António Patrício – Pescadores

António Patrício

A pesca que eu sonhei nas águas dum mar vago
espumas d’oiro e sol, cristas azuis de lua −
é longe desse mar dramático e pressago
por onde em barcos tristes vosso olhar flutua…
É sobre águas serenas
que reflectem a rir as nossas penas,
por onde caminhou o Cristo docemente
na paz cristã dum legendário poente…
Na pesca que eu sonhei iam os pescadores
(não como vós, roucos de dor, as mãos crispadas)
sobre um mar de piedade aberto em flores
que o vento ia esfolhando em pétalas nevadas…

A pesca que eu sonhei que vos importa
a vós os que partis nas roxas manhãs frias
e ouvis as águas a rezar ave-marias
pela alma talvez da noite morta…
a vós que ides cumprindo esse destino
e sabeis entender a voz do vento
e tanta vez errais no mar sem tino
olhando vagamente o céu nevoento…
a vós irmãos das águias que perdidas
vão doidas de saudade pelas brumas
e rezais a chorar de mãos erguidas
os rosários partidos das espumas…

No barco que afinal é o vosso lar das águas,
lançais a vossa rede e as vossas mágoas
ao mar sagrado do Senhor…
E tudo que ele diz − ladainhas de dor,
rezas d’outono, músicas, soluços −
como que o não ouvis se descansais de bruços,
os claros olhos húmidos d’amor…
Mas quando os ventos vão rasgar as velas
que tanto luar diáfano sagrou
e os lúgubres fantasmas das procelas
cortam o ar d’inverno que gelou,
o peito nu, as magras mãos crispadas,
num esforço supremo a combater,
lembrais as vossas noivas desgraçadas
vossos filhos talvez a adormecer,
o adro, a casa branca, as romarias,
as vossas mães velhinhas sem ninguém
e as covas das ondas muito frias
e os outros, vossos pais, que Deus lá tem…
E as águas mugem sobre vós num doido assalto…

Na vossa voz há ecos d’ondas no mar alto,
no vosso olhar há coisas vagas, esquecidas,
tons de lua a morrer no colo duma onda,
vestígios d’ilusões já ressequidas,
o mistério do mar que ninguém sonda…
Levais a cruz de Cristo sobre o peito…
(Campo Santo do mar que não tens cruzes!)
Se o leme parte ao temporal desfeito
e a espuma ri em turbilhões de luzes,
quando caís de joelhos a rezar,
os olhos vagos no pavor da morte,
pensais que vão ficar no vosso lar
bocas sem pão gritando a vossa sorte…

E uma manhã bem roxa de piedade,
vossas viúvas trágicas, de preto,
hão-de beijar-vos loucas de saudade
e arrancar-vos do peito o amuleto…

Meus rudes e trigueiros pescadores,
olhos da cor do mar, único Livro d’Horas!
que não sabeis que quem suporta as vossas dores
é santo e tem a bênção das auroras…
Moradores do túmulo das águas
em que dormis a rir como num berço,
poetas que deitais vossas redes de mágoas
lembrando o lar humilde em que se reza o terço…
Heróis que não sabeis o que é heroísmo,
suicidas serenos d’aventura,
corações de crianças sem egoísmo
a dizer orações à noite escura…

Queria embalar-vos nos meus versos e dizer-vos
que sou um vosso irmão e sinto nos meus nervos
e em todo o meu ser, o vosso ser,
a ânsia de partir, a alegria da volta
sobre as águas erguidas em revolta,
a saudade de tudo que eu maldigo
a dor de errar na treva sem abrigo,
e a sede
de deitar docemente a minha rede,
como um pálio de luz por sobre o oceano…
Queria viver todas as vossas dores,
as noites de mar bravo, os poentes de mar plano,
a vossa vida nómada no oceano…

António Patrício (Porto, 7/3/1878 – Macau, 4/6/1930)
Poeta, dramaturgo, contista, colaborador em revistas, médico e diplomata.

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