Archive for Fevereiro, 2016

Eugénio de Andrade – Só o Cavalo…
Fevereiro 27, 2016

Eugénio de Andrade

Só o cavalo, só aqueles olhos grandes

de criança, aquela

profusão da seda, me fazem falta.

Não é a voz,

 

que tanto escutei, escura do rio,

nem a cintura fresca,

a primeira onde pousei a mão,

e conheci o amor;

 

é esse olhar que de noite em noite vem

da lonjura por algum atalho,

e me rouba o sono,

e não me poupa o coração.

 

Meu coração, alentejo de orvalho.

 

ANDRADE, Eugénio, Alentejo

Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, Fundão , 19/01/1923 – Porto, 13/06/2005)
Pseudónimo de José Fontinhas.
Poeta de renome internacional, tradutor, prosador, autor de literatura infantil, antologista, detentor de diversos prémios literários, nomeadamente o Prémio Camões em 2001.

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Grupos Naturais Verbo Causar – Causar Alegria / Causar Consternação / Causar Desgosto / Causar Dores / Causar Espanto / Causar Males / Causar Prejuízo
Fevereiro 26, 2016

As Vogais

Grupos Naturais – combinação de grupos a dois, associados naturalmente, frequentemente verbo-substantivo, constituindo expressões vulgarizadas pelo uso.

Apresentação de alguns exemplos:

 

VERBO CAUSAR – 

 Causar alegria

Ex.:  A notícia causou-lhe muita alegria;

 

Causar consternação

Ex.: O acidente causou consternação na cidade.

 

Causar desgosto

Ex.: A morte do cão causou desgosto à Cátia.

 

Causar dores

Ex.:  Aquele inchaço causava dores.

 

Causar espanto

Ex.: A notícia causou espanto.

 

Causar males

Ex.:  A aplicação do imposto causou males aos mais desfavorecidos.

 

Causar prejuízo

Ex.: Aquele jogo causou muitos prejuízos ao clube.

(continua)

 

Francisco Luiz Lopes – Sines, Convivências e Recreios (continuação)
Fevereiro 26, 2016

Breve Notícia de Sines

“Por S. João e S. Pedro, accendem aqui fogueiras de rosmaninho e alecrim, que são uma tristíssima cópia das do Algarve.

Quem viu uma noite de S. João nesta Província, com seus ranchos gamenhos, com suas moças donosas, suas mil cartilhas, suas petulantes bixininas, seus terríveis buscapés, suas brigas de fogo, seus montes de alecrim, suas vastas fogueiras, valverdes, modinhas, saltos, danças, cantos, alaridos, alcachofras, alguidares, ovos, banhos, meias noites fatídicas, passeios matinais, etc., etc., está autorizado, fallando de Sines, a empregar o superlativo de que acima usou.

Aqui não ha fogo solto. Canta-se, toca-se de roda dos mastros, e em turmas pelas ruas.

No dia de S. Pedro vão para a Ermida deste nome cantar e bailar 30 ou 40 moças, com outros tantos rapazes.

Lá se come, lá se brinca todo o dia.

Não é uma romaria, é um baile de roda aturado, estirado, incançavel, monótono. As letras e modas varião, enrouquecem os cantores, mas o compasso é quasi invariavel. Dura ás vezes quatro, seis horas a mesma cegarrega identica, nauseabunda.

(…)

Ha também de vez em quando algumas reuniões particulares, que menciono apenas, porque sobre ellas nada poderia dizer senão d´outiva.

Sines tem uma feição caracteristica, que se pode perfeitamente comprehender e resumir no anexim –  “pobrete, mas alegrete.”

 

LOPES, Francisco Luiz, Breve Notícia de Sines, Pátria de Vasco da Gama, Lisboa, Na Typographia do Panorama, 1850.

Francisco Luiz Lopes
Nasceu em Faro, 1816 e fixou-se em Sines de 1847 a 1869 como médico-cirurgião, a par de historiógrafo e cronista de costumes.

