Nuno Júdice – A Terra do Nunca

Nuno Júdice

Se eu fosse para a terra do nunca,

teria tudo o que quisesse numa cama de nada:

 

os sonhos que ninguém teve quando

o sol se punha de manhã;

 

a rapariga que cantava num canteiro

de flores vivas;

 

a água que sabia a vinho na boca

de todos os bêbedos.

 

Iria de bicicleta sem ter de pedalar,

numa estrada de nuvens.

 

E quando chegasse ao céu, pisaria

as estrelas caídas num chão de nebulosas.

 

A terra do nunca é onde nunca

chegaria se eu fosse para a terra do nunca.

 

E é por isso que a apanho do chão,

e a meto em sacos de terra do nunca.

 

Um dia, quando alguém me pedir a terra do nunca,

despejarei todos os sacos à sua porta.

 

E a rapariga que cantava sairá da terra

com um canteiro de flores vivas.

 

E os bêbedos encherão os copos

com água que sabia a vinho.

 

Na terra do nunca, com o sol a pôr-se

quando nasce o dia.

 

Nuno Júdice (Mexilhoeira Grande, Algarve, 1949)
Escritor, poeta, ensaísta, colaborador em várias publicações, professor catedrático.

 

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