chave
[da porta mais secreta.
Se eu pudesse dizer: seja a paisagem de seda azul
e o último sol fortíssimo do ocaso
– eu liberta enfim de tuas pupilas.
Um rio passaria desenhado pela mão mais fina. Passa uma
[pluma apenas uma
no rio acordado.

Dora Ferreira da Silva (Conchas, 1/7/1919 -S. Paulo, 6/4/2006)
Poetisa e tradutora.

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