Fernanda de Castro – Reminiscência

Fernanda de Castro

 

“…Lisboa, Santarém, Porto, Leiria…”

(eu sabia de cor toda a geografia)

O Senhor Inspector

deu-me a nota mais alta em geografia

e disse gravemente:

– “Continua. Hás-de ser gente…” –

 

“Ângulo recto, agudo,

cateto, hipotenusa…”

(Já manchara de giz a minha blusa

mas respondia a tudo

e a Professora sorria

enquanto eu papagueava a Geometria)

 

– “…D.Sancho, o Povoador…

D.Dinis, o Lavrador…

(Tinha então boa memória,

sabia as datas da história…)

1380

1640

1143

em Arcos de Valdevez…

(Muito bem, a pequena é simpática).

 

– “Vamos lá à gramática.” –

“…E, nem, não só, mas também…

conjunções copulativas”

(Eu pensava na alegria

que ia dar a minha mãe,

nas frases admirativas

da velha D.Maria,

a minha primeira mestra:

– Tão novinha e ficou “bem”!” –

e esta suavíssima orquestra

acompanhava, em surdina,

o meu primeiro exame de menina

aplicada, orgulhosa e inteligente…)

 

– “Vá ao quadro, menina! Docilmente

fiz os problemas, dividi fracções,

disse as regras das quatro operações

e finalmente

O Senhor Inspector felicitou-me,

quis saber o meu nome

e declarou-me

que ficara “distinta” sem favor.

 

Ah! que esplendor!

Que alegria total e sem mistura,

que orgulho, que vaidade!

Olhei de frente o sol e a claridade

não me cegou.

As estrelas, fitei-as como iguais.

Melhor: como rivais,

e a Humanidade

pareceu-me um rebanho sem vontade,

uma vasta colónia de formigas…

(As minhas pobres, tímidas amigas!)

 

Pouco depois, em casa,

a testa em fogo, o olhar em brasa,

gritei num desafio

à Terra, ao Céu, ao Mar, ao Rio:

– “O mãe, eu já sei tudo!”

No seu olhar tranquilo, de veludo,

no seu olhar profundo,

que era todo o meu mundo,

passou uma ironia tão velada,

uma ironia

tão funda, tão calada,

que ainda hoje murmuro, cada dia:

“- Ó mãe, eu não sei nada!”

 

CASTRO, Fernanda, Trinta e Nove Poemas 

Fernanda de Castro (Lisboa, 8/12/1900 – Lisboa, 9/12/ 1994)
Poetisa, romancista, dramaturga, escritora de literatura infantil, tradutora, fundadora da Associação Nacional dos Parques Infantis (1931), 1.ª mulher a receber o Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências de Lisboa (1945), co-fundadora, com o marido e outros, da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses, atual Sociedade Portuguesas de Autores.

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