Eugénio de Andrade – Véspera da Água

Eugénio de Andrade

Tudo lhe doía

de tanto que lhes queria:

 

a terra

e o seu muro de tristeza,

 

um rumor adolescente,

não de vespas

mas de tílias,

 

a respiração do trigo,

 

um beijo aberto na sombra,

 

tudo lhe doía:

 

a frágil e doce e mansa

masculina água dos olhos,

 

o carmim entornado nos espelhos,

 

os lábios,

instrumentos da alegria,

 

de tanto que lhes queria:

 

os dulcíssimos melancólicos

magníficos animais amedrontados,

 

um verão difícil

em altos leitos de areia,

 

a haste delicada de um suspiro,

 

o comércio dos dedos em ruína,

 

a harpa inacabada

da ternura,

 

um pulso claramente pensativo,

 

lhe doía:

 

na véspera de ser homem,

na véspera de ser água,

o tempo ardido,

 

rouxinol estrangulado,

 

meu amor: amora branca,

 

o rio

inclinado

para as aves,

 

a nudez partilhada, os jogos matinais,

ou se preferem: nupciais,

 

o silêncio torrencial,

 

a reverência dos mastros,

 

no intervalo das espadas

uma criança corre

corre na colina

atrás do vento,

 

de tanto que lhes queria,

tudo tudo lhe doía.

ANDRADE, Eugénio, Antologia Breve

Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, Fundão , 19/01/1923 – Porto, 13/06/2005)
Pseudónimo de José Fontinhas.
Poeta de renome internacional, tradutor, prosador, autor de literatura infantil, antologista, detentor de diversos prémios literários.

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