Dificuldades da Língua Portuguesa – Um Bombardeamento Intoxicante
Fevereiro 26, 2016

As Vogais

Partilhando…

É verdadeiramente intoxicante [cs] o bombardeamento de um jornalista sobre a intoxicação [ch] de que foram vítimas crianças num estabelecimento de ensino, hoje!  – diria  alguma voz de  poeta que… até o vento, que tudo escuta, manifesta um grande desassossego…

Fernanda de Castro – Reminiscência
Fevereiro 26, 2016

Fernanda de Castro

 

“…Lisboa, Santarém, Porto, Leiria…”

(eu sabia de cor toda a geografia)

O Senhor Inspector

deu-me a nota mais alta em geografia

e disse gravemente:

– “Continua. Hás-de ser gente…” –

 

“Ângulo recto, agudo,

cateto, hipotenusa…”

(Já manchara de giz a minha blusa

mas respondia a tudo

e a Professora sorria

enquanto eu papagueava a Geometria)

 

– “…D.Sancho, o Povoador…

D.Dinis, o Lavrador…

(Tinha então boa memória,

sabia as datas da história…)

1380

1640

1143

em Arcos de Valdevez…

(Muito bem, a pequena é simpática).

 

– “Vamos lá à gramática.” –

“…E, nem, não só, mas também…

conjunções copulativas”

(Eu pensava na alegria

que ia dar a minha mãe,

nas frases admirativas

da velha D.Maria,

a minha primeira mestra:

– Tão novinha e ficou “bem”!” –

e esta suavíssima orquestra

acompanhava, em surdina,

o meu primeiro exame de menina

aplicada, orgulhosa e inteligente…)

 

– “Vá ao quadro, menina! Docilmente

fiz os problemas, dividi fracções,

disse as regras das quatro operações

e finalmente

O Senhor Inspector felicitou-me,

quis saber o meu nome

e declarou-me

que ficara “distinta” sem favor.

 

Ah! que esplendor!

Que alegria total e sem mistura,

que orgulho, que vaidade!

Olhei de frente o sol e a claridade

não me cegou.

As estrelas, fitei-as como iguais.

Melhor: como rivais,

e a Humanidade

pareceu-me um rebanho sem vontade,

uma vasta colónia de formigas…

(As minhas pobres, tímidas amigas!)

 

Pouco depois, em casa,

a testa em fogo, o olhar em brasa,

gritei num desafio

à Terra, ao Céu, ao Mar, ao Rio:

– “O mãe, eu já sei tudo!”

No seu olhar tranquilo, de veludo,

no seu olhar profundo,

que era todo o meu mundo,

passou uma ironia tão velada,

uma ironia

tão funda, tão calada,

que ainda hoje murmuro, cada dia:

“- Ó mãe, eu não sei nada!”

 

CASTRO, Fernanda, Trinta e Nove Poemas 

Fernanda de Castro (Lisboa, 8/12/1900 – Lisboa, 9/12/ 1994)
Poetisa, romancista, dramaturga, escritora de literatura infantil, tradutora, fundadora da Associação Nacional dos Parques Infantis (1931), 1.ª mulher a receber o Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências de Lisboa (1945), co-fundadora, com o marido – António Ferro, escritor, jornalista e político – e outros, da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses, atual Sociedade Portuguesas de Autores, mãe de António Quadros e avó de Rita Ferro.

Luísa Ducla Soares – Meninos de Todas as Cores
Fevereiro 26, 2016

Luísa Ducla Soares

Era uma vez um menino branco chamado Miguel, que vivia numa terra de

meninos brancos e dizia:

 

É bom ser branco
porque é branco o açúcar, tão doce,
porque é branco o leite, tão saboroso,
porque é branca a neve, tão linda.

 

Mas certo dia o menino partiu numa grande viagem e chegou a uma terra

onde todos os meninos eram amarelos. Arranjou uma amiga, chamada

Flor de Lótus, que, como todos os meninos amarelos, dizia:

 

É bom ser amarelo
porque é amarelo o Sol
e amarelo o girassol
mais a areia da praia.

 

O menino branco meteu-se num barco para continuar a sua viagem e

parou numa terra onde todos os meninos são pretos. Fez-se amigo de um

pequeno caçador chamado Lumumba que, como os outros meninos

pretos, dizia:

 

É bom ser preto
como a noite
preto como as azeitonas
preto como as estradas que nos levam para
toda a parte.

 

O menino branco entrou depois num avião, que só parou numa terra onde

todos os meninos são vermelhos.

Escolheu para brincar aos índios um menino chamado Pena de Águia. E o

menino vermelho dizia:

 

É bom ser vermelho
da cor das fogueiras
da cor das cerejas
e da cor do sangue bem encarnado.

 

O menino branco foi correndo mundo até uma terra onde todos os meninos

são castanhos. Aí fazia corridas de camelo com um menino chamado Ali-

Babá, que dizia:

 

É bom ser castanho
como a terra do chão
os troncos das árvores
é tão bom ser castanho como um chocolate.

 

Quando o menino voltou à sua terra de meninos brancos, dizia:

 

É bom ser branco como o açúcar
amarelo como o Sol
preto como as estradas
vermelho como as fogueiras
castanho da cor do chocolate.

 

Enquanto, na escola, os meninos brancos pintavam em folhas brancas

desenhos de meninos brancos, ele fazia grandes rodas com meninos

sorridentes de todas as cores.

 

SOARES, Luísa Ducla, O Meio Galo

 

Luísa Ducla Soares (Lisboa, 20/7/1939)
Poetisa ligada ao grupo Poesia 61, destacada escritora de literatura infantil, licenciada em Filologia Germânica.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Cabo Verde – Ovídio Martins, Caboverdianamente
Fevereiro 26, 2016

Ovídio Martins

Detém-te lágrima
Não ferimos ainda o último combate
Ah este desejar loucamente o sol
este ansiar febril por fontes que não há
Detém-te e espera
caboverdianamente espera
o dia em que
devagarinho
penetrarás
a terra geminada de esperança
Detém-te lágrima
que estás no limiar
do reino
encharcado de sol
do belo reino encharcado de sol
a razão crioula da nossa luta
Detém-te e olha
as palavras feitas raízes
entrelaçadas de amor
e sangue
confundidas na mesma seiva
que alimenta
montes
e sargaços
Detém-te lágrima
e aguarda
calmamente aguarda
caboverdianamente

 

Ovídio Martins (São Vicente,  17/9/1928 – Lisboa, 29/04/1999)

Poeta e jornalista, co-fundador do Suplemento Cultural.

 

Antunes da Silva – Os Beijos do Sol Alentejano
Fevereiro 26, 2016

Antunes da Silva

” Era verdade que a planície morria de sedentos anos de torrina. Desde o alvor da manhã à boquinha da noite, nem um susto de aragem, mesmo morna que fosse, rebentava no Alentejo. (…)

Mas também era verdade que o deserto de pão se estendia ao comprido pelo mundo alentejano e amadurecia com beijos brutais de um sol mordaz, incitado das passividade revoltas  no extremo da raiz.

Os homens já tinham armado a alma às brasas do clima (…) ”

SILVA, Antunes da, Suão 

Antunes da Silva (Évora, 31/7/1921 – 1997)
Poeta, contista, cronista, participou em várias publicações, escreveu dois diários.

Raul Brandão – A Nossa Terra Portuguesa
Fevereiro 26, 2016

Raul Brandão

“10 de Agosto – 1921

Esta nossa terra portuguesa vai pela costa fora sempre de braços abertos para o mar, estreitando-o amorosamente contra si. Começa em Caminha até ao forte de Âncora (…)

Todas as povoações são viradas para o mar. O sol doira uma janela, uma eira, um espigueiro, o campo do milho alimentado a sargaço que tem os pés na água. E o biombo cor de rosa desenrolasse sempre ao lado do comboio…”

BRANDÃO, Raul, Os Pescadores

Raul Brandão (Foz do Ouro, 12/3/1867 – Lisboa, 5/12/1930)
Escritor, jornalista e militar.

Bernardo Santareno – A Amizade
Fevereiro 26, 2016

Bernardo Santareno

“(…) Eram ambos nazarenos.

O Cristovão vinha doente (…). O outro, tímido, ansioso, ajudava o amigo (…)

Sempre juntos, eram terríveis de energia, de fúria… quase ferozes!

Sempre juntos: o que um deles começava, o outro acabava.

Que maravilhosa amizade, a daqueles dois! Pureza, virilidade perfeita, graça, sobressalto de mãe ou de amante… tudo isto os ligava.

Trabalhavam, divertiam-se, comiam e descansavam numa atmosfera de princípio de mundo, envoltos numa luz virgem, substancial e viva!… (…)”

SANTARENO, Bernardo, Nos Mares do Fim do Mundo

Bernardo Santareno (Santarém, 19/11/1920 – Lisboa, 19/8/1980)
Pseudónimo de António Martinho do Rosário
Dramaturgo, considerado o maior no panorama literário português do século XX, poeta, licenciado em Medicina Psiquiátrica.