Archive for Abril, 2016

Cecília Meireles – Ser Criança
Abril 30, 2016

Cecília Meireles

“(…) Uma criança que brinca não é apenas, como muitos leitores podem pensar, um alívio para os pais… É uma coisa muito grandiosa, quase sempre desapercebida de todas as circunstâncias.

Uma criança que brinca é alguém que está mergulhado no próprio infinito, nesse infinito de onde os adultos foram arrancados, alguns à força, outros insensivelmente, e ao qual muitos ainda podem regressar de novo, por um supremo esforço da sua atividade em reconquistar o estado de harmonia perdido. (…)

Vamos ser  crianças como as crianças. Pode ser que ainda não seja tarde. As crianças não sabem disse de ser tarde, nem do ontem nem do amanhã. (…)

Vamos achar que é bonito isto de ir passando para trás os dias e as noites. Que é maravilhoso isto de estar vivendo, mesmo sem saber para quê… (…)

MEIRELES, Cecília, Crônicas de Educação

Cecília Meireles (Rio de Janeiro, 7/11/1901 – Rio de Janeiro, 9/11/1964)
Poetisa, professora e jornalista, fundadora da 1.ª Biblioteca Infantil do Rio de Janeiro.

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Sophia – A Cultura – Intervenção na Assembleia Constituinte (3/9/1975), Excertos – Continuação
Abril 30, 2016

Sophia de Mello Breyner Andresen

“(…) Por isso, toda a população tem direito à inviolabilidade e à livre expressão das formas de cultura que lhe são próprias. (…)

A cultura dos trabalhadores rurais, dos pescadores, a cultura das aldeias longínquas, não é uma cultura menor. E se essa cultura está paralisada pelo isolamento, esmagada e traumatizada pela pobreza e em muitos aspectos mesmo ja semidestruída, no entanto, ela permanece na sua raiz, uma semente de revolução, pois é uma cultura não burguesa, uma cultura integrada no trabalho e na vida, uma cultura do comportamento humano. (…)

A liberdade de ensinar e de aprender decorre naturalmente da liberdade de inventar e criar e divulgar. Aliás, aprender e ensinar não são apenas direitos, mas também deveres. E, paralelamente, ensinar é pôr a cultura em comum (…).

Não devemos temer os perigos de liberdade. O temor dos inimigos da liberdade e do uso que da liberdade possam fazer  não pode levar-nos a destruir à partida a nossa pobre liberdade de inventar, imaginar, participar.

O socialismo será construído através da união entre intelectuais com todos os trabalhadores. Através de uma revolução cultural, que nos pede toda a nossa imaginação, que nascerá de formas de criação livremente críticas e, por isso, livre na sua participação.”

In JL, 30 de março a 12 de abril de 2016

Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 06/11/1919 – Lisboa, 02/07/2004)
Poetisa, contista, autora de literatura infantil e tradutora, a 1.ª mulher portuguesa a receber o prémio Camões (1999)

Dificuldades da Língua Portuguesa – O Verbo Gostar e a Regência Preposicional
Abril 30, 2016

As Vogais

A regência é  relação entre duas palavras em que a segunda serve de complemento à primeira.

 

O verbo gostar rege a preposição de – pede um  complemento  introduzido pela preposição.

Ex.: A Raquel gosta de ouvir música clássica.

 

A preposição mantém-se quando o verbo gostar fizer parte de uma oração relativa cujo antecedente é o seu complemento direto.

Ex.: O prato de que ela mais gosta é feijoada.

 

Entre os verbos que regem esta preposição constam: arrepender-se, assegurar-se, cansar-se, certificar, chorar, convencer,  dispor, duvidar, esquecer-se, falar, fugir, informar, lembrar-se,  persuadir,  recordar-se, ter.

Ary dos Santos – A Máquina Fotográfica
Abril 28, 2016

Ary dos Santos

É na câmara escura dos teus olhos
que se revela a água

água imagem
água nítida e fixa
água paisagem
boa nariz cabelos e cintura
terra sem nome
rosto sem figura
água móvel nos rios
parada nos retratos
água escorrida e pura
água viagem trânsito hiato.

Chego de longe. Venho em férias. Estou cansado.
Já suei o suor de oito séculos de mar
o tempo de onze meses de ordenado;
por isso, meu amor, viajo a nado
não por ser português mal empregado
mas por sofrer dos pés
e estar desidratado.

Chego. Mudo de fato. Calço a idade
que melhor quadra à minha solidão
e saio a procurar-te na cidade
contrastada violenta negativa
tu única sombra murmurada
única rua mal iluminada
única imagem desfocada e viva.

Moras aonde eu sei.
É na distância
onde chego de táxi.
Sou turista
com trinta e seis hipóteses no rolo;
venho ao teu miradoiro ver a vista
trago a minha tristeza a tiracolo.

Enquadro-te regulo-te disparo-te
revelo-te retoco-te repito-te
compro um frasco de tédio e um aparo
nas tuas costas ponho uma estampilha
e escrevo aos meus amigos que estão longe
charmant pays
the sun is shining
love.

Emendo-te rasuro-te preencho-te
assino-te destino-te comando-te
és o lugar concreto onde procuro
a noite de passagem o abrigo seguro
a hora de acordar que se diz ao porteiro
o tempo que não segue o tempo em que não duro
senão um dia inteiro.

Invento-te desbravo-te desvendo-te
surges letra por letra, película sonora,
do sendo à vogal do tema à consoante
sem presença no espaço sem diferença na hora.
És a rota da Índia o sarcasmo do vento
a cãibra do gajeiro o erro do sextante
o acaso a maré o mapa a descoberta
dum novo continente itinerante.

José Carlos Ary dos Santos (Lisboa, 7/12/1937 – Lisboa, 18/1/1984)
Poeta, declamador, autor de poemas para canções, animador político, profissional de publicidade.

Eugénio de Andrade – Mar, Mar e Mar
Abril 28, 2016

Eugénio de Andrade

Tu perguntas, e eu não sei,
eu também não sei o que é o mar.

É talvez uma lágrima caída dos meus olhos
ao reler uma carta, quando é de noite.
Os teus dentes, talvez os teus dentes,
miúdos, brancos dentes, sejam o mar,
um mar pequeno e frágil,
afável, diáfano,
no entanto sem música.

É evidente que minha mãe me chama
quando uma onda e outra onda e outra
desfaz o seu corpo contra o meu corpo.
Então o mar é carícia,
luz molhada onde desperta
meu coração recente.

Às vezes o mar é uma figura branca
cintilando entre os rochedos.
Não sei se fita a água
ou se procura
um beijo entre conchas transparentes.

Não, o mar não é nardo nem açucena.
É um adolescente morto
de lábios abertos aos lábios de espuma.
É sangue,
sangue onde a luz se esconde
para amar outra luz sobre as areias.

Um pedaço de lua insiste,
insiste e sobe lenta arrastando a noite.
Os cabelos de minha mãe desprendem-se,
espalham-se na água,
alisados por uma brisa
que nasce exactamente no meu coração.
O mar volta a ser pequeno e meu,
anémona perfeita, abrindo nos meus dedos.

Eu também não sei o que é o mar.
Aguardo a madrugada, impaciente,
os pés descalços na areia.

Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, Fundão , 19/01/1923 – Porto, 13/06/2005)
Pseudónimo de José Fontinhas.
Poeta de renome internacional, tradutor, prosador, autor de literatura infantil, antologista, detentor de diversos prémios literários, nomeadamente o Prémio Camões em 2001.

Luiza Neto Jorge – A Casa do Mundo
Abril 28, 2016

Luiza Neto Jorge

Aquilo que às vezes parece
um sinal no rosto
é a casa do mundo
é um armário poderoso
com tecidos sanguíneos guardados
e a sua tribo de portas sensíveis.

Cheira a teias eróticas. Arca delirante
arca sobre o cheiro a mar de amar.

Mar fresco. Muros romanos. Toda a música.
O corredor lembra uma corda suspensa entre
os Pirinéus, as janelas entre faces gregas.
Janelas que cheiram ao ar de fora
à núpcia do ar com a casa ardente.

Luzindo cheguei à porta.
Interrompo os objetos de família, atiro-lhes
a porta.
Acendo os interruptores, acendo a interrupção,
as novas paisagens têm cabeça, a luz
é uma pintura clara, mais claramente lembro:
uma porta, um armário, aquela casa.

Um espelho verde de face oval
é que parece uma lata de conservas dilatada
com um tubarão a revirar-se no estômago
no fígado, nos rins, nos tecidos sangúíneos.

É a casa do mundo:
desaparece em seguida.

Luiza Neto Jorge (Lisboa, 1939 – Lisboa,1989)
Poetisa e tradutora, escreveu para o teatro e para o cinema, é considerada a personalidade poética mais importante da Poesia 61.

Carlos Queirós – Navio
Abril 28, 2016

Carlos Queirós

 

Afastava-se o navio. – Como era

Tão grande, junto ao cais, quando esperava

A hora da partida, que eu julgava

Impossível passar de eterna espera!

 

Afasta-se… Bem vejo que acelera

A marcha, que uma súplica não trava.

– É inútil ficares, minh´alma, escrava

Da sensação que as águas dilacera.

 

Que importa que se afaste?! O que é pior,

É lembrar-nos a nossa pequenez,

Quando se torna cada vez menor…

 

Dilui-se, pouco a pouco, a nitidez;

Mas deixa, como um rastro, a eterna dor

Do Homem – e de tudo quanto fez.

 

Carlos Queirós (Lisboa, 5/4/1907 – Paris, 27/10/1949)
Poeta modernista, um dos grandes vultos da Revista Presença.

Sophia – A Cultura – Intervenção na Assembleia Constituinte (3/9/1975), Excertos – Continuação
Abril 25, 2016

Sophia de Mello Breyner Andresen

“Durante 48 anos a maioria dos escritores, artistas e intelectuais portugueses lutaram contra o fascismo. E ao lutar sabiam que não lutavam apenas pela sua liberdade, que não lutavam por uma “liberdade especializada”, mas que lutavam pela libertação do povo  a que pertencem e pela justiça e pela verdade da vida.

E a liberdade de expressão e de cultura, e nomeadamente a liberdade de crítica, é intrinsecamente necessária à busca e à construção da justiça. (…)

Precisamos de uma revolução culturalmente apta a fazer constantemente o seu exame de consciência. (…)

Somos um país que tem às costas séculos de inquisição e meio século de fascismo, com censura, prisões, escritores e pintores e intelectuais exilados, livros proibidos, exposições proibidas, projectos que nunca se ergueram. (…)

De tudo isto queremos emergir. Queremos uma relação limpa e saudável entre a cultura e a política. Não queremos opressão cultural. Também não queremos dirigismo cultural. (…)

Não aceitamos a cultura como luxo de privilegiados nem como superioridade de eleitos. O lugar da cultura é a comunidade. (…)”

(continua)

In JL, 30 de março a 12 de abril de 2016

Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 06/11/1919 – Lisboa, 02/07/2004)
Poetisa, contista, autora de literatura infantil e tradutora, a 1.ª mulher portuguesa a receber o prémio Camões (1999)

António Torrado – Amar o Mar
Abril 25, 2016

António Torrado

“Linha do Estoril, 15 de janeiro

Fui ter com o mar. Das vezes que cedo ao impulso e satisfaço saudades do mar a sério, o das marés vivas que afrontam as praias desertas, sinto, diante da paisagem turvada e violenta, revigorar-se todo o meu ser como se o banho de maresia fosse o grande tónico para prolongar a vida.

Num paredão em grandes letras: AMAR O MAR. É um programa, uma interpretação, um desafio.  (…)

AMAR É NÃO TER MEDO. Li-o em Coimbra, há anos, perto do Jardim Botânico.

Apeteceu-me, agora, associar os dois, decerto escritos em tempos diferentes por pessoas diferentes, pensando coisas diferentes: Aí vai: AMAR O MAR É NÃO TER MEDO. (…)”

 

In JL , “Diário”, 8 a 21 de fevereiro de 2012

 

António Torrado (Lisboa, 21/11/1939)
Poeta, dramaturgo, contista, destacado autor de literatura infantil e juvenil, professor, pedagogo, jornalista, licenciado em Filosofia.

Manuel Nunes – Ser Professor-Escritor
Abril 22, 2016

Manuel Nunes

“(…) Primeiro que tudo, preciso de esclarecer que não me considero um escritor. De facto, gostaria muito de ser escritor, mas a verdade é que não o sou nem estou em condições de poder aspirar a sê-lo, pois não tenho talento para tal e, mesmo que o tivesse, não tenho tempo para o aperfeiçoar e desenvolver de modo conveniente, pela simples razão de que a minha atividade profissional me absorve completamente (aulas, cargos diretivos e outras tarefas de caráter pedagógico).

Eu sou um professor que amplifica a sua ação pedagógica através da escrita (uma escrita imperfeita, dolorosamente imperfeita.

(…) Quando me dou conta de que há pessoas a sofrer devido à confusão sobre questões às quais eu tenho obrigação de dar alguma resposta, a minha consciência obriga-me a responder por escrito. Os onze livros que até hoje publiquei foram concebidos e gerados a partir desta intenção.(…)”

In Livros & Leituras, A Sua Revista Literária, “Entrevistas”, 31/08/2012

Manuel da Silva Nunes (Pampilhosa da Serra, 24/10/1953)
Escritor com publicações na área da pedagogia, professor, licenciado em Filosofia e Teologia, estudou ainda Psicologia e Ciências da Educação, bem como LLM-Estudos Portugueses.