Lidia Jorge – Um Dia Claro (Continuação)

Lídia Jorge

” – Talvez ele tenha ido para o carro…”

A ideia parecia absurda. O carro tinha ficado longíssimo, muito para além dos pinheiros, impossível uma pista provir desse lado… e, no entanto,  começámos a andar, afastando-nos da praia, com a noção de que abandonávamos o único lugar onde se poderia encontrar o seu rasto. Mas não era verdade.

Levados por essa derradeira hipótese, saltámos a duna, entrámos no trilho da rodagem, e ao fundo pudemos ver que o desaparecido lá estava, da altura duma roda de carro, sem chapéu, sem toalha, sozinho, imóvel, à nossa espera. Ninguém falava.

Só a irmã correu para ele e o tomou pelos braços. Um tufo de folhos azuis e um triângulo vermelho abraçados.

– É assim que vejo a paisagem das belas férias. Uma aparição feita de duas pequenas figuras, estremecendo na luz, ofuscando o tamanho do Mundo, e o dia ficou claro.”

In ÚNICA, Expresso, 21 Julho 2007

Lídia Jorge (Boliqueime, Algarve, 18 de Junho de 1946)
Romancista, autora de antologias poéticas e de uma peça de teatro, colaboradora de diversas revistas e jornais, professora, licenciada em Filologia Românica.

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