Lídia Jorge – Um Dia Claro (continuação)

Lídia Jorge

“No momento de se abandonar a praia, o rapaz não estava. Não estava nem perto nem longe, nem se encontrava entre as pernas dos veraneantes  que entretanto se haviam multiplicado por mil. Não estava.

Nessa altura, não havia lembrança de que alguém roubasse crianças, e por isso toda a incriminação, se dirigia para o mar.

É verdade que as ondas eram rasas, e ele nunca estava sozinho, mas depois das primeiras buscas o oceano começava a parecer aquele golfo onde os filhos se afogam. Entretanto, as pessoas juntavam-se para testemunhar, e todos tinham acabado de ver o triangulozinho vermelho.

Sob a intensidade da emoção, era preciso reconstituir os seus passos. Era preciso pensar em números de salvamento, coisas de polícia, buracos no meio do estômago que existem sem darmos por isso. Até que a irmã se lembrou de dizer (…)”

(continua)

In ÚNICA, Expresso, 21 Julho 2007

Lídia Jorge (Boliqueime, Algarve, 18 de Junho de 1946)
Romancista, autora de antologias poéticas e de uma peça de teatro, colaboradora de diversas revistas e jornais, professora, licenciada em Filologia Românica.

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