Jorge Reis-Sá – Pátio

Jorge Reis-Sá

Estive para ser entregue a Deus desde pequeno.
Não em sacrifício, como o frango que a minha avó
ainda mata nas traseiras da casa, golpe certeiro
no pescoço, o sangue a escorrer para a bacia
para que depois se junte ao arroz solto, à noite.
Estive para ser entregue a Deus com a batina
imaculada de um padre, entregue a Nosso Senhor
por oração e valência espiritual, há-de ser este
o menino, Manel, dizia a minha avó a meu pai,

cheia de esperança. Estive por ela, pelo meu pai,
que chegou a usar batina no seminário, e por mim,
tal o encanto das coisas sagradas. A minha avó

no pátio a olhar para a entrada da casa dizia, rapaz,
vamos à missa das dez e meia como se ao céu, e eu
aprendiz de feiticeiro a ajudar à missa como gente
grande, juntando as migalhas das hóstias com Deus

Nosso Senhor ao lado. Estive para ser entregue a Deus
e sentia ser esse o meu destino. Ainda hoje, quando
no fim do jantar limpo a banca – a louça na máquina,
a hóstia celebrada no pão nosso de cada dia -, dobro
silencioso o pano da cozinha como um paramento.

Recito: graças e louvores se dêem a todo o momento.
E ouço: ao Santíssimo e Diviníssimo Sacramento.

Jorge Reis-Sá (Vila Nova de Famalicão, 1977)
Poeta, romancista, contista e autor de antologias.

There are no comments on this post.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: