David Mourão-Ferreira – Madrugada de Alfama

David Mourão-Ferreira

Mora num beco de Alfama

e chamam-lhe a Madrugada.

Mas ela, de tão ´stouvada

nem sabe como se chama.

Mora num´ água-furtada

que é a mais alta de Alfama

e que o sol primeiro inflama

quando acorda à madrugada.

 

Nem mesmo na Madragoa

ninguém compete com ela,

que do alto da janela

tão cedo beija Lisboa.

E a sua colcha amarela

faz inveja à Madragoa:

Madragoa não perdoa

que madruguem mais do que ela.

 

Mora num beco de Alfama

e chamam-lhe a Madrugada.

São mastros de luz doirada

os ferros da sua cama.

E a sua colcha amarela

a brilhar sobre Lisboa,

é como a ´státua de proa

que anuncia a caravela…

 

David Mourão-Ferreira (Lisboa, 24/2/1927 – 16/6/1996)
Poeta, novelista, romancista, ensaísta, colaborador de múltiplos jornais e revistas, co-fundador da revista Távola Redonda, professor, licenciado em Filologia Românica.

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