Gonçalves Crespo – Alguém

Gonçalves Crespo

Para alguém sou o lírio entre os abrolhos,
E tenho as formas ideais de Cristo;
Para alguém sou a vida e a luz dos olhos,
E, se na Terra existe, é porque existo.

Esse alguém, que prefere ao namorado
Cantar das aves minha rude voz,
Não és tu, anjo meu idolatrado!
Nem, meus amigos, é nenhum de vós!

Quando, alta noite, me reclino e deito,
Melancólico, triste e fatigado,
Esse alguém abre as asas no meu leito,
E o meu sono desliza perfumado.

Chovam bênçãos de Deus sobre a que chora
Por mim além dos mares! esse alguém
É de meus olhos a esplendente aurora;
És tu, doce velhinha, ó minha mãe!

Gonçalves Crespo (Rio de Janeiro, 11/3/1846 – Lisboa, 11/6/1883)
Poeta, colaborador em diversas publicações, deputado, licenciado em Direito – Univ. de Coimbra -, marido da escritora Maria Amália Vaz de Carvalho, com quem escreveu: Contos para os Nossos Filhos.

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