Eduardo Portella – O Ensaio

Eduardo Portella

“O ensaio foi sempre um discurso diferente, que se atira ou se precipita, sem o menor receio, sobre rupturas e interstícios do sistema.. o ensaio é ele mesmo uma fronteira, e se sente muito a gosto nos desempenhos interdisciplinares. […] De tal modo que, cercado e quase subjugado pela pressão formalista e normativa, exacerbada sob a égide de metodologias mais ou menos rígidas, mesmo aí, ele se reafirma o seu traço fronteiriço e expõe seu rosto crispado. A sua imprevisibilidade decorre desse dinamismo congênito. A vivacidade do imprevisível só é proporcional à lassidão do ociosamente previsto. O ensaio se fortalece na interlocução explícita ou implícita.

O ensaio convive com o fracasso, sem deixar transparecer o mínimo temor e a mínima resignação. Nesse estranho sentido o ensaio é talvez uma opção revolucionária, mas que conseguiu se desfazer do terror. Já conseguira desfazer-se do conformismo burocrático, esse vírus incurável dos gêneros literários. Pedir ao ensaio que seja sistêmico corresponde a pedir-lhe que deixe de ser ensaio. É antes de mais nada ignorar o seu vinco, a sua fisionomia múltipla e inconfundível; conturbada, por vezes, na voragem da demonstração e da desconstrução. ”

In Conferência de 17/9/1987, no I Congresso Internacional da Faculdade de Letras da UFRJ – Discurso e ideologia.

Eduardo Portella (São Salvador, Brasil, 8/10/1932)
Crítico literário, ensaísta, professor, conferencista, pesquisador, pensador, advogado, político.

 

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