Al Berto – A Última Página do Diário

Al Berto

“Hoje 5 * Hospital dos Capuchos. Cama 8

(com uma santinha)

A Manuela disse-me que “Horto de Incêndio” foi o segundo livro vendido na Festa do Livro. O 1.º foi a “Espuma dos dias” (do Boris Vian) estou a leste disto tudo.

Hoje devia estar aqui na Festa do Livro, mas faz calor e eu não me equilibro há muito bem. Vou andando. Estou à espera dos exames.

Vamos ver amanhã 2.ª feira. Faço um grande esforço para escrever. Mas se não o faço não sei.  Não posso. É tudo o que seresta é escrever, sobretudo à noite.

Durante o dia tenho visitas e durmo, durmo sem fim – e tenho alucinações.

Vejo tudo ao contrário.

 

Tenho saudade do Jean-Pierre. Quando voltar há-de saber que estou internado. Há-de vir ver-me!

 

Que horas serão lá fora? Não é a mesma que aqui? São horas diferentes.

A hora aqui não passa é uma hora estática como a do “Marinheiro” onde as horas não passam – ou passam lentamente, ou não passam porque o tempo é uma invenção. Não passa. E é domingo, outro, tanto faz. Se não é domingo,  virá outro lá para o fim da semana. Tenho cada vez menos força para escrever. Mesmo coisas sem sentido.”

*[maio de 1997]

AL BERTO, Diários

Al Berto (Coimbra, 11/1/1948-Lisboa, 13/6/1997)
Pseudónimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares
Poeta, pintor, editor, animador cultural, um “coimbrense-siniense” único.

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