Archive for Janeiro, 2016

Vergílio Ferreira – A Glória
Janeiro 28, 2016

Vergílio Ferreira

“Não corras atrás da glória, porque só ela é que pode correr atrás de ti.”

FERREIRA, Vergílio, pensar

Vergílio Ferreira (Melo, Gouveia, 28/1/1916 – Lisboa, 1/3/1996)
Romancista, contista, ensaísta, autor de diários, galardoado com o Prémio Camões em 1992, professor, licenciado em Filologia Clássica.

Natália Correia – A Rosa do 25 de Abril de 1974
Janeiro 28, 2016

Natália Correia

“O alvoroço redobra-me a ansiedade. A iminência de ver florir por fora a Primavera que sempre trouxe dentro do meu amor à liberdade morderem coração como uma alegria insuportável.”

(Início do diário, escrito às seis da manhã de 25 de Abril de 1974)

CORREIA, Natália,  Não percas a rosa

Natália Correia (Fajã de Baixo, S. Miguel, 13/9/1923 – Lisboa, 16/3/1993)
Poetisa, romancista, ensaísta, jornalista, dramaturga.

Ramalho Ortigão – A Arte
Janeiro 28, 2016

Ramalho Ortigão

“É a arte que desmaterializa, enobrece e sublima a vida, pelo desinteresse estético e pela abnegação emotiva (…) é arte que torna o cansaço leve, o trabalho ridente e a virtude amável.”

ORTIGÃO, Ramalho, A Arte Portuguesa

Ramalho Ortigão (Porto, 24/10/1836 – Lisboa, 27/9/1915)
Escritor, professor de Francês – de Eça e Ricardo Jorge -,jornalista e bibliotecário.

 

Gonçalo Naves – Bem-vindos a Esta Noite Branca, Prefácio
Janeiro 27, 2016

“Seremos tão espertos, por certo será inteligência o nosso nome do meio, e quando falo em nosso falo em todos nós, pessoas que por esse nome se têm, independentemente de raças e culturas, preferências e culturas. Está-nos a Lua a um passo de distância, já isso foi várias vezes provado e tantas outras comprovado, todos os mares e bosques de cor sabemos, ponto por ponto, pormenor ao pormenor. Nada nos escapa. das ciências e das literaturas donos somos, igual se passará com o teatro e cinema e desportos de vária ordem, sabemos todas as coisas que devemos saber, todas saque por ninguém em tempo algum serão sabidos. Pena continuarmos tão ignorantes.”

NAVES, Gonçalo, Bem-vindos a Esta Noite Branca

Gonçalo Naves, dezoito anos, estudante universitário do primero ano da licenciatura em Direito na FDUL, “(…) um espírito inventivo superior, aliado a uma fina atenção ao que o rodeia (…) espantosa torrente criativa (…)” na voz de Joaquim Gonçalves, o sábio livreiro.

Prefixos de Origem Latina – Sobre-; Super-; Supra-; Sota-; Soto-; Sub-; Su-; Sob-; So-; Sus-
Janeiro 27, 2016

As Vogais

A língua portuguesa é constituída por numerosos elementos de origem latina e grega na formação das suas palavras. O seu conhecimento facilita-nos a compreensão do seu significado.

Eis alguns exemplos:

1. Prefixos de Origem Latina

Prefixo                                                               Significado

 

sobre-                                                                 posição superior

Ex.: Sobrenatural

 

super-                                                              por cima                             

Ex.: Supersónico

 

supra-                                                              excesso                              

Ex.: Supracitado

 

sota-, soto-                                                    posição inferior                 

Ex.: Sotavento, sotomestre

 

 sub-, su-,                                                       posição inferior                 

Ex.: Subchefe, supor

           

sob-, so-                                                           movimento de baixo

Ex.: Sobestar, soerguer

 

sus-                                                                   baixo para  cima

 Ex.: Suspender

(continua)

José Agostinho Baptista – Tão Pouca É a Vida
Janeiro 27, 2016

José Agostinho Baptista

Tão pouca é a vida,
o deslumbrado delírio da vida.

No tear se tecem os fios, o desenho das rendas,a
renda dos dias.
Ignoro quantos,
quantas tardes no fluir da paixão, quanto ouro e
azul na idade das mãos,
que idade no tear das mães.

Foram belas também no sonho antigo,
passearam entre os lírios,
desatavam a cabeleira e os vestidos,
iam à beira mar.

José Agostinho Baptista (Funchal, 15/8/1948)
Poeta, tradutor, colaborador em diversas publicações.

Jorge Reis-Sá – Pátio
Janeiro 27, 2016

Jorge Reis-Sá

Estive para ser entregue a Deus desde pequeno.
Não em sacrifício, como o frango que a minha avó
ainda mata nas traseiras da casa, golpe certeiro
no pescoço, o sangue a escorrer para a bacia
para que depois se junte ao arroz solto, à noite.
Estive para ser entregue a Deus com a batina
imaculada de um padre, entregue a Nosso Senhor
por oração e valência espiritual, há-de ser este
o menino, Manel, dizia a minha avó a meu pai,

cheia de esperança. Estive por ela, pelo meu pai,
que chegou a usar batina no seminário, e por mim,
tal o encanto das coisas sagradas. A minha avó

no pátio a olhar para a entrada da casa dizia, rapaz,
vamos à missa das dez e meia como se ao céu, e eu
aprendiz de feiticeiro a ajudar à missa como gente
grande, juntando as migalhas das hóstias com Deus

Nosso Senhor ao lado. Estive para ser entregue a Deus
e sentia ser esse o meu destino. Ainda hoje, quando
no fim do jantar limpo a banca – a louça na máquina,
a hóstia celebrada no pão nosso de cada dia -, dobro
silencioso o pano da cozinha como um paramento.

Recito: graças e louvores se dêem a todo o momento.
E ouço: ao Santíssimo e Diviníssimo Sacramento.

Jorge Reis-Sá (Vila Nova de Famalicão, 1977)
Poeta, romancista, contista e autor de antologias.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa – Jorge Macedo- Aquela Negra
Janeiro 27, 2016

Jorge Macedo

de enxada em punho,
lutando pela minha fome;
aquela negra que jorra suores na minha sede
e que vai de lenha na cabeça
porque o frio me consome;
aquela negra
pobre, sem nada,
que vende os panos para me vestir;
que chora nas ruas o meu nome;
aquela negra é minha mãe.

 

Jorge Macedo (Malanje, Angola, 1941)

Usou o pseudónimo de Mário Samba.

Poeta, contista, ensaísta, músico e compositor

Jorge Listopad – A Verdadeira Autobiografia
Janeiro 27, 2016

Jorge Listopad

“Não tenho verdadeira autobiografia para além daquela parsemeada pelo que escrevo, enceno e até ensino.”

In JL  

Jorge Listopad (Praga, 26/11/1921, naturalizado português na década de 50)
Poeta, crítico, encenador teatral, realizador, profesor universitário, pedadgogo.

Jorge Gomes Miranda – Elogio da Lembrança
Janeiro 27, 2016

Jorge Gomes Miranda

Quando os desesperos nocturnos
pouco a pouco se amontoam em pânicos matinais
lembra.
O tempo em que, depois das aulas,
ias à janela e batias o apagador…
ficava sempre a marca de giz
na parede escura.

Quando aos fins de semana vais de carro ao campo,
a camisa imaculada, o olhar fatigado de vigiar as crianças,
lembra.
As longas caminhadas pelo monte,
o último encontro de futebol, findo o secundário,
a roupa amarrotada debaixo de uma pedra.

Quando já atravessas para o outro lado da rua
para não teres que falar com ninguém,
com pressa de chegar à casa que compraste
(estás a pagá-la todos os meses e um dia, dizem, será tua)
lembra.
O tempo em que ao cruzares com um polícia
dizias: «bom dia, minha senhora».

Lembra o rosto dos ausentes.
E essa palavra lançada ao rio pelo amigo.

Não olhes com sobranceria
o tempo em que à janela procuravas
responder e nunca o conseguias, à pergunta: «o que há entre
a escuridão lá fora e a minha alma aqui?»
Lembra.

Jorge Gomes Miranda (Porto, 1965)
Poeta, critico literário, professor, licenciado em Filosofia